quinta-feira, dezembro 30


Nascer do sol em alto mar Posted by Hello

Antes de partir Posted by Hello

The king of the world Posted by Hello

Os tripulantes do Agatha Posted by Hello

quarta-feira, dezembro 22

A visão clara na escuridão da cabine do Agatha

O entusiasmo inicial era enorme, a oportunidade de viver uma experiência nova tinha um sabor especial. Haveria, certamente, sentimentos novos e inesperados, e é isso que faz todo esse turbilhão da vida valer a pena. Pode parecer redundante, mas nós realmente esperávamos por sentimentos inesperados. Tudo isso era suficiente para superar o cansaço de um dia inteiro de entrevistas, apresentação de monografia, 3 horas de viagem, além de uma noite mal dormida, fruto do embarque cancelado do dia anterior.

Depois de um curto período de espera, atenuado pela conversa agradável com o ex-pescador já conhecido, foram chegando os pescadores um a um. O primeiro a chegar foi o mestre, o patrão de pesca, o responsável por um dos barcos que iriam embarcar. Sério, fechado, soltou pouquíssimas palavras e tinha um olhar desconfiado. Sentou-se e ouviu muito mais do que falou. Em seguida, chega seu irmão, que pouco lhe parece, fala um pouco mais e parece menos desconfiado. Junto, chega um outro irmão, bem mais parecido com o primeiro. Fisicamente apenas. Gosta de falar, rir, contar piadas e fez com que nos sentíssemos um pouco mais à vontade. Depois de um tempo, surgem os outros dois que faltavam, um deles seria o responsável pelo outro barco e o outro é um pescador recente, não mais de 3 anos.

O time estava formado, não havia falta de remédio que fizesse com que não entrássemos naquele barco. Confesso que, a princípio, julgamos ser bem mais fortes e resistentes do que realmente somos, mas isto é um detalhe. Detalhe que proporcionou algumas reflexões e os tais sentimentos inesperados. Não falo apenas do enjôo, que nesta altura, todos já devem saber. Falo de alguns sentimentos surgidos na quente cabine escura do barco Agatha.

Entramos no barco de uma forma diferente de todos os outros, pois acreditaram que seria mais seguro que não pulássemos da forma que fizeram. Embarcamos por volta de 1 da manhã, o mar parecia tranqüilo e no começo acreditamos que seria fácil passar 12 horas no barco com nome de escritora. Sugeriram que cada um ficasse em um barco, devido ao espaço, mas como não se opuseram, preferimos ficar juntos, pois na verdade, toda a segurança já comentada, era pura fachada. Sabíamos dos riscos e gostaríamos de contar um com outro.

O barco já andava quando conhecíamos suas instalações. Pouco conheço, não tinha como comparar ou opinar, mas sei que meu companheiro, como engenheiro naval, percebeu que a segurança não era das maiores.

Na primeira pausa de um dos pescadores, a do irmão que pouco parece com os outros dois, perguntamos se poderíamos gravar uma conversa. Explicamos nosso projeto e fizemos algumas perguntas previstas. Outras foram mais informais, o pescador parecia gostar de ser ouvido, ter suas opiniões gravadas. Vestido com a camisa do atual prefeito eleito da cidade parecia ter orgulho do irmão sério, mestre do barco. Revelou nesse papo a dificuldade enfrentada pelos pescadores da região. Diminuiu o peixe, aumentou o número de pescadores e os atravessadores (termo usado por ele) fazem com que o preço caia cada vez mais. No meio da conversa, o mar mostrou a que veio. Não conseguimos mais falar, tentei ficar em algumas posições diferentes, mas em menos de 10 minutos, passei mal pela primeira vez. Espero, ao menos, que tenha alimentado os peixinhos. Logo em seguido, meu grande companheiro não resistiu às ondas intermitentes.


Não demorou mais de 15 minutos e forneci mais comida aos pobres coitados dos peixinhos, que logo seriam mortos pelos trabalhadores. Essa me derrubou. Sentado no convés, não vi o momento que a rede foi atirada ao mar e só conseguia pensar que a pesquisa estaria comprometida e que eu ainda estaria ali por volta de 10 horas.

