sexta-feira, março 17
Gelatina
Por mais que tente pegá-la, agarrá-la, mesmo por um ínfimo momento, não conseguirás. É como uma gelatina pululante, que se esparrama pelos dedos, no difícil momento em que consegues tê-la em mãos. Aliás, não a tens em mãos. Ontem, alisaste a vida, eu sei, e achaste que fosse capaz de segurá-la. Ledo engano, menino inocente. Talvez porque esteja com a noção errada do que seja ter a vida em mãos.
Controlá-la?
Se é isso que pensas, pena de ti. Pois nunca conseguirás e mesmo que conseguisses, terias um insuportável sabor de chatice misturado com a amargura da onipotência, que a vida – essa mesma que não consegues agarrar – te fez ter. Controlá-la significaria perder o prazer – o maior da vida – do imprevisível, que te faz mudar os planos que tanto prezas, mas, que no fundo sabes, insuportáveis.
Agora, ter a vida em mãos pode ser a consciência de que não ela não é controlável e de que é o imprevisível, o não controle, o que mais te causa prazer. A tem em mãos no momento em que não a tem. Sim, sei que parece filosofia barata. Redefinirei.
Saber alguns dos meandros da vida, ou ao menos da tua vida, é a consciência necessária para te livrar das angústias da vulnerabilidade que sentes, pois tal consciência te mostra o quanto gostas desta gelatina pululante, desta incerteza diária, desta vulnerabilidade que tanto te angustia. Não pela angústia, mas pelo prazer da incerteza que te causa. Será que pela angústia também?
E a vida voa. E a vida voa. E se esparrama.
quarta-feira, março 8
Sou
Algo como “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê”. Ah, essa música é bacana, pois diz o que sente sem saber o que sente, já que não sabe o porquê.
Quero dizer o que sinto, sem saber exatamente. Por que precisaria saber exatamente? Mania de exatas. O mundo é viciado nas ciências exatas. Na lógica formal.
Quero sentir o contraditório. Matar a razão do filho da professora de matemática com dois sentimentos opostos. Quero amar o odiável e me permitir odiar o amável.
Tudo parece engraçado e ridículo quando exposto aos nossos julgamentos. Fodam-se. Fudamo-nos. Deixemos de ser ridículos e sintamos. As pessoas, as músicas, o vento. Mesmo que repetidas.
Mesmo que nossas. Mesmo que nossas. Mais uma vez, mesmo que nossas. Respeitemos os sentimentos. Mesmo que nossos. As músicas, mesmo que nossas. As pessoas, mesmo que nossas. Ops, ato falho, não possuo ninguém, por mais que queira.
Não me possuo. Não te possuo. Embora possuído seja.
“E lá se vai mais um dia”. Sinto-me possuído pelas melodias melodiosas. Aquelas que batem e ficam. Aquelas que ficam e batem. Batem e fazem bater ainda mais. Tenho um coração que bate, que sente. Tenho um coração. Não quero, necessariamente, com isso, ter mais. Mas é magnífica a sensação de ser. De ser humano. De ter um coração. De ter um coração que bate.
Ando descobrindo que sou. Por vezes “egocentro” as coisas, mas não necessariamente. Sei, nas profundezas da minha consciência que não há de ser só aqui que bate um coração. Felizmente, pois haveria de ser tedioso esse triunfo egocêntrico. Haveria de ser solitário. Não haveria de ser, aliás.
Ando descobrindo que sou. Que serei. E seres também.
terça-feira, fevereiro 28
Média
Caretice mesmo é o desregramento pelo simples medo da caretice. Desregramento que não respeita os limites suportáveis.
Nova sensação de mediocridade. Como se nunca fosse além.
quarta-feira, fevereiro 22
alisE
Ou seriam assustadores?
Nada disso, são doces.
Só tem medo ou susto
Quem não os vê
Com a devida atenção
E não percebe que a força é frágil
Ou está na fragilidade
Dos olhos fortes.
