quinta-feira, agosto 12

Ângulos

Quando todas minhas neuroses,
hoje engraçadas,
se tornarem insuportáveis.

Quando minha ânsia de vida
se tornar uma obsessão indesejada.

Quando não mais perceber o limite do ridículo,
meu nariz dobrar de tamanho,
minha barriga triplicar,
o cheiro do meu corpo estiver carregado de mim,
e as minhas palavras estiverem repletas
de minha sinceridade desnecessária.

eu sei que te terei por perto,
rosa, cheirosa e meiga,
ainda enxergando adjetivos doces e suaves em mim.

quarta-feira, junho 9

Vício Novo

Poema

A poesia está guardada nas palavras - é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Pra mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado e chorei.
Sou fraco para elogios.

(Manoel de Barros - Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo)

terça-feira, março 9

Desajeito

E me disseram:

Toma jeito, menino!

Eu respondi:

Tô de jeito tomado já,
é um jeito sincero,
por vezes desajeitado,
jeito que me confunde a cabeça,
porque o desajuste não é fácil pra ninguém,
difícil ainda mais pro sujeito da ação:
esse cabra torto de cabeça mutante,
que se ajeita e desajeita na velocidade da luz.

Sabe o que me disseram uma vez?
O desajeito é o começo do encaixe.

Desde que não seja encaixe forçado,
encaixe paralizante,
que impede que a peça encaixada se desate,
eu tô dentro.

Eu adoro encaixes
e adoro ter um jeito,
mesmo que torto.

quarta-feira, fevereiro 24

Confusões interessadas

Liberdade de imprensa é confundida com a liberdade de dizer mentira,
A luta pela igualdade de direitos é confundida com a luta pela manutenção dos privilégios,
A democracia é confundida com algo que nada tem a ver com qualquer anseio do povo,
As mortes dos que lutaram pela nossa liberdade são intencionalmente confundidas com a morte dos que nos oprimiram,
O direito à propriedade privada - esse não é confundido não. É muito bem compreendido por todos que dele se beneficiam.

Aos imbecis que, mesmo que não seja por mal, apenas por imbecilidade mesmo, confundem tudo, mas ao mesmo tempo querem distribuir e-mails com suas verdades idiotas, despejo um pouco do meu veneno e um tanto do meu desprezo.

Se hoje podem livremente dizer e divulgar suas trapalhadas mensagens teleguiadas, é porque muitos dos que hoje vocês ridicularizam com seus infelizes "forwards" lutaram para que qualquer imbecil pudesse expressar sua opinião neste país.

segunda-feira, fevereiro 15

(des)gosto

Se é que entendi o que o verborrágico do Bourdieu tentou dizer em "A Distinção", concordo, mas fico com a genial simplicidade do completo desconhecido Juraildes da Cruz, que ficou famoso na voz de Xangai:

"Se farinha fosse americana,
mandioca importada
banquete de bacana
era farinhada".

(Nóis é jeca mais é jóia - Juraildes da Cruz)

sexta-feira, fevereiro 12

Destino

De volta,
Divina,
De longe,
Distraída,
De sari,
Distante,
De perto,
Descolada,
De tanto
Distar,
Dê-canto,
Diz, tá?
Dê beijo,
Destoa,
Depreenda,
Disfarce,
Dê prenda,
Me enlace
Devagar,
Divague,
Declame,

Desejo-te
Despida,
Depravada,
Desvendada,
Destemperada,
Demorada.

quarta-feira, fevereiro 10

Dica de Cinema

Não deixem de ver "O Homem que Engarrafava Nuvens": baião, Humberto, Gonzagão, Gil, Caetano, Chico, Elba, Bathânia, Belchior, Fagner, Alceu, Dominguinhos, Lirinha com o Cordel. Há também o machismo, a seca, olhos verdes e um ritmo que faz ver o filme cantando e balançando por duas horas.

Ainda dá pra chorar com a ternura do Sivuca, o feio mais belo que conheço.

Um excelente documentário com um lindo nome, apropriado pra falar de quem conseguiu tratar de profundas tristezas e sofrimentos com um ritmo que faz até esquecer.

Janela sobre a palavra (V)

Javier Villafañe busca em vão a palavra que deixou escapar bem quando ia pronunciá-la. Onde terá ido essa palavra que ele tinha na ponta da língua?

Haverá algum lugar onde se juntem as palavras que não quiseram ficar? Um reino das palavras perdidas? As palavras que você deixou escapar, onde estarão à sua espera?

