domingo, novembro 12
Caderno de Belezas
existem abraços tão sinceros,
sorrisos tão doces,
lágrimas tão amorosas,
que me dá uma vontdade de acreditar no mundo.
domingo, outubro 29
Pa!
onde um PM me chamou de guri,
onde andei idealizando pessoas
e percebi,
que apesar das diferenças culturais,
há uma lógica regente:
a lógica dos plurais,
a lógica do amor.
Um homem de bar,
desses que quase não falam,
me mostrou,
em meio a discursos e discussões,
o imensurável amor que o rege
e me arrancou lágrima dos olhos
em um ambiente onde homens não choram.
Com olhos de quem continua aprendendo,
e guarda na profundeza dos olhos lacrimejados
a imagem da filha -
a bela Julia Gabriela -,
o homem simples de bar
externalizou a beleza de ser,
a beleza do amor,
a humanidade que o rege,
contradizendo os sabidos da vida -
normalmente com as calças acima dos umbigos -,
que gostam de teorizar sobre a natureza humana.
A natureza humana, ora pois,
pressupõe naturalidade,
e não pode ser entendida em um mundo artificialmente construído,
em que desejos são "desejosamente" manipulados.
Muita gente morre sem descobrir sua natureza,
achando natural dedicar a vida
a construir a morte,
a alimentar a artificialidade humana.
Dinheiro e poder são criações humanas,
portanto artifícios,
embora tenham se tornado fins,
que arrogantemente do lugar de onde falo,
afirmo que não levam a nenhum sentimento
perto do que tive em Flori.
No caminho,
solucei
e
exorcizei,
ao menos por um instante,
as artificialidades presentes em mim.
Vi um pouco da minha natureza,
embora hoje a artificialize com palavras -
criação humana -
a serem aprovadas.
Andei por Flori,
Chorei por Flori,
Fui, do verbo ser,
em Flori.
terça-feira, outubro 10
De São Gabriel
Amar, teimar, verificar, descrer.
Quem me dera um sossego à beira-ser
Como o que à beira-mar o olhar deseja.
(Fernando Pessoa)
sexta-feira, setembro 15
Harmonia dos sentidos
Talvez isso permitisse a Clara ir além. Não parando para compor, tocar, escrever, Clara ia além nos seus sentimentos. Não os cortava, sentia apenas. Não havia registro formal de grande parte dos sentimentos de Clara, mas muito deles ficaram nesse quarto que hoje habito. Nem todos imateriais.
Hoje sinto Clara de diversas maneiras, mas tudo começou com rabiscos em uma folha de papel encontrada em um armário embutido da cozinha. Não fazia muito sentido ter sido guardado, parecia algo esquecido junto com louças, que de tão velhas, não pude utilizar.
Há homens grandes pensando no amor,
E isto não é uma questão de estatura,
Hoje chorei ao pensar junto na ternura
De um pequeno grande ator.
De fato eram rabiscos. Ao lado do pequeno texto, coisas sem sentido, provavelmente escritas quando Clara falava ao telefone. Nomes de pessoas de cabeça pra baixo, com desenhos abstratos e números tentando dar uma ordem à bagunça feita.
Esse foi o primeiro contato que tive com a menina que sabia voar, sobretudo quando os sentidos se harmonizavam.
segunda-feira, setembro 11
Instante de Amor
no preciso instante
em que me amas.
Nem antes,
nem depois.
O corpo é forte.
Me ame apenas
no imenso instante
em que te amo.
O antes é nada
e o depois é morte.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Desistindo da insistência
Clara, com seus dedos finos, personalidade forte, olhar dissimulado, persistência e ingenuidade dava murros em ponta de faca. Clara seria capaz de voar pela janela. Clara não seria capaz de se suicidar. A ingenuidade de Clara parecia insana aos insanos realistas. Clara sabia voar, ao contrário dos insanos realistas, parasitas da história.
Sua mãe nunca lhe dissera, mas era a mistura de dois grandes nomes. Clarice com Laura. Clarice e Laura nunca se conheceram, passaram por momentos distintos na vida da mãe de Clara. Ambas sabiam voar, ambas tinham inclinações musicais, ambas sabiam amar. Clara fora muito idealizada, como toda criança. Clara tinha passado, entendia de história, motivo pelo qual não desistia. Clara persistia proque entendia de história.
Olhando para o mato escuro, ouvindo música nova, Clara insistia na desistência. Clara, entretanto, desistia da mediocridade dos parasitas da história. Clara tinha o que aprender sobre o amor. Clara tinha o que ensinar sobre história.
quinta-feira, setembro 7
A janela de Clara
A menina que nessa casa morou, fruto da minha imaginação, também pensava nos que antes dela aqui estiveram, sonhando com um mundo dos que sonham, dos que acreditam que constroem a história, dos que constroem. Sonhos não envelhecem nem morrem.
A menina de cabelo curto desalinhado, de traços fortes, porém delicados, captava os sonhos dos que antes dela estiveram aqui. Sonhos que ficam no ar, que não a deixava esquecer a sua continuidade no mundo, mesmo sabendo que um dia também viraria pó. Clara não se conformava com a estupidez dos que, não entendendo a citada continuidade, destruíam as condições físicas do planeta, que a cada dia se mostravam mais perecíveis.
