quinta-feira, junho 28

Por ele mesmo

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

(Morte de Clarice Linspector - Ferreira Gullar)

sábado, junho 9

Margem

Eu vivo à beira.

Sou, ou quero ser, um ser marginal.

À margem do supostamente trivial, eu vivo.

Busco a diferença em tortuosos e já conhecidos caminhos.

Nada de novo.

Eu sou uma inovação do velho.

Tento me diferenciar por uma neurose já conhecida,

por uma incesante mania de ser mais,

que quanto mais quer ser, menos é.

Experimento o sonho em dias reais.

Tenho os amigos dos momentos certos,

embora em certos momentos eles não existam.

Choro com filmes sobre humanos,

me emociono com os equívocos de ser.

Sou e esqueço que sou em dias cinzas.

Tenho pequenas emoções que me fazem sentir grande.

Tenho grandes descompassos que me fazem sentir pequeno.

Eu quero ter filhas.

Sonho com a continuidade da vida,

mesmo que marginal.

Dúvida

Eram tantas histórias, com tantos detalhes, com uma sutileza ímpar, contadas minuciosamente, que eu me perguntava: como essa senhora vive tantas coisas se gasta todo seu tempo contando o que supostamente viveu?

terça-feira, maio 29

A Procura

Procurei descansar até terminar o sonho, ignorando que sua razão de ser está em sua infinitude. Tentei por algumas vezes continuá-lo, agarrá-lo, não deixar que a imagem saísse de foco ou que virasse som de telefone. Em vão, levantei para o outro sonho, que há quem diga ser a vida real. Demorei a torná-la um sonho e não há quem me faça desistir, embora por vezes, assim como nos sonhos em que todos concordam ser sonhos, tenha vontade de pará-lo, torná-lo menos intenso, ou ao contrário, torná-lo ainda mais intenso justamente pela sua descontinuidade.

Levantei com uma calma digna dos fins de semana, preparei-me lentamente na busca do que havia perdido há uns meses atrás. Estava calmo, certo de que o deixara em algum livro, caderno, no bolso de alguma calça jeans ou atrás da cama. A calma devia-se ao fato de saber que só achamos coisas, sobretudo quando importante, quando não as procuramos.

No caminho da ilha em que trabalho, tive a impressão de tê-lo encontrado em algumas músicas, mas a estranha fluidez do trânsito, impediu-me de vê-lo como um todo. O espaço em que tento transformar em arquipélago de sonhos por meio do compartilhamento de idéias dos que também ampliaram as suas idéias de sonho é um ambiente também propício ao desfacelamento do sonho contínuo, dividindo-o por conta da racionalidade excessiva ali presente.

Ao chegar no pequeno espaço que divido na ilha, sorri com os rostos expostos dos que há muito transformaram suas vidas reais em sonhos continuados. Os rostos expostos pelo amigo da vida toda, sorriam. Mesmo os sisudos. O amigo da vida toda, que expusera os rostos, encontrava-se angustiado pelo contato excessivo com os de racionalidade excessiva. O procurei para opinar sobre a necessidade de ceder em determinados momentos.

Certas práticas no pequeno pedaço da ilha quase me fazem acreditar na divisão sonho/vida real, mas logo me deparo com as marcas de quem já travou essa luta antes e as acho mais bonitas dos que as faces limpas dos que acreditam ter chegado à verdade.

Saio antes da ilha disposto a encontrar o que havia perdido em uma história há muito travada contra ou a favor da instituição mais antiga então vigente. Dei de cara com faixas, fruto da contemporânea luta que não sei ao certo ser a mesma que travo. Aliás, travo eu uma luta?

Procuro manter a estranha calma da manhã. Ando lentamente pelas ruas do novo bairro em que vivo em busca de novidades. Procuro o que havia perdido em algumas lojas, rostos e telefonemas não atendidos.