(Eduardo Galeano - Palavras Andantes)

quinta-feira, fevereiro 4

Criminosos potenciais

Aos idealistas de plantão, um pouco de Radiohead:
"Just cause you fell it, doesn´t mean it´s there"

E aos demasiadamente precavidos, mais um pouco:
"We are accidents, waiting to happen"

(There there - Radiohead)

sexta-feira, janeiro 29

caminho de casa

Não mais que um metro e meio,
coberto com um saco negro de lixo,
desnudo a todos com coragem de observá-la.

me sinto um covarde todos os dias.

contra la vida cara

hoje, o Jornal Nacional, mais uma vez, falou da Venezuela. Entrevistou pessoas no antigo supermercado francês Cassino. Chamou de governistas os que apóiam o governo, mesmo que esses nenhuma ligação, além da empatia, tenham com o governo. Falou, como sempre a direita diz, da escassa variedade de produtos que possivelmente acontecerá no supermercado estatal. Falou, pejorativamente, que o supermercado se limitará ou prievilegiará os produtos de necessidades básicas.

Esqueceu de mencionar, emboras suas câmeras não tenham ofuscado o dizer presente em todo supermercado:

Contra la vida cara.

Palavras Andantes

Temos um esplêndido passado pela frente?

Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um ponto de partida.

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Janela sobre as Proibições

Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: proibido cantar.
Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem .
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.

(Eduardo Galeano - Palavras Andantes)

quinta-feira, janeiro 28

mídia venezuelana

o que seria da cbn caso se recusasse a passar a voz do brasil?

e da RedeTV caso se recusasse a transmitir um discurso ministerial, pra não precisar chegar ao presidente?

e da Record se infligisse leis votadas no congresso nacional, como é o caso das tvs venezuelanas?

o direito a ter um espaço televisivo ou radiofônico, não esqueçam, é um direito concedido pelo Estado. Uma conceção estatal deve atender a interesses públicos. Será esse o interesse de uma TV golpista que mente sobre fatos no intuito de destituir um presidente eleito, reeleito, reeeleito democraticamente?

não esqueçamos que nem todas as tvs golpistas foram destituídas na Venezuela e é aí que deve residir nossa crítica. Pergunto porque a Venevision de Senderos continua intacta.

as demais que bravejam aos sete ventos clamando por democracia se aproveitam do discurso do poder do povo para atender seus interesses que nada interessam ao povo.

que sejam extintas junto com hotéis, empresas privadas e todos interesses obscuros que quando interessam clamam por democracia.

mas, camarada Chavez, não se esqueça que Venevision e Mitsubishi (MMC) também fazem parte da mesma burguesia. Por que não encarar?

Celebremos a morte da RCTV, ao menos.

e a direita mostra suas garras mais afiadas

Seria estarrecedora, se não fosse totalmente previsível, a reação da mídia brasileira ao Plano Nacional de Direitos Humanos. Enfrentar de uma só vez os militares, a igreja, o agronegócio, a grande mídia e as grandes fortunas não é uma tarefa das mais simples.

Cabe um breve apanhado do que dizem os âncoras da nossa mídia:

Hoje, Boris Casoy, do alto de seu microfone, o mais baixo da escala da mídia, fez questão de chamar de bobagens os assuntos tratados no PNDH. Entrevistou lá um jurista que estava indignado com o reconhecimento do trabalho das prostitutas. Será que o nomeado jurista, cujo nome sequer gravei, critica o que já praticou, como denunciava a poetisa Juana Inés de la Cruz no século XVII?

Alexandre Garcia estava estarrecido como um programa de governo poderia atacar os militares, os produtores rurais e os meios de informações. Como podem ser esses considerados vilões em uma só penada? pergunta o repórter. Vale lembrar que liberdade de expressão não pode ser confundida com falta de controle social dos meios de comunicação, e é exatamente disso que fala o plano.

http://www.youtube.com/watch?v=7r4bs6CrcyU&feature=related

E, por fim, o segundo maior boçal de nossa mídia (sorte dele existir o Boris Casoy), Arnaldo Jabor diz que trata-se de um programa bonito por fora e soviético por dentro. Indignado com o fato de pensarmos em julgar crimes de 40 anos atrás, indignado com os laranjais da cultrale e com a destruição da Vale e da Aracruz Celulose. Me corrijam se estiver errado, mas me parece que apenas Brasil e Uruguai não julgaram os torturadores da ditadura (não foi a toa o editorial da Folha chamando-a de Ditabranda).

http://www.youtube.com/watch?v=gO_Fdc5OP08&feature=related

É preciso agir junto com o que me parece ser a ação mais interessante até então feita nesse governo.