Clara gostava da mata que olhava pela sua janela, a via como uma faixa de resistência à destruição das condições físicas do planeta. Homens, cada vez mais egoístas e burros, sabendo da sua limitação física na terra e não entendendo a continuidade dos seus sonhos, ameaçavam toda a existência e a afirmação de que os sonhos não morrem. A limitação física do planeta ameaçava a eternidade dos sonhos de Clara e dos que antes dela aqui estiveram, sentados nessa mesma posição, olhando pra mesma mata, pensando também em andar pelo telhado, procurando o mico que outrora viram e embargando a voz pra pronunciar o nome dos que, há pouco, estiveram com eles olhando a mesma mata.
quarta-feira, setembro 6
Fragmentos
Choro não só pelo que dói
Choro não só pelos nossos erros
Choro não só pela música
Choro não só pelo não feito
Choro também pelo que ficou
Choro também pelo que virá
Choro também pelos acertos que tivemos
E por todas as músicas que não consegui te mostrar
Assim como filmes e pedaços de mim.
Dificuldades Manuais
Com a esquerda nunca
pude executar bem as coisas
que me pedia.
A firmeza da direita nunca tive.
Trêmula se me mostra às vezes.
Com a idade não poderei tomar sequer uma xícara
de café.
Mas posso ainda dar um murro na mesa
ante a atual situação ou sobraçar um montão de rosas.
Bem, neste caso, quem treme
é o coração.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
Presente
O que te daria eu ontem
quando nem te conhecia?
E amanhã, o que darei
se hoje não te dei
o que devia?
O que te dou é apenas
sombra do que querias
Dou-te prosa, e o desejo
era dar-te poesia.
(Affonso Romano de Sant'Anna)
domingo, agosto 13
Apego
“Moça dos olhos lindos (trocou menina por moça),
Preferi as páginas em branco pra poder criar em cima do nada, em cima do novo (de fato, precisavam de algo novo)”.
...
A caneta parou...
Tentou a partir de então se explicar: porque escolheu a página em branco e não um cartão apapagaiado que os namorados costumam dar, porque a escolheu sabendo de todas as complicações que isso causaria (sim, já sabia), porque escrevia essa carta de maneira tão idiota e, finalmente, porque ela não fluía e porque havia vários pontos no papel de caneta parada.
A carta, que nunca fora carta, tinha muitos pontos manchando o papel e não fosse o choro seco que o atormentava neste dia, os pontos de caneta seriam manchados pelas lágrimas, que rolavam internamente e se acumulavam em algum depósito lacrimal. Seria essa a razão das mudanças no seu corpo?
O choro seco é corrosivo
Carta pra ser carta precisa ser entregue, mas choro pra ser choro não precisa ter lágrimas. Chorava pela carta que não era carta. Precisava torná-la carta ou parar de precisar disso. Precisava desaguar, talvez precisasse corroer.
O apego é corrosivo.
Precisava corroê-lo porque não é possível eliminá-lo de uma só vez.
segunda-feira, agosto 7
Dias assim
Dias de não
Dias de quanto
Dias de tão
Dias de muito
Dias de pouco
Dias de graça
Dias sem graças
Dias de dia
Dias de noite
Dias de domingo
Dias de sábado
Dias de luta
Dias de preguiça
Dias de santo
Dias nem tanto
Dias quentes
Dias mornos
Dias de paixão
Dias de desamor
Dias de carinho
Dias de dor
Dias de cão
Dias de ressaca
Dias normais
Dias cansados
Dias demais
Demais, demais,
Porém com a absoluta convicção de estar vivendo os melhores 80 anos da minha vida
sexta-feira, julho 21
Comigo
(...)
Se você vier até onde a gente chegar
(...)
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo
(...)
Eu lhe prometo o sol
(Geraldo Azevedo/Renato Rocha - Dia Branco)
quinta-feira, julho 20
Codinome
quarta-feira, julho 19
sábado, julho 15
quarta-feira, julho 12
Um pouco mais
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais
E quando o seu bem-querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais
E quando o meu bem-querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais
E quando o seu bem-querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais
E quando o meu bem-querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria dos animais
E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás
(Bem querer - Chico dos olhos d'água)
domingo, julho 9
segunda-feira, julho 3
Essência
Em que por vezes reina a hipocrisia -,
Podem ser encontradas
As mais belas manifestações
De carinho, ternura
e Abdicações.
Universo paralelo em que nesse
Mundo vasto
Vasto mundo
Temos a real dimensão
Da importância de sermos,
Ora ofuscada pelo emaranhado
De pessoas e egos.
quinta-feira, junho 29
PS
Precisa ser ouvido.
Há um tanto de lágrimas
Capazes de mudar o curso das coisas.
Um coração quando arde,
Precisa ser estimulado
Antes que o fogo cesse
E retorne à mediocridade dos dias mornos.
domingo, junho 18
O adeus dos sonhos
(Livro dos Abraços - Eduardo Galeano)
quarta-feira, maio 17
Post Novo
Hoje eu quero pensar no que nunca senti. Todo sentimento novo me faz pensar no que nunca senti e talvez no que nunca irei sentir.
Por mais que ansiosa,
De todas as possibilidades que a vida reserva.
Viajarei de avião pela segunda vez,
E isso me arrepia,
Pois da primeira,
Talvez por sê-la,
Tive uma sensação nova,
Dessas maravilhosas,
Que por mais que ansiosas,
Causam a esperança supracitada.