Não queria incomodar, recusei as propostas iniciais de dormir na cabine e fui deitar no convés, ao ar livre. Meu companheiro logo se juntou e percebemos que deitados não ficaríamos enjoados. Mais algumas propostas para dormir na cabine foram recusadas até que recebemos das mãos do mestre de poucas palavras um cobertor, começava a fazer frio. Em seguida, o irmão com a camisa do prefeito, surge com um colchonete para que deitássemos lá fora, já que não queríamos incomodá-los na cabine. Fiquei realmente surpreso. Os olhares desconfiados iniciais deram lugar a demonstrações de carinho e preocupação.

Conseguimos ficar lá até que começou a chover, não tínhamos mais como recusar o convite da cabine. Ao levantar em direção à cabine, mais um enjôo, mais uma leva de alimentos para os peixes da região de Macaé.

Depois de um pequeno período na chuva, com a cabeça para fora do barco, entrei na cabine e encontrei meu amigo deitado no chão, próximo ao motor do barco. Preferiu ficar ali, deixando reservada para mim uma cama, um tanto quanto mais confortável do que o chão duro e quente, devido à proximidade do motor. Meu estado não era dos melhores e não permitia que recusasse um agrado desses. Subi na cama com a condição de que trocaríamos de lugar durante a noite.

Dormi por umas 3 horas e, ao acordar, tentei convencê-lo a trocar de lugar comigo. Foi em vão, após algumas tentativas frustradas, tentei relaxar e aceitar. Tenho dificuldades em aceitar as coisas, mas tenho tentado, é um processo longo. Não voltei a dormir logo, passei a refletir sobre o que estava vivendo. A princípio, a certeza de uma amizade pra vida toda. Algumas pessoas podem até duvidar, achando que “vida toda” é um conceito exagerado demais, mas, definitivamente, estas pessoas não entendem que alguns gestos são gestos para a vida toda, por mais que sejam momentâneos. Sugiro que experimentam tais sentimentos, que cada abraço dado seja pra vida toda, que cada beijo seja pra vida toda, que cada gesto seja pra vida toda. Assim, entenderão o que quero dizer. Aquele foi um gesto pra vida toda de um cara que naquele momento foi meu amigo pra vida toda.

Olhei um pouco em volta e vi que os outros dois pescadores dormiam também. Apenas o patrão de pesca continuava acordado, atento o tempo inteiro, distraído apenas por um rádio de segurança que ficava na sua cabine. Neste momento tentei ouvir um pouco o que era falado no rádio, percebi que os pescadores comunicavam-se entre si e, o mais curioso, contavam histórias mirabolantes, história de pescadores. Queria poder levantar pra conversar com ele, ouvir um pouco daquelas histórias, mas a certeza de que passaria mal, me fez desistir.

Não cheguei a ver o barco parar por nem um minuto. Dormi mais um pouco e por volta das 5 da manhã, acordei e percebi que o meu companheiro não estava na cabine. Lembrei da idéia de vermos o nascer do sol em alto mar e tentei acompanhá-lo. Não durou mais de 10 minutos para que eu desistisse devido a mais um enjôo causado, o quarto, não percam as contas. Esse foi definitivo, e por mais que estivesse perdendo uma oportunidade única, decidi que não levantaria mais da cama.

Perdi o nascer do sol, perdi as entrevistas, perdi as histórias interessantes, não vi o peixe chegar por volta das 8 da manhã. Mas ao mesmo tempo ganhei coisa demais. A experiência vivida, os gestos de carinho e amizade, um sentimento muito bom me fazia esquecer o meu estado físico deplorável. Por volta das 10:40, levantei mais uma vez, estávamos chegando. Mais uma trapalhada, o cano de descarga estava exposto e depois de todo o cuidado durante a noite, queimei a mão durante o dia. Não importa também.