Voltei

Em 25 de setembro de 2003, tirando da poeira os pensamentos que atormentavam a cabeça de um jovem de 20 anos, César Guerra Chevrand com sua bela homenagem, estimulou que esse espaço fosse criado. Sete anos depois, com uma defasagem de 7 meses sem escrever, o mesmo rapaz com traços mais marcados, meu irmãozão, me fez crer que os espaços alternativos, mesmo que pouco lidos, precisam ser construídos e divulgados.

A ideologia de direita grita aos setes cantos, tentando ofuscar os interesses que estão por detrás de sua suposta neutralidade. Precisamos falar mais alto. Precisamos berrar quando falar o imbecil do Arnaldo Jabor, precisamos de um grito que ofusque suas idiotices e posturas de classe.

De forma alguma proponho que seja esse o grito-maior. É apenas o meu estímulo para voltar a escrever pra uma porção de gente, mesmo que pra um bocadinho assim, pequenininho, mas volto a escrever acreditando que a rede de gritos, permitida por essa tecnologia, tem condições de alcançar corações e mentes inquietas com a situação em que vivemos.

Quero compartilhar com vocês, meus camaradas, as questões que me tiram o sono e me abrir para as posições contrárias. Permitir rever-me é algo que tento aprender com Paulo Freire, embora reconheça meus limites diante de uma confusão de interesses que não consigo desvendar. Imagino que seja essa minha maior dificuldade para um diálogo sincero, pelo simples fato de não conseguir discernir o sincero dos interesses obscuros.

Quero permear este espaço de questões não ditas, por mais polêmicas que sejam. Quero me abrir pra pessoas queridas, mesmo que discordem, com o desejo de ser ouvido. Tenho estímulo, talvez, nos escafandristas virtuais, que venham a explorar os escritos internáuticos daqui a mil anos e capturem/vivam o amor e inquietude deixados no ar.

Serei doce e amargo, porque há doçuras e amarguras no que sinto. Penso em distintas pessoas que quero que me leiam, com a certeza que não agradarei metade delas. Preciso aprender a desagradar, embora não seja esse meu objetivo.

segunda-feira, julho 13

Partida

Essa parte da ida
parece não estar no script
no momento do encontro
no conhecer
e no aprofundamento da amizade

Nas noites de dia
Nas praias de noite
Nas lágrimas com sorriso

Parece não fazer parte
dada a infinitude do momento presente

Mas, sim,
é parte integrante do encontro -
faz parte -
parte o peito e interrompe bruscamente,
como um parto.

Que também seja a parte de um novo ciclo,
de uma nova vinda,
de uma nova vida.

Pois é nas vidas que construímos
nessa parte ínfima da história que nos cabe
que se constrói o ser pleno -
feito de distintas partes.

Parte sem deixar partes,
deixa obras inteiras,
deixa saudades,
que se encontra na parte mais bela
do complexo coração humano.

Nessa parte eu não havia pensado,
Até se impor a partida -
parte integrante do reencontro.

sexta-feira, novembro 21

Poema da Lata

A história vivida, contada, encantada, virou sonho.

O sonho vivido, sentido, narrado, virou história.

História e sonho se confundem em outros sonhos e histórias.

Sonho e história fazem nova história e despertam novos sonhos.


Os valores que possuía o sobrevivente da guerra urbana,

Remanescente do que dizem ser a primeira favela brasileira,

Impressionavam o jovem de olhos miúdos,

Que atento às suas histórias e causos,

Energizou suas esperanças de transformação.


Ouviu, sentiu, aguardou o seu retorno,

Quando não esperava mais o reencontro,

Surpreendeu-se com o inimaginável,

Com o desprendimento material de quem nada tem.


Percebeu que mesmo na pobreza,

Quiçá miséria,

Há espaço para valores distintos,

Para entender que há questões que valem mais,

E obviamente isso não provém da miséria.


No dia posterior, com o sentimento à flor da pele,

Relatou para os companheiros que quer ver na mudança pretendida,

Todo o sentimento ali vivido,

Buscava eco.


Como não se controla o que daí resulta,

A história vivida, contada, encantada, virou sonho.

O sonho vivido, sentido, narrado, virou história.

História e sonho se confundem em outros sonhos e histórias.

Sonho e história fazem nova história e despertam novos sonhos.


O homem de valores, roupa preta, pai,

Catador de latas,

Virou sonho.


(Marcelo Ribeiro e Flávio Chedid)

segunda-feira, novembro 17

Parceria Dialética

Fotografei um mundo caô,

Vi que ele era muito cão.