A minha insignificância,
Perante a imensidão de tudo.
Não ria, menina,
Eu achava que era grande,
Embora seja,
Mas eu achava que era maior,
Maior do que sou, sabe?
Achava que o mundo dependia de mim.
Não ria, poxa,
Eu achava mesmo,
E pior,
Achava que gostava disso.
Eu gosto dessa sensação de leveza,
De pertencimento,
De poder quebrar o pé,
Sem que haja um colapso,
(Por mais que goste também da falta que causo –
Humanóides egocêntricos)
Muito mais do que um dia pude querer ser maior,
Mesmo porque eu só achava que queria.
Queria não.
Te quero com meu coração,
Com meu corpo,
Com minha boca,
Muito mais do que com meu ego,
Por mais que o alimente.
Te quero minha, mesmo que livre,
Te quero linda, mesmo com rugas,
Te quero feliz, mesmo que continue buscando.
Ai, essas pessoas não entendem nada de antônimos!
domingo, maio 14
Big Brother
E realidades,
Nos dias virados,
Em que pesaram a fragilidade
E evidenciaram-se minhas imperfeições –
Tão imperfeitamente escondidas -
Pude sentir no teu afago
Um acolhedor carinho humano -
Meu coração, meu nariz e meu pé te agradecem.
Nos dias de festas,
Vejo o esforço dos teus olhos -
Já tão miúdos normalmente -,
De ficarem abertos
Para aproveitarmos juntos,
Até a exaustão do corpo,
A beleza dos nossos dias,
Que sabemos
Finitos.
Nos dias de sonhos,
De vida comunitária,
De emancipação social,
De igualdade de oportunidades,
Procuro a tua aprovação na luta diária,
Mesmo que discorde,
Como um menino que precisa ouvir o irmão mais velho.
Voemos, portanto,
Sem medo de avião.
sábado, maio 6
Entregue
Se peço socorro pra ti,
É por que enxergo e sinto
Na beleza dos teus olhos e da tua alma
O conforto que necessito
Pra levar a vida com mais leveza.
Encontrando os meus defeitos nos teus,
Me faço humano,
Me desfaço do pano,
Que por muito desengano,
Me separa dos seres errantes.
Amo-te,
Assim como tuas idéias,
Que por vezes concretizamos
Em cartas sonhadoras e utópicas.
Utopias vividas,
Pois acredito na vivência da imaginação,
Mesmo que momentânea.
Sei, que o todo é feito de partes,
Assim como a vida de momentos,
Motivo pelo qual valorizo
O teu sorriso
E tua alegria revolucionária.
Comparo-os a um grito de liberdade,
Tão intenso e bonito,
Que me faz sentir saudade do presente
Mesmo incerto, tortuoso e errante.
Amo as entregas.
terça-feira, abril 11
Sinto que minto
E minto.
Minto que não sinto,
Mas sinto que minto que não sinto,
Portanto sinto.
Já que sinto,
O que faço então?
Se minto, também sinto que minto –
Mentira curta –
Logo percebo e sinto de novo
E sinto dobrado -
O já sentido e a sensação de mentira.
Minto pra mim, mas logo sinto.
O que faço então?
Aceito que sinto?
Mudo o que sinto?
Como mudo o que sinto?
Sinto,
Minto,
Sinto que minto,
Penso que sinto que minto.
Sensação quadruplicada.
Prazer de ter sensação, talvez.
Mas cansado do prazer mórbido.
Não quero mais sentir tudo
Pra não precisar mentir.
Sinto
E penso a verdade,
Meu rosto não nega.
Preciso me olhar de fora, por vezes.
sábado, abril 8
Ambas
Pra que nos momentos distantes
Em que tocamos nossas vidas
Possa sentí-las de fato -
A vida e tu.
sexta-feira, março 17
Gelatina
Por mais que tente pegá-la, agarrá-la, mesmo por um ínfimo momento, não conseguirás. É como uma gelatina pululante, que se esparrama pelos dedos, no difícil momento em que consegues tê-la em mãos. Aliás, não a tens em mãos. Ontem, alisaste a vida, eu sei, e achaste que fosse capaz de segurá-la. Ledo engano, menino inocente. Talvez porque esteja com a noção errada do que seja ter a vida em mãos.
Controlá-la?
Se é isso que pensas, pena de ti. Pois nunca conseguirás e mesmo que conseguisses, terias um insuportável sabor de chatice misturado com a amargura da onipotência, que a vida – essa mesma que não consegues agarrar – te fez ter. Controlá-la significaria perder o prazer – o maior da vida – do imprevisível, que te faz mudar os planos que tanto prezas, mas, que no fundo sabes, insuportáveis.
Agora, ter a vida em mãos pode ser a consciência de que não ela não é controlável e de que é o imprevisível, o não controle, o que mais te causa prazer. A tem em mãos no momento em que não a tem. Sim, sei que parece filosofia barata. Redefinirei.
Saber alguns dos meandros da vida, ou ao menos da tua vida, é a consciência necessária para te livrar das angústias da vulnerabilidade que sentes, pois tal consciência te mostra o quanto gostas desta gelatina pululante, desta incerteza diária, desta vulnerabilidade que tanto te angustia. Não pela angústia, mas pelo prazer da incerteza que te causa. Será que pela angústia também?