O dia estava bonito demais, os pescadores separavam os peixes, jogavam fora os que não serviam. Muitos morriam, a pesca de pareja é predatória. Ao menos, as gaivotas se alimentavam deles, fazendo um espetáculo belíssimo no céu.

Passamos um pouco mais de 10 horas no barco e pudemos sentir na pele um pouquinho do que alguns pescadores que ficam 10 dias em alto mar sentem. Bem pouco, claro. As condições de segurança do barco são precárias, não há banheiro e é muito arriscado usar o mar como banheiro, já que o barco balança muito.

No final, nos ofereceram camarão e diversos peixes. Preferimos aceitar apenas os peixes, que não seriam custosos para eles. Levamos 5 peixes e uma experiência única em nossas vidas. Saímos cansados demais, porém com uma bagagem muito maior, embora nossas mochilas tenham continuado com o mesmo peso.

Por fim, um comentário importante:

O dono do barco não foi pescar. E metade de tudo era dele!

segunda-feira, dezembro 13

Ainda sou

Jurava que a música era do Caetano, mas os sítios da rede mundial insistiram que era do Chico. Não importa, é uma das músicas mais bonitas que já ouvi. Pelo menos hoje, no presente.


Se lembra da fogueira
se lembra dos balões
se lembra dos luares, dos sertões

A roupa no varal, feriado nacional
e as estrelas salpicadas nas canções

Se lembra quando toda modinha falava de amor
Pois nunca mais cantei, maninha,
depois que ele chegou

Se lembra da jaqueira
a fruta no capim
o sonho que você contou pra mim

Os passos no porão
lembra da assombração
e das almas com perfume de jasmim

Se lembra do jardim, maninha,
coberto de flor

Pois hoje só dá erva daninha
no chão que ele pisou

Se lembra do futuro que a gente combinou
Eu era tão criança e ainda sou
Querendo acreditar
que o dia vai raiar
Só porque uma cantiga anunciou

Mas não me deixe assim tão sozinho a me torturar
que um dia ele vai embora, maninha pra nunca mais voltar

Maninha/ Chico Buarque (?)

8 e 80

Ontem e amanhã, por vezes, são mais presentes que hoje. Ou seja, passado e futuro, muitas vezes, são mais presentes que o próprio presente. É difícil a missão de viver o momento sem pensar nos que foram e nos que virão, mas é necessário. Necessário para que o presente não seja influenciado pelo futuro. Futuro esse, que provavelmente não existirá. Necessário para que o futuro não seja planejado e que simplesmente venha, inesperadamente, sorrateiramente como a música da sua vida que toca na noite de motel com a mulher da sua vida no presente.

Não dá pra trasformar o futuro em presente, que me perdoem os ciganos. A vida é tão inesperada, que nem o pastel, planejado para esta noite, nós conseguimos comer. Mas se não vier pastel, vem pizza.

Mas e a importância de planejar o pastel? E o prazer sentido nos minutos que o precederam?

Sim, sim, é importante. Portanto, tudo que falei até agora, eu nego. Planejar é preciso. É necessário que o futuro, que não existe, influencie o presente. Para que os momentos que precedem a morte tenham gosto de pastel de carne seca com catupiry.

quinta-feira, dezembro 9

Vida real

Considerando os números reais, há uma infinidade deles entre o 8 e o 80.

segunda-feira, novembro 29

Um pitaco da China

"Ame-me quando menos merecer, pois é quando mais preciso".

domingo, novembro 14

Eu sou um fato

Analisar um fato é definitivamente mais interessante do que julgá-lo!

sábado, novembro 13

The question

O que seria do povo brasileiro se não fosse a cachaça?