No fim da noite, início da madrugada, após voltar de um ritual dos que acreditam na separação sonho/vida real, que estranhamente gosto, procuro mais uma vez a lentidão da manhã, não muito normal pra mim. Procuro em pratos de comida, taças de vinho, páginas de livro e me convenço que só o encontrarei quando não mais procurar.

Descanso com a calma da manhã.

quinta-feira, março 15

Reverência

A esse coração que quer o mundo,
que quer partir e depois juntar tudo
que quer compartilhar todos os sentimentos egoístas,
que deseja companhia quando uma luz se acende
e evidencia toda a estupidez
do ciúmes,
da inveja,
da vaidade,

eu reverencio,
pois é o único que tenho.

sexta-feira, março 9

Pieguice gostoooosa

Hoje o meu dia amanheceu assim:
As palavras finais estão prolongaaaaadas,
Os textos que leio estão tão boniiiiiitos,
A saudade que bate apertaaaaada,
O carinho que cresce comigo.

Estou com aquele olhar vivo dos dias booons,
Sem a vista enevoada dos nem tanto,
Com uma clareza boa do meu sentimento
E sem o medo inútil que paralisa.

A violeta tá floriiiiida,
O quixote imponeeeente
O matin verdiiiiiin
Os miquinhos escondidos.

Hoje eu tô aberto pra balanço!

Desejo indesejável

As garras que te mostro,
O canto que te canto,
Os poemas que te escrevo,
O pranto que a ti confesso
O eu que sou teu

Não são suficientes para que esqueças
o que foi?
O que já passou e só ganha espaço
Porque não é mais?


Ainda bem que não...

segunda-feira, fevereiro 19

Quase 4 meses

E sigo sonhando
e sigo vivendo.

Vivendo sonhando a vida que o sonho me trouxe.

Pra ele acendo uma vela.

Andressa

Não mais que 9,
menina.

Com a toalha sobre os ombros,
evita a dor que o peso das bebidas
pode causar em sua coluna de
menina.

Aprende rapidamente a dissuadir
e facilmente esconde a sua face de
menina.

Menina,
não mais que 9,
sonha com o dia em que a tratem como
menina.

Em que não mais precise
usar as forças que não tem
para sustentar o peso das latas
que destróem a sua coluna de
menina.

Faz doer a minha alma
pela possibilidade de ser
a minha menina,
que antes dos 9
se utiliza de uma toalha
para diminuir a dor
que não sabe ser causada
pela frieza dos que não entendem nada de
meninas.

Só sentimos por conta da possibilidade de vivermos,
se é que me entendem.

sexta-feira, fevereiro 9

Dorme

Quando dormes, pareces o anjo que imagino
Quando acordas, és a mulher que desejo
Quando desejas, sou o homem que queres
Quando queres, nem sempre te satisfaço.

Diferimos em número, gênero e grau
Assemelhamo-nos em número, gênero e grau
És singular quando sou plural
Sou plural quando és singular.
Por vezes convergimos.

Se queremos de nós algo maior,
Se queremos dar fruto a outro ser,
Precisamos convergir na divergência
E buscar nos dias tortos,
A congruência de nossos passos tortos.

Não sei o que nos espera,
Além de uma lembrança eterna,
De um carinho gigantesco
E de um amor já sentido
Que nunca se “dessente”.

Seja lá o que for, meu bem,
Seja lá quem encontremos nos blocos
E o que o for acontecer,
Já te amo para sempre.

Poucos entendem o para sempre,
Mas certo de que sabes
Que certos sentimentos são eternos,
Por mais que momentâneos,
Deixo-te em paz,
Na calada da noite,
Pois assim a vida te quer.

Doce, suave, áspera, fogosa,
Cínica.

Te amo!

segunda-feira, janeiro 29

Sem saber

Faz tempo que aqui não falo de Clara, o que não quer dizer que a tenha esquecido. Depois de 4 longos meses, continuo a história da menina que me ajuda a compreender algumas de minhas dores, abrindo e fechando portas. Quatro meses em que recontei o que dela sabia, guardei coisas mais íntimas, encontrei uma carta da doce menina e preferi me calar por não saber ao certo o que ela gostaria que outros soubessem. Hoje, desisti, por achar que ninguém tem o direito de cobrar o silêncio de ninguém.