E a vida voa. E a vida voa. E se esparrama.
quarta-feira, março 8
Sou
Algo como “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê”. Ah, essa música é bacana, pois diz o que sente sem saber o que sente, já que não sabe o porquê.
Quero dizer o que sinto, sem saber exatamente. Por que precisaria saber exatamente? Mania de exatas. O mundo é viciado nas ciências exatas. Na lógica formal.
Quero sentir o contraditório. Matar a razão do filho da professora de matemática com dois sentimentos opostos. Quero amar o odiável e me permitir odiar o amável.
Tudo parece engraçado e ridículo quando exposto aos nossos julgamentos. Fodam-se. Fudamo-nos. Deixemos de ser ridículos e sintamos. As pessoas, as músicas, o vento. Mesmo que repetidas.
Mesmo que nossas. Mesmo que nossas. Mais uma vez, mesmo que nossas. Respeitemos os sentimentos. Mesmo que nossos. As músicas, mesmo que nossas. As pessoas, mesmo que nossas. Ops, ato falho, não possuo ninguém, por mais que queira.
Não me possuo. Não te possuo. Embora possuído seja.
“E lá se vai mais um dia”. Sinto-me possuído pelas melodias melodiosas. Aquelas que batem e ficam. Aquelas que ficam e batem. Batem e fazem bater ainda mais. Tenho um coração que bate, que sente. Tenho um coração. Não quero, necessariamente, com isso, ter mais. Mas é magnífica a sensação de ser. De ser humano. De ter um coração. De ter um coração que bate.
Ando descobrindo que sou. Por vezes “egocentro” as coisas, mas não necessariamente. Sei, nas profundezas da minha consciência que não há de ser só aqui que bate um coração. Felizmente, pois haveria de ser tedioso esse triunfo egocêntrico. Haveria de ser solitário. Não haveria de ser, aliás.
Ando descobrindo que sou. Que serei. E seres também.
terça-feira, fevereiro 28
Média
Caretice mesmo é o desregramento pelo simples medo da caretice. Desregramento que não respeita os limites suportáveis.
Nova sensação de mediocridade. Como se nunca fosse além.
quarta-feira, fevereiro 22
alisE
Ou seriam assustadores?
Nada disso, são doces.
Só tem medo ou susto
Quem não os vê
Com a devida atenção
E não percebe que a força é frágil
Ou está na fragilidade
Dos olhos fortes.
E assim dizia os bobos idos de dezembro de 2005:
E volta a cara de bobo
Que de boba nada tem
Estimulada pela insistência
De viver algo além
Além do que se vê
Com os olhos fracos
E desatentos.
quinta-feira, fevereiro 9
O resto
Meio que sou,
Meio que vou,
Meio que cedo,
Meio que tarde,
Meio que noite,
Meio que bobo,
Meio que sério,
Meio que eu,
Meio que procuro,
Não tão despretensiosamente assim,
O resto.
quarta-feira, janeiro 25
L(e)amb(r)ança
Não é só isso,
Tem um tanto daquilo outro,
Mas é isso também
E isso é o que resta a ser feito.
As nossas melhores lembranças
E lambanças
Aparecem vez em quando
Pra desvirtuar as outras tantas em construção.
Não devem ser motivo de culpa,
Muito menos de desvirtuamento ou descontrução,
Pois como sabemos bem,
Toda essa vida nova se baseia e se constrói
A partir das lambanças passadas
Mas não me pergunte o que são as lambanças presentes
Nem o que fazer com elas.
sexta-feira, janeiro 6
Ai, a primeira fresta
Que amava Juca que amava Dora que amava
Carlos amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha
(Flor da Idade - Chico Buarque)
sábado, dezembro 31
Torres Ribeiro
Clara Ana,
Claríssima,
Aníssima,
Claro que é Ana,
Ana que é Clara,
Que clareia,
Que elucida,
Que apaixona.
Clarana,
Serás Ana e Clara
E do mais,
Apenas será
Como a vida a moldar -
Sem idealizações.
Porém, se fores clara
Como a Ana Clara,
Moldarás a vida
E as pessoas que por ti passarem,
Com a claridade de tua alma,
Idealizada por mim, é claro,
Que por mais que tente,
Sou humano.
quinta-feira, dezembro 29
Aprendizado
Procuro na gritaria noturna, mascarada pelo silêncio que chamam de calada, uma pequenina explicação pras doenças da alma e do ego a que todos estamos vulneráveis, mas que poucos querem(os) admitir. Não admissão que agrava o estado clínico, pois a falta de diagnóstico agrava a doença pelo fato de lidarmos com os nossos defeitos da mesma forma doentia e defeituosa que os causaram. Não saímos do ciclo vicioso, não aprendemos nada com o que se passa.
Quero gente, amar gente, largar esse amor platônico e doentio que só sabe idealizar personagens de contos de fadas. Tenho a convicção de que me aceitarei muito mais como gente, ambíguo que sou, quando minhas paixões, amores e até desamores, forem gente ao invés de mocinhos e vilões.
Sim, sentirei falta do amor rasgado, inexplicável, apesar de tentar empalavrá-lo o tempo todo, sem fechar a minha matraca, racional que sou. Foi-me útil por mostrar que o sentimento é meu, direcionável para pessoas diversas, porém específicas.