quarta-feira, novembro 10

Paraconsistência

Diga lá meu coração o que tu sentes quando a vida dá um nó e as coisas não fazem sentido quando tratadas em conjunto. Diga lá meu coração que ela está dentro em meu peito e bem guardada. Diga, sinta, ria, chore, deixe as coisas acontecerem no seu tempo, o choro, o riso, os sentimentos e a fala. Porque meu irmão me lembrou que a insistência das cabeçadas nos muros da cidade pode enlouquecer. Achar que é o dono do tempo o tempo todo inverte o sentido das coisas. Quem sabe faz a hora, mas também espera acontecer. Entendeu? Nem eu, mas também já cansei das explicações. A solução é admitir que a contradição existe, uma lógica contraditória, talvez. A solução é ver "Antes do pôr do sol" na terça feira à noite com sua menina e ver um sorriso no seu rosto. É preciso mais que nunca prosseguir, sentir, dizer, rir, chorar....


Diga Lá, Coração e espere por mim, morena
Gonzaguinha

São coisas dessa vida tão cigana,

caminhos como as linhas dessa mão.
Vontade de chegar e olha eu chegando
e vem esta cigarra no meu peito
já querendo ir cantar noutro lugar.

Diga lá, meu coração, da alegria de rever essa menina
e abraçá-la e beijá-la.

Diga lá, meu coração, conte as histórias das pessoas
nas estradas dessa vida.
Chore essa saudade estrangulada,
fale sem você não há mais nada,
olhe bem nos olhos da morena
e veja lá no fundo a luz daquela primavera.

Durma qual criança no seu colo,
sinta o cheiro forte do teu solo,
passe a mão nos seus cabelos negros,
diga um verso bem bonito
e de novo, vá embora.

Diga lá, meu coração, que ela está dentro em meu peito e
bem guardada
e que é preciso, mais que, nunca prosseguir.

Espere por mim, morena
Espere que eu chego já
o amor por você, morena
faz a saudade me apressar

sexta-feira, outubro 29

Ah se deus existisse!

Trecho de entrevista à revista Caros Amigos (novembro de 2000)

"Se eu ganhasse a Presidência para fazer o mesmo que o Fernando Henrique Cardoso está fazendo, preferiria que Deus me tirasse a vida antes. Para não passar vergonha.Porque, sabe o que acontece?Tem muita gente que tem o direito de mentir, o direito de enganar. Eu não tenho. Há uma coisa que tenho como sagrada: é não perder o direito de olhar nos olhos de meus companheiros e de dormir com aconsciência tranqüila de que a gente é capaz de cumprir cada palavra que a gente assume.E, quando não as cumprir, ter coragem de discutir por que não cumpriu"(Luiz Inácio Lula da Silva)

quarta-feira, outubro 20

My way

De dia, disfarce através da razão. As luzes, os carros, o trânsito, a correria o assustam. A luz nem sempre ajuda a visão, por vezes ofusca.

De madrugada não dá pra mentir. A escuridão é de uma clareza inigualável, o silêncio revela um grito ensurdecedor.

Numa dessas madrugadas claras como neve, ele só precisava de uma música triste surpreendente. Uma daquelas músicas que o surpreende em um quarto de motel. Não valia uma música triste esperada, tinha que ser uma música triste inesperada, que fizesse doer os músculos e que fizesse jus àquela noite melancólica, fria e clara como neve.

A alegria das músicas da rádio o irritava profundamente. Quem as 4 da manhã buscaria alegria na rádio? Não tinha jeito, não havia música que expressasse o que ele sentia, não naquela noite melancólica, fria e clara como neve. Abriu mão do inesperado, tirou o cd do Sinatra da gaveta e tocou "My Way". Boa escolha, já que percebera que teria que seguir a vida do seu jeito e se necessário fazer a sua própria música triste e inesperada. Dormiu bem.

quarta-feira, outubro 13

Sobre as gaivotas

Às vezes me pergunto se nos levamos a sério demais. Outras vezes me pergunto se não nos levamos nada a sério.