E assim dizia os bobos idos de dezembro de 2005:
E volta a cara de bobo
Que de boba nada tem
Estimulada pela insistência
De viver algo além
Além do que se vê
Com os olhos fracos
E desatentos.
quinta-feira, fevereiro 9
O resto
Meio que sou,
Meio que vou,
Meio que cedo,
Meio que tarde,
Meio que noite,
Meio que bobo,
Meio que sério,
Meio que eu,
Meio que procuro,
Não tão despretensiosamente assim,
O resto.
quarta-feira, janeiro 25
L(e)amb(r)ança
Não é só isso,
Tem um tanto daquilo outro,
Mas é isso também
E isso é o que resta a ser feito.
As nossas melhores lembranças
E lambanças
Aparecem vez em quando
Pra desvirtuar as outras tantas em construção.
Não devem ser motivo de culpa,
Muito menos de desvirtuamento ou descontrução,
Pois como sabemos bem,
Toda essa vida nova se baseia e se constrói
A partir das lambanças passadas
Mas não me pergunte o que são as lambanças presentes
Nem o que fazer com elas.
sexta-feira, janeiro 6
Ai, a primeira fresta
Que amava Juca que amava Dora que amava
Carlos amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
(Flor da Idade - Chico Buarque)
sábado, dezembro 31
Torres Ribeiro
Clara Ana,
Claríssima,
Aníssima,
Claro que é Ana,
Ana que é Clara,
Que clareia,
Que elucida,
Que apaixona.
Clarana,
Serás Ana e Clara
E do mais,
Apenas será
Como a vida a moldar -
Sem idealizações.
Porém, se fores clara
Como a Ana Clara,
Moldarás a vida
E as pessoas que por ti passarem,
Com a claridade de tua alma,
Idealizada por mim, é claro,
Que por mais que tente,
Sou humano.
quinta-feira, dezembro 29
Aprendizado
Procuro na gritaria noturna, mascarada pelo silêncio que chamam de calada, uma pequenina explicação pras doenças da alma e do ego a que todos estamos vulneráveis, mas que poucos querem(os) admitir. Não admissão que agrava o estado clínico, pois a falta de diagnóstico agrava a doença pelo fato de lidarmos com os nossos defeitos da mesma forma doentia e defeituosa que os causaram. Não saímos do ciclo vicioso, não aprendemos nada com o que se passa.
Quero gente, amar gente, largar esse amor platônico e doentio que só sabe idealizar personagens de contos de fadas. Tenho a convicção de que me aceitarei muito mais como gente, ambíguo que sou, quando minhas paixões, amores e até desamores, forem gente ao invés de mocinhos e vilões.
Sim, sentirei falta do amor rasgado, inexplicável, apesar de tentar empalavrá-lo o tempo todo, sem fechar a minha matraca, racional que sou. Foi-me útil por mostrar que o sentimento é meu, direcionável para pessoas diversas, porém específicas.
Mas preciso me desvencilhar do que me foi útil. Quero encontrar pessoas para me aceitar como tal e, quem sabe, parar de escrever bobagem.
quinta-feira, dezembro 22
Mudo
As que não estão mudando talvez seja o eu, que procuro há tanto tempo, nesse emaranhado da vida, que nos confude com o que gostaríamos de ser.
E ser é o que gostaria(mos) de ser.
Eu amo tudo o que foi
A dor que já não me dói,
A antiga e errônea fé
O ontem que dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi e voou
E hoje é já outro dia.
(Fernando Pessoa)
terça-feira, dezembro 20
quinta-feira, novembro 10
quarta-feira, novembro 9
Fato amarelo real
-A minha casa é a mais bonita da vila!
A menininha, sem pestanejar e sendo política e poética ao mesmo tempo, respondeu:
-Não importa, a minha é a mais amarela!
A Origem do Mundo
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. COntou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso não entendia.
-Mas papai - disse Josep, chorando - se Deus não existe, quem fez o mundo?
-Bobo - disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando -. Bobo. Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.
(Eduardo Galeano - O livro dos abraços)
Livro dos Abraços
Recordar: Do latim re-cordis,
tornar a passar pelo coração.