Mas preciso me desvencilhar do que me foi útil. Quero encontrar pessoas para me aceitar como tal e, quem sabe, parar de escrever bobagem.
quinta-feira, dezembro 22
Mudo
As que não estão mudando talvez seja o eu, que procuro há tanto tempo, nesse emaranhado da vida, que nos confude com o que gostaríamos de ser.
E ser é o que gostaria(mos) de ser.
Eu amo tudo o que foi
A dor que já não me dói,
A antiga e errônea fé
O ontem que dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi e voou
E hoje é já outro dia.
(Fernando Pessoa)
terça-feira, dezembro 20
quinta-feira, novembro 10
quarta-feira, novembro 9
Fato amarelo real
-A minha casa é a mais bonita da vila!
A menininha, sem pestanejar e sendo política e poética ao mesmo tempo, respondeu:
-Não importa, a minha é a mais amarela!
A Origem do Mundo
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. COntou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso não entendia.
-Mas papai - disse Josep, chorando - se Deus não existe, quem fez o mundo?
-Bobo - disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando -. Bobo. Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.
(Eduardo Galeano - O livro dos abraços)
Livro dos Abraços
Recordar: Do latim re-cordis,
tornar a passar pelo coração.
segunda-feira, novembro 7
A imbecilidade humana não tem limites
06/11/05 20:22-Torcedor do Bota morre em confronto com Flamenguistas- jovem de 20 anos é atingido por golpes de foice na serra que liga Volta Redonda ao Rio
Preferia que o flamengo nunca tivesse existido a ler isto.
quinta-feira, novembro 3
Sim, são infelizes
É pra poucos.
Não me sinto mais bonzinho que ninguém,
Apenas mais inteligente
Desfruto do prazer do bem.
sexta-feira, outubro 28
...
Mentirinha branca
Querida,
Tem cheiro de alecrim,
Que eu não conheço,
Mas sei que é assim,
Só porque diz na música
Da Adriana Partimpim.
sexta-feira, outubro 21
quarta-feira, outubro 19
Gotículas
Que embora em terra,
Permanece no céu
Com uma maturidade infantil,
Observando meus espasmos de alegria
- Que o prático desdenharia –
Com a doçura de seu olhar juvenil
E a sapiência da sua mente adulta,
Que luta.
Mesmo sabendo que não passam de espasmos,
Me devota sorrisos dignos de outros espasmos
E me diz do fundo da sua sabedoria de criança
Que são os espasmos que nos dão a esperança
De um dia ver a Cecília e sua lambança
Ter espasmos mais freqüentes,
Que de tão recorrentes,
Deixariam de ser assim denominados.
quarta-feira, outubro 12
Suspiro
Tão cida
Que de tanto apontar a arma
Tomou um tiro
Sem apertar um gatilho
Tão ida
Que foi
Sem ir
Tão vida
Que morreu
De excesso
Tão cesso
Que viveu paralisado
Pelos egos super
Não cesse,
Vá,
Limite-se até o limitável
E suma quando preciso.
sexta-feira, outubro 7
Mas eu quero somar
Sonho não vale.
E sei que mereço
Por motivos diversos.
O resto do que presto
Ainda posso raspar com uma colher
E entregar a ela.
Que coisa louca e complexa,
Viver parece um camaleão metamorfosiático
O que eu fui, sou e/ou serei,
Se confundem com o que sobrou.
É apenas uma conta de subtração.
Um tango pra vocês
Não tornará a ouvir o som dos meus passos
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela ultima vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar
Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?
Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida
Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida?
Existem tantas... um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada.
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...
Oh morte, tu que es tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...
(Raul Seixas e Paulo Coelho)
terça-feira, outubro 4
Tem que ir
Remela no rosto,
Bunda de fora e
Descabelado,
Porque se não for, não vai.
Tem que ir.
sexta-feira, setembro 30
Apesar de tudo...
Lennon e McCartney existiram,
Chico compôs com o Vinícius.
... as quintas feiras estão aí,
assim como as mesas de bar com o Césinha
e o novo, que traz tudo,
apesar de tudo
... somos o que somos,
apesar do que fomos,
já que na verdade sempre somos
um pouco do que fomos.
apesar de tudo,
que não é pouca coisa,
estamos aí...
... sou, quero, amo
....apesar de tudo
sexta-feira, setembro 23
Relatos ancestrais do ano de 2005
A gente se olha, se toca e se cala, mas continua se desentendendo no instante em que fala (Belchior, 1978). Meus velhos amigos continuam novos. As meninas continuam interessantes, apesar da culpa e da modernice exacerbada, chegando ao extremo nas danças em frente à caixa de som. O visual não é acompanhado de atitude. As atitudes ainda vestem calça boca de sino.
Minha mãe continua fazendo aniversário. Eu continuo o mesmo. Não, não, não. Eu ando mudado. Mudado e mudando. Particípio e gerúndio. Ando pensando em sair de casa para uma outra casa, na qual as dificuldades venham a me facilitar as coisas.
Ando pensando em paz. Ando pensando em rede. O mundo continua rápido. As frases continuam curtas, como os cabelos. E as palavras continuam parcas. Ou será que é o impronunciável que continua extenso?
Continuo. E descontinuo. A vida, a história e a música são feitas de ruptura e continuidade. Sou uma ruptura contínua. Envelheço para o novo.