Uma pequena observação sobre essa estranhíssima mania de ficar me perguntando sobre as coisas me fez tirar uma conclusão: Eu, pelo menos, me levo a sério demais, demais no mau sentido, no mau sentido pra mim porque isso tortura. A maquininha não pára, sabe? E nem a mais moderna das máquinas funciona ininterruptamente (afirmação sem nenhuma base de uma pessoa que não se leva tão a sério assim). Essa maquininha aqui precisava de uma pausa pra manuntenção porque esse eterno trabalhar causa sérios danos, alguns curtos circuitos, uns problemas sem explicação como no Windows 98, que aliás é um grande ensinamento de que nem tudo na vida tem explicação. Alguém me disse que alguem disse que ouviu alguém dizer que a gaivota só voa porque não se leva tão a sério. Eu concordo, eu concordo. A confusão do texto é proposital ou inevitável. Proposital para refletir a confusão da maquininha, inevitável pois a mesma não sabe lidar de outra forma com o mundo que a fez complicada assim. Aliás, esse é o mesmo mundo das gaivotas que não se levam tão a sério nem são tão complicadas. Juro que vou tentar tirar algum ensinamento do Windows 98 e não tentar explicar tudo.

sexta-feira, outubro 8

É a maldita possessividade

Valeu pelo texto, Rita, gostei muito. O engraçado é que já tentei escrever sobre isso, mas nunca fui tão feliz quanto o escritor português.

"... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Miguel Sousa Tavares (Escritor português, a propósito da perda de sua Mãe, a escritora e poetisa Sophia de Mello-Breyner)

segunda-feira, outubro 4

Um estudo de caso exploratório sobre minhas reminiscências ou uma reflexão sobre os "quereres"

Tenho tanta coisa pra escrever que acabo ficando sem nada, pois falta uma unidade de análise, um objeto bem definido. Aliás, essa é também minha maior dificuldade pra escrever a monografia. Será uma limitação minha? Uma dificuldade de obter foco na vida? De querer abraçar o mundo com as pernas, antecipar um futuro ou retardar um presente? Taí, dificuldade de viver o presente talvez seja uma boa unidade de análise.

Será que é verdade que quem tá fora quer entrar e quem tá dentro quer sair (João das Coves apud dito popular, pág desconhecida)? Essa é a nossa (um estudo científico exige que não usemos a primeira pessoa do singular, por mais que a primeira e única pessoa da pesquisa seja eu mesmo com toda a minha singularidade) hipótese. Sem a necessidade de explanar uma teoria, faremos um estudo de caso único, mesmo porque entender a si mesmo já é uma missão muito árdua, impossibilitando a viabilidade de qualquer tipo de pesquisa com uma amostra mais significativa. Mas também podemos considerar que uma única pessoa traz em si muitas outras que passaram e continuam passando, tornando-a uma amostra relativamente significativa no universo. Gente é gente. Nesse estudo de caso abordaremos a pesquisa-ação-mais-que-integral-e-mais-que-sistêmica, pois o ator envolvido no caso está mais do que comprometido com a participação na pesquisa. Pesquisador e pesquisado confundem-se de uma maneira nunca vista anteriormente.

Primeiramente, trabalhamos com um levantamento histórico, usando como ferramenta única o poderoso Guliver. Dados interessantíssimos foram extraídos, como a vontade de ter aparelho quando muitos dos seus amigos pareciam bonitos com a parafernália nos dentes. Além desse, outros mais esquisitos como vontade-de-ter-óculos e, pasmem, vontade-de-ficar-com-o-rosto-descacado também foram identificados. Algumas outras informações mais sigilosas foram obtidas, mas o respeito e o comprometimento mútuo obtido na pesquisa nos impede de veiculá-las, tendo o entrevistado permitido que disséssemos uma delas: também tinha vontade de ter espinhas, ainda que numa versão light, pois essas representavam a maturidade.

Todos esses dados podem ser confrontados com outros casos, que apesar de não terem sido estudados, fazem parte do conhecimento acumulado do pesquisador e do chamado "senso comum", que representa também o conhecimento acumulado desses que me lêem. Essas experiências mostram que quem usa aparelho e óculos não estão satisfeitos com suas respectivas condições. Podemos dizer a mesma coisa dos quem tem o rosto descascado, que além de reclamarem da aparência, sofrem com a dor causada pelos raios ultravioletas. Os detentores de acne encontram-se na mesma situação destes últimos.