Clara dizia se incomodar com o mundo das palavras. “Por que não optamos pela linguagem dos olhares? As sobrancelhas dizem mais que juras de amor”, costumava dizer a menina. Já havia experimentado duas ou três vezes a paixão. A dúvida deve-se ao fato de uma delas ter se revertido no sentimento oposto, o que a fazia optar pela renúncia do que, de fato, havia sentido. Clara ainda não havia descoberto que só quem tem o poder de nos causar dor, é quem assume um lugar tão grande no coração que é capaz de comer um pedaço dele. Clara não teve tempo de descobrir que o coração também se regenera, que o sol nasce e se põe independente de suas dores e que fora dela havia uma infinidade de sentimentos esperando por alguém.

Nessa paixão renunciada, Clara nunca soube dizer ao certo o que sentia. Na dor sentida, também não. Preferia a negação. Mas sabia que em alguns momentos seu corpo dissera mais do que qualquer palavra poderia dizer, como no dia em que ainda menina se entregou nua, sem dizer uma palavra, pedindo para que o jovem rapaz de cabelos crespos, também nada dissesse. Clara esperava dele todo o carinho que seu corpo pedia, mas o jovem rapaz, que nada entendia de linguagem dos corpos, não compreendeu. Se ela dissesse algo, tampouco entenderia.

Para o entendimento entre duas pessoas necessita-se mais do que palavras ou linguagem corporal. É preciso sintonia, que por vezes nem o amor é capaz de gerar. É preciso renúncia de verdades e, inclusive mágoas, para que a comunicação se dê de forma clara. E Clara não soube, nem pôde renunciar suas mágoas. É preciso tempo e maturidade.

Sem saber, Clara guardou o sentimento que só alguém com aquela importância poderia gerar. Nunca soube expressar o que sentia com relação ao rapaz. Deixava em sua dúvida quanto à paixão sentida, a maior prova pros que soubessem de sua história de que a mágoa era a única forma de expressar a maior paixão que já teve. Para perdoá-lo, era necessário que não mais sentisse a paixão e dor que ele lhe causava. Sem saber, cultuava sua dor.

terça-feira, janeiro 9

Desejo boooobo

Eu, no auge da bobice,
queria que as pessoas carameladas da minha vida,
estivessem conectadas por um fio
ou por um mega infra moderno,
para que eu não perdesse nenhum comentário importante,
desses que caem de repente na cabeça,
perdem a graça logo e,
mesmo que encontre o caramelo 10 minutos depois,
não tem mais graça.

sábado, novembro 18

Palavras-chave

Você é uma lindeza tão linda
e um doce tão doce
que só do mais escondido esconderijo
consigo enxergar
a bela beleza
do seu olhar doce, lindo, escondido e belo.

Eu sou uma imperfeição ambulante,
em busca da perfeição ambulatória,
que nem medicar a minha médica
consigo
diante das minhas doenças doentias.

Extrapolo os limites da individualidade
e só enxergo a minha feliz felicidade
porque já tive minha tristeza extrapolada
pelas cegueiras da reciprocidade
que inventei na criativa mente e pensamentos
que crio a cada segundo de vida vivida.

Também peço-te perdão
pela imperdoável mania de querer
me desculpar pelas culpas presentes
nas ausências do meu ser.

Quando ausente,
sinto-me apenas
esquecendo o que vem do lado de lá,
pedindo pra ficar.

Queria dormir ao seu lado agora.

domingo, novembro 12

Resíduos

E realmente, de tudo fica um pouco.
Sobretudo do que um dia fora tudo.
Do pouco, nada fica.

Caderno de Belezas

É que mesmo com tantos murros e pontapés,
existem abraços tão sinceros,
sorrisos tão doces,
lágrimas tão amorosas,
que me dá uma vontdade de acreditar no mundo.

domingo, outubro 29

Pa!