Ao fim,

E antes que a noite acabasse,

Me pus a lembrar

Dos momentos que congelados

Ficaram foto-grafados.


No movimento da vida,

Não há foto-grafia

Que congele o sentimento.


O sentimento existe,

Embora seja outro.

É mais um sentimento de resgate

do sentimento que foi,

o que em si é um sentimento novo.


A saudade transforma o sentimento

Em Sentimento.


Os instantes são únicos

Melhor às vezes esquecer as fotografias,

Deixar a pose,

Mergulhar na vida,

Sorrir com a lembrança

Do instante não congelado.


No ir devir da Maré,

Encontrei novas foto-grafias,

Agora em movimento,

Dançam, balançam, enchem,

Engendram um pensamento

Que incita um novo viver.


O movimento é transformação.


(Wendell Ficher e Flávio Chedid)

sexta-feira, fevereiro 22

Recíproca

Uma profunda vontade de dizer o que vem à mente
Uma necessidade ímpar de compartilhar as angústias vividas
Uma oportunidade única de fundir as vidas,
De fazer dos nossos desejos íntimos,
Segredos.

Embora segredos sejam feitos para ser contados,
A idéia de que teu segredo foi revelado
E, sobretudo, aceito,
Ajuda a suavizar as regras que te foram ensinadas
E que de certa forma ajudas a prosseguir.

Nada, nada, nada no mundo substitui a sensação da reciprocidade
Do amor da amizade.

A admiração quando retornada
Facilita as dificuldades da vida
E retira a importância das deusificações desnecessárias.

Ah, se soubésseis o quanto que vos estimo!
(sem deusificação)
Com uma enorme vontade, quiçá necessidade,
De aceitá-los exatamente como são
(talvez por uma vontade estúpida de diminuir as minhas cobranças).

Tenho certeza da maior fluidez de seus pensasentimentos
(embora alguns já tenham uma fluência excelente),
Quando são tudo que podem ser.

A vontade de tê-los por perto toda vez que sinto o melhor de mim,
Denuncia o amor mais sincero,
Embora haja nesse desejo uma autopropaganda,
O que não acredito diminuir a intensidade do companheirismo aí presente.

Deixando de lado as generalizações
E com uma enorme vontade de declarar,
Tenho ao meu lado doçuras tão belas
Que ao mesmo tempo em que compartilham comigo as amarguras da vida,
Exalam perfume, vontade de entender,
E sonham com o que os que os sabidos da vida consideram utópico.

Mal sabem que a utopia é o não-lugar do presente,
Mas que tem uma influência única sobre o futuro,
Ou não é o futuro construído pelos mesmos seres capazes de serem utópicos?!

Dito o que veio a mente,
Declaro a vocês todo amor que me fazem sentir.

quinta-feira, fevereiro 14

Filha do Paul

A menina Clara gostava dos momentos em que ouvia música e tinha certeza de que o minuto seguinte seria mudado repentinamente. Quando ouvia She´s leaving home sabia que Paul era o homem de sua vida e que a solidão que sentia em seu quarto era compartilhada por ao menos mais uma pessoa nesse mundo. Sentia uma força imensa e alimentava sua coragem ao ouvir a história contada por Paul da menina que saía da casa dos pais depois de viver só por muitos anos.

Após disso, a vida lhe trazia uma dose de realidade que não gostava de sentir, causava desconforto, pois lhe confundia a cabeça. Os papéis não eram tão bem definidos, o que queria não estava tão claro. A única certeza que continuava a ter era de que Paul era o homem de sua vida, pois conseguia caminhar pelos dois pólos que a atormentava. Podia ser tanto a menina que saía de casa como o pai que sentia a dor de sua partida.

Once there´s a way to get back home.

A frase poderia ser dita pela mesma menina, poucos anos depois.


A esperança de ter no fim todo o amor que produziu fazia com que Clara esperasse o fim com uma certa ansiedade. E pensava além, gostava de imaginar que o amor produzido em seu quarto solitário seria sentido e distribuído por alguém como Paul, ou que ao menos chegasse até ele pela inexplicável capacidade humana de transmitir os sentimentos dos quais não sabem a origem.

Clara sabia que se de certa forma avançávamos, isso nada tinha a ver com a ciência, mas sim com a capacidade humana de transmitir os pensamentos e sentimentos que nem sabiam de onde vinham.

Clara sempre sonhava, ao ouvir She´s leaving home, com um pai que desejasse como nunca tê-la.