Continuo amando.
quarta-feira, setembro 21
Boçal do bem
O quanto te amo tanto.
Porque tanto é tão grande
Quanto o medo de te perder.
Hoje eu não queria ser boçal
Como estou sendo agora,
Mas tampouco queria ser falso.
Não queria querer tanto
Nem queria temer o quanto
Porque nunca se sabe o quanto é seu
E o quanto é meu.
E essa mania idiota de querer saber
Só completa a boçalidade
Que é ainda agravada pela vontade
Necessidade,
Sei lá o que,
De não ser boçal!
Seu boçal!
terça-feira, setembro 20
Água Viva
“Estava com saudades das novidades do sonho”. No sonho se é e mais nada. E justamente por ser, e apenas ser, me liberto de amarras e me embasbaco muitas vezes ao me deparar com gênios dentro do meu sonho. Gênio por ser, apenas por ser e justamente por ser. É gênio quem é e só se preocupa em ser. Não em ser gênio. Ser apenas. A preocupação de ser gênio não é uma preocupação de ser, e sim de ser gênio.
Ser. Ser (ponto).
“Lembrar-se com saudade é como se despedir de novo”. Prolongamos despedidas quando queremos que nossos “É”s continuem sendo. Queria me despedir das despedidas. Ao invés do sou, vivo no fui. Fui. Quero ir. Quero dizer fui pra ser. Ser. Ser(ponto). Ser um ser. Pra ser um ser, preciso ser. E apenas ser (ponto).
“Violeta diz levezas que não se podem dizer”. É na sutileza que se arrebenta. Prefiro um tapa na cara. A sutileza é uma falsa indiferença. Cruel.
“X – o instante impronunciável”. É impronunciável.
“E eu estava só, sem precisar de ninguém. É difícil porque preciso repartir contigo o que sinto”. Falsa ilusão, humanóides!
A busca para entregar-me aos instantes me faz perder diversos instantes. “Realizo o realizável e o irrealizável eu vivo”. Presença leve. Levíssima. Quero gozá-la.
Vivo. Viva. “Traga-me um copo d´água”. Pode me matar.
(Em aspas, trechos de água viva - Clarice Lispector)
quinta-feira, setembro 15
Caçador de borboletas
O sentimento-mais no instante-tal,
Faz parte de um desespero momentâneo,
De uma ânsia suspirática.
Vem cá, borboleta,
Senta aqui do meu ladinho,
Não é todo dia que vejo um inseto metamorfosiático
Violeta com bolinhas amarelas.
Eu pareço piada de cursinho de inglês!
sábado, setembro 10
Nas lúcidas entrelinhas
E ofereço o que não tenho
Só pra ter o que não ofereço.
Essa história de dar pra receber
É conto da carochinha.
Eu dou pra dar
E recebo pra receber.
Dou por dar
E recebo por receber.
E por perceber,
Que dou o dável,
Quero receber o recebível
sexta-feira, setembro 9
*-mais
E só isso
terça-feira, setembro 6
segunda-feira, setembro 5
Minto que nem sinto
Eu não vivo no passado
O passado vive em mim
(Paulinho da Viola – trecho do documentário “O meu tempo é hoje”)
domingo, setembro 4
Perdidos e Achados
Por tudo que não vivemos,
Por tudo que juntos não aprendemos
E também pelos beijos tantos que não demos.
Por todos os filhos que juntos não criamos,
Por todas as músicas que sozinhos escutamos,
Pelas estrofes que em parceria não escrevemos
E por todas as viagens que ficaram no vamos.
Pela casa que não construímos,
Pelas noites em claro que passamos
E pelas loucuras muitas que não passaram de devaneios,
Eu choro.
Mas transformo as minhas lágrimas em lágrimas,
Porque há lágrimas e lágrimas
E é importante diferenciá-las.
Pois quero que as lágrimas transformadas
Me dêem força
Para encontrar todos esses dias
Em alguma esquina da vida.
sexta-feira, setembro 2
E o bigodão sul-africano canta assim:
With every single beat of my heart
Yes, I was born to take care of you
Every single day of my life
(I was born to love you - Freddie Mercury)
quinta-feira, setembro 1
Desepero em moda
Feito faca
Corte a carne
de vocês.
(A Palo Seco - Belchior)
O pra sempre nunca acaba
Não é assim que tem que ser?
Não? Como é então?
Me ensina aí, pô.
Eu só sei assim e de vez em quando a fome dói,
Uma dor que dói,
Diferente dessas que são apenas subterfúgios,
Essa não é fuga não, dondoca.
Muito pelo contrário,
Essa peca pela demasia.
“I´ve got a felling, a felling deep inside,
A felling that I can´t hide”
E que seja apenas Por Enquanto,
Dizem que na volta pra casa
A fome passa
E não há mais necessidade de esconder nada.
Nem o nada.
Quero poder ser nada de vez em quando,
Estúpido,
Burrinho,
Assumir os meus mais íntimos defeitos,
Minhas maiores limitações
E não precisar mais das máscaras
Porque já to com medo de que uma delas grude.
Quero voltar pra casa.
domingo, agosto 28
Aquilá
ou seria aqui?
Se conta quando escrevo,
é aqui;
Se conta quando digito,
é lá;
Se conta quando eu sinto,
é confuso.