Estive em Flori,
onde um PM me chamou de guri,
onde andei idealizando pessoas
e percebi,
que apesar das diferenças culturais,
há uma lógica regente:
a lógica dos plurais,
a lógica do amor.

Um homem de bar,
desses que quase não falam,
me mostrou,
em meio a discursos e discussões,
o imensurável amor que o rege
e me arrancou lágrima dos olhos
em um ambiente onde homens não choram.

Com olhos de quem continua aprendendo,
e guarda na profundeza dos olhos lacrimejados
a imagem da filha -
a bela Julia Gabriela -,
o homem simples de bar
externalizou a beleza de ser,
a beleza do amor,
a humanidade que o rege,
contradizendo os sabidos da vida -
normalmente com as calças acima dos umbigos -,
que gostam de teorizar sobre a natureza humana.

A natureza humana, ora pois,
pressupõe naturalidade,
e não pode ser entendida em um mundo artificialmente construído,
em que desejos são "desejosamente" manipulados.

Muita gente morre sem descobrir sua natureza,
achando natural dedicar a vida
a construir a morte,
a alimentar a artificialidade humana.

Dinheiro e poder são criações humanas,
portanto artifícios,
embora tenham se tornado fins,
que arrogantemente do lugar de onde falo,
afirmo que não levam a nenhum sentimento
perto do que tive em Flori.

No caminho,
solucei
e
exorcizei,
ao menos por um instante,
as artificialidades presentes em mim.

Vi um pouco da minha natureza,
embora hoje a artificialize com palavras -
criação humana -
a serem aprovadas.

Andei por Flori,
Chorei por Flori,
Fui, do verbo ser,
em Flori.

terça-feira, outubro 10

Da Lagoa

Se ontem fui, por que não serei amanhã o que ainda sou hoje?

De São Gabriel

Sim, tudo é certo logo que o não seja.
Amar, teimar, verificar, descrer.
Quem me dera um sossego à beira-ser
Como o que à beira-mar o olhar deseja.

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, setembro 15

Harmonia dos sentidos

Quando os olhos entravam em sintonia com as glândulas lacrimais, os ouvidos faziam pelos se arrepiarem e subia pelo corpo toda a plenitude do momento, em que celebrava, sobretudo, o presente, Clara pensava: quem me dera agora ter comigo um violão e saber tocá-lo. Apesar das inclinações musicais, a menina nos 20 anos vividos não tivera tempo pra se dedicar ao talento que ainda não sabia que tinha.

Talvez isso permitisse a Clara ir além. Não parando para compor, tocar, escrever, Clara ia além nos seus sentimentos. Não os cortava, sentia apenas. Não havia registro formal de grande parte dos sentimentos de Clara, mas muito deles ficaram nesse quarto que hoje habito. Nem todos imateriais.

Hoje sinto Clara de diversas maneiras, mas tudo começou com rabiscos em uma folha de papel encontrada em um armário embutido da cozinha. Não fazia muito sentido ter sido guardado, parecia algo esquecido junto com louças, que de tão velhas, não pude utilizar.

Há homens grandes pensando no amor,
E isto não é uma questão de estatura,
Hoje chorei ao pensar junto na ternura
De um pequeno grande ator.


De fato eram rabiscos. Ao lado do pequeno texto, coisas sem sentido, provavelmente escritas quando Clara falava ao telefone. Nomes de pessoas de cabeça pra baixo, com desenhos abstratos e números tentando dar uma ordem à bagunça feita.

Esse foi o primeiro contato que tive com a menina que sabia voar, sobretudo quando os sentidos se harmonizavam.

segunda-feira, setembro 11

Instante de Amor

Me ame apenas
no preciso instante
em que me amas.

Nem antes,
nem depois.
O corpo é forte.

Me ame apenas
no imenso instante
em que te amo.
O antes é nada
e o depois é morte.

(Affonso Romano de Sant'Anna)