Como já foi falado, não há a pretensão de generalização de uma teoria, mas o diagnóstico desses dados levantados mostra claramente a insatisfação de todos com relação às variáveis abordadas (ter espinha, descascar, usar óculos e aparelho). Outros casos, também não tão bem estudados, podem ser citados apenas com o intuito de gerar uma reflexão ao leitor, como a eterna insatisfação das morenas que querem ser loiras e vice-versa. Isso para não falar das que têm cabelo liso que querem ter o cabelo encaracolado e vice-versa mais uma vez.

Essa primeira parte da pesquisa consistiu apenas no uso da memória para o confrontamento de dados, que por sua vez tem o intuito de gerar uma reflexão sobre os "quereres", deixando o leitor livre para eventuais conclusões. A próxima etapa da pesquisa ainda depende de verbas de tempo que podem ou não ser liberadas pelos organismos responsáveis: o ócio e a insônia.

quinta-feira, setembro 16

Tempo atemporal

Abre-se a porta, vejo menina de saia e banho tomado. Poucas palavras trocadas, na verdade nenhuma, por alguns míseros minutos. Alguns extraordinários míseros minutos seguidos por frases curtas, curta saia, cabelo curto, beijos longos, sentimento longo, abraço longo, sensação eterna, certeza eterna, mesmo que curta, média ou longa cujo o tempo que é atemporal determinará. Determinará a eterna incerteza do que hoje é certo.

sábado, setembro 4

Nem sempre dá

Nem sempre estamos imunes a tudo que acontece com os outros, nem sempre conseguimos usar um tapa-burro e fingir que não vemos a menina no sinal vendendo bala. É uma questão de sobrevivência, mas nem sempre dá. Por vezes acordo bem, penso em ver um filme de comédia, me distrair um pouco, mas nem sempre dá. Em alguns instantes quero acreditar(ou me iludir) que as coisas estão progredindo, que está ocorrendo alguma mudança, mas não consigo ser tão ingênuo por muito tempo. Não bastasse a avalanche de realidade das ruas, elas são entregues na sua casa às 5 da manhã. E nós ainda pagamos por isso.

Hoje eu não queria ter ligado a televisão a não ser pra ver um filme de comédia. Hoje eu não queria ter visto o jornal, a não ser pra ler que meu Flamengo tá melhorando. Hoje eu queria ser fútil, alienado ou o que quer que seja. Hoje eu não queria ver aquela criança chorando na capa do jornal, não mesmo. 200 mortos e 700 feridos. Os 700 me incomodam mais. Que tipo de ferida? Certamente as mais graves não são visíveis, certamente não são cicatrizáveis (as cicatrizes são boas, as feridas que não são) e muito provavelmente serão responsáveis por novas feridas não cicatrizáveis, que por sua vez darão continuidade ao círculo vicioso. Em progressão geométrica. Um círculo que aumenta de diâmetro a cada dia.

Definitivamente não me interessa saber quem são os responsáveis. Se são os babacas de bunda pro alto ou se são os babacas nacionalistas. O pior é saber que isso acontece, saber que o círculo tá me englobando, que a ferida vem até aqui e que isso será usado como desculpa pra que outros babacas façam a mesma coisa. Às vezes espero anciosamente o tão anunciado fim do petróleo pra ver se melhora algumas coisa, mas no fundo sei que não é essa a questão.

Hoje eu só queria ver um filme pipoca, mas nem sempre dá.

quarta-feira, setembro 1

Propaganda política

Quem já estudou alguma coisa de marketing sabe que uma das funções da propaganda é extrair qualidades inovadoras dos produtos, por mais que estes não as tenham. Por mais que seja um produto de merda, que não tenha utilidade nenhuma e não tenha nada que preste, a propaganda está lá pra exaltar/inventar suas qualidades.

Assim também é a propaganda política....