Muitas vezes estou lá,
achando que é aqui,
mas eu sei que é lá
pela falta do concreto.
É aqui no sentimento e talvez na imagem,
mas o físico permanece lá.
E eu quero viver aqui,
por menos bonito que seja,
porque é aqui que se faz o lá.
sábado, agosto 27
Pára Nuca
por mais instantâneos que sejam,
ou tenham sido,
são de fundamental importância na minha vida.
Para sempre lembrarei deles
e juro
nunca mais
colocá-los em questão.
quarta-feira, agosto 24
11 de Setembro
Ser assim.
Eu não,
prefiro assim com você,
juntinho,
Sem caber de imaginar
Até o fim raiar.
(Morena - Marcelo Camelo)
terça-feira, agosto 23
Lambuzados
Porco adora lama!
sábado, agosto 20
Hay que endurecer
Neném.
Com vírgula,
Por favor,
Porque não tem neném,
Mas tem, neném.
Então vem,
Mas vem sem calma,
Porque eu tô que tô,
Querendo uma vinda afoita,
Com direito a roupa rasgada.
Sai da moita
E vem correndo,
Porque já passou das sete
E eu não quero me prender na hora,
Mas quero te prender na hora.
Primeiro o pulso esquerdo,
Depois o direito.
Fique quietinha
E deixa que eu faço o trabalho inicial,
Mas não se acanhe!
Solte as amarras e me ganhe
Com esse olhar de ladinho,
Pedindo com carinho
Pra que eu perca o carinho,
Pero sin perder la ternura.
Seize the day - aceitamos contribuições
“Essa brincadeira de poder continua e você pode contribuir com um verso. Qual será o verso de vocês?”
(Sociedade dos Poetas Mortos)
sexta-feira, agosto 19
Um sonho de verão em pleno inverno
Praias desertas, apesar de lotadas,
Coqueiros repletos,
Porém altos demais.
Biquínis europeus,
Mulheres estadunidenses dançando a Macarena,
Com seus corpos esquisitos.
Desejo de verão em pleno inverno
Se transformou num inferno.
Um inferno interno.
quarta-feira, agosto 17
Habemus Apelido
Esse post é dedicado a MariaClaudiadeAlbuquerqueFarias, apesar de não ter nada a ver com ela. É só pra batizar. Tchothcofla aí pro batismo.
Guerra Declarada
Senhoritas das noites perfeitas,
Hoje, eu queria ter uma bomba ou um flit paralisante qualquer pra poder me livrar bem no último instante das suas frases feitas, das suas noites perfeitas, perfeeeeeeeeitas!
LÁ, SI, LÁ MI, RE, MI...
-Se Sobrá, me dá um pouquinho aí...
-Seu boçal, essa água que desce aí ardendo pela sua garganta não é desinfetante, não vai limpar porra nenhuma aí dentro!
-Gostaria de saber, meritíssimo, porque você usa esse bigode ridículo e se você já sabe que sua queridíssima esposa anda trepando com todo o Júri.
Michelle Ma Belle
Palavras que juntas caminham bem
(Beatle Paul – tradução: Flávio Chedid)
terça-feira, agosto 16
Ser o que ele é e quiser
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Livre para amar
Livre para amar
Livre para amar
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ser o que ele é
Ser o que ele é
Ser o que ele é
(O seu amor- Gilberto Gil - sob efeito da erva maldita)
Não há dor no Arpoador
Hoje senti um perfume velho vagando na rua. Depois pensei que se fosse tão velho assim como o sentiria a troco de nada? O perfume mesmo velho era novo. Não passou? Passou, mas o perfume ficou. Há sempre um tanto de novo no velho e um tanto de velho no novo.
O Arpoador
.....................Assusta,
Por mais que não haja dor ali.
O Arpoador,
......................É sempre novo
Por mais velho.
...........................O sol nunca se põe no mesmo lugar.
Ou seria impressão minha?
domingo, agosto 14
Com "u" mesmo
Enquanto fudido continuar fudendo fudido a serviço de um fudedor-mor,
Que, aliás, é o único que goza nessa fudelança toda,
Não haverá panelaço que solucione.
Enquanto em todos pequeninos detalhes,
Tirar vantagem for sinal de inteligência,
E apenas o seu vizinho, compadre ou alguém com afinidade próxima
For digno de respeito,
Não haverá indignação digna de mudanças.
Enquanto a indignação continuar sendo dirigida a "eles",
E nunca ao "eu",
E continuarmos vivendo num país de "eles",
Fudeu,
Porque “eles” vão continuar fudendo tudo e botando a culpa em “eles”.
quinta-feira, agosto 11
Dengo d(qu)e re(n)de
Me faz um cafuné,
Que hoje eu quero um dengo molengo,
Daqueles de rede,
Morrer de sede
Pra não perder a posição,
Entrelaçar as pernas
E deixar que elas formiguem,
Me encolher no teu colo
Pra que você me carregue.
Vou no teu embalo sem sair do lugar,
Morro no teu colo sem reclamar,
Digo nomes sem sentido
Pra ver tua reação.
Adoro quando faz essa cara
De quem não entendeu,
Adoro quando encontra um cravo
E me pede pra espremer,
Adoro fingir que não gosto,
Adoro sentir o teu gosto
E também o teu gosto.
Adoro dormir mal ao teu lado,
Todo torto e preocupado,
Só pra te ver acordar de mau humor,
Murmurando palavras em grego
E reclamando do cobertor,
Que eu puxei pra mim.
Vem cá, menina,
Me faz um cafuné
E vamos pensar em nomes
Pra quando o mundo melhorar.
segunda-feira, agosto 8
Tuiuiu
Foi logo ali,
No morro do Tuiuti.
Mesmo em casa,
Vivia ali,
No morro do Tuiuti.
Ali
-No morro do Tuiuti-,
Joguei bola e me casei.
Cai do altar e até chorei.
Confesso que por muito esqueci
Do morro do Tuiuti,
Mas hoje lembrei de onde vim,
Das 7 mulheres da Dona Sebastiana,
Da minha infância regada a brigadeiro,
Dos simples gestos e pessoas que formam uma pessoa.
Modéstia à parte,
Eu vim dali -
Do morro do Tuiuti.
domingo, agosto 7
Amor de fôrma
Pensando em ré menor,
Sei que a vida urge
E não hei de deixar meu blusão de couro,
Que ainda não tenho,
Se estragar no armário.
Será na estrada,
Na maldita e desejada estrada
Que me faz inventar meu próprio ser.
“O amor somente é tão banal”
Tão tão tão, que vem sendo vendido na padaria.
Dizia a menina desesperada: “me vê dez amores franceses, por favor”.
Tão tão tão mais fácil,
Que quando acabava, bastava pedir mais dez.
Ah, maldita mania de falar da praticidade dos outros.
Maldita mania de pensar na complexidade do eu.
Maldito egocentrismo que teima em banalizar o que há de diferente.
Narcisismo idiota!
sexta-feira, agosto 5
Sem dinheiro no banco
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Amar e mudar as coisas me interessam mais
(Apenas um rapaz latino americano – Belchior)
Dúvida ortográfica
quinta-feira, agosto 4
Astrid
Pensou: “Não seja bobo, isso não é necessário e violões não transam com guitarras. Ou transam?”. Se a guitarra tiver aqueles olhos pode ser que transem, mas esses raios azuis são muito discretos. Pensou que talvez o violão pode ter se apaixonado justamente pela discrição. E também pensou que eles não precisavam estar apaixonados para darem uma trepadinha. Um sexo casual entre um violão e uma guitarra é algo esquisito, porém compreensível.
Retirou-os com um certo cuidado da cama, mas não o merecido. Era tarde, era frio, faltava sensação e queria enfiar a cabeça no travesseiro. Queria esquecer de esquecer. Queria não precisar esquecer nem fazer jogos de palavras pra esconder o real sentido das coisas, que nem ele sabia qual era.
Dormiu pensando que só perde um amor quem ama, ou pelo menos quem amou. Sonhou com raios azuis discretos. Acordou com alguma sensação.
quarta-feira, agosto 3
Sonho não se dá
Quis nunca te perder
Tanto que demais
Via em tudo o céu
Fiz de tudo o cais
Dei-te pra ancorar
Doces deletérios
E
Quis ter os pés no chão
Tanto eu abri mão
Que hoje eu entendi
Sonho não se dá
É botão de flor
O sabor de fel é de cortar
Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
Muito bem
Quis nunca te ganhar
Tanto que forjei asas nos teus pés
Ondas pra levar
Deixo desvendar
Todos os mistérios
Sei, tanto te soltei
Que você me quis em todo lugar
Lia em cada olhar quanta intenção
Eu vivia preso
Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
O que eu queria, o que eu fazia, o que mais
Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?
Não sei maaaaaais!
Os dias que eu me vejo só são dias que eu me encontro mais
E mesmo assim eu sei tão bem: existe alguém pra me libertar!
(Condicional - Rodrigo Amarante)
terça-feira, agosto 2
Pessoa Maior
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.
(Fernando Pessoa)
(Grifo dele)
segunda-feira, agosto 1
Há algo além
As gotas de melancolia, a rede que côa as memórias boas, o cheiro de mato...
Desejos bucólicos são desejos de grávida. Aparecem no meio da madrugada, no meio do trabalho, no meio da vida, no meio do fim. Também preciso sair dessa ilha! Preciso ir além, além do que vejo, além do que sinto. Preciso aprender a nadar antes que as gotas alaguem a ilha. E deixar de ser piegas também.
Chove uma chuva fina e triste
Na minha alma
caem gotas de melancolia
Ao me lembrar da alegria
Dos bons tempos idos.
Tudo me adivinha
Nesta hora de garoa.
Lanço minha rede e ela côa
O que chega de mim de memória boa.
Este estado melancólico
É, no fundo, desejo bucólico
De cheiro de mato,
De sítio com galinha, cachorro e pato,
Do perfume de terra molhada.
Vontade de partir dessa cidade ilhada
De erros cometidos pela ganância escrachada -
A fome do desvalido,
O choro bandido,
A cidade dividida
Em banquete e latrina -.
Tudo fere - a menina
Pobre sem escola,
Mais à frente o menino que cheira cola,
O mendigo no passeio pedindo esmola -.
No ermo dos questionamentos meus,
Não consigo encontrar Deus,
Mas, ainda assim, dentro da órbita,
Peço paz ante a constatação mórbida:
Cheiro de mato,
Sítio com galinha, cachorro e pato,
O perfume de terra molhada
E meu amor comigo na estrada
(Paulo Sabino)