domingo, novembro 12

Resíduos

E realmente, de tudo fica um pouco.
Sobretudo do que um dia fora tudo.
Do pouco, nada fica.

Caderno de Belezas

É que mesmo com tantos murros e pontapés,
existem abraços tão sinceros,
sorrisos tão doces,
lágrimas tão amorosas,
que me dá uma vontdade de acreditar no mundo.

domingo, outubro 29

Pa!

Estive em Flori,
onde um PM me chamou de guri,
onde andei idealizando pessoas
e percebi,
que apesar das diferenças culturais,
há uma lógica regente:
a lógica dos plurais,
a lógica do amor.

Um homem de bar,
desses que quase não falam,
me mostrou,
em meio a discursos e discussões,
o imensurável amor que o rege
e me arrancou lágrima dos olhos
em um ambiente onde homens não choram.

Com olhos de quem continua aprendendo,
e guarda na profundeza dos olhos lacrimejados
a imagem da filha -
a bela Julia Gabriela -,
o homem simples de bar
externalizou a beleza de ser,
a beleza do amor,
a humanidade que o rege,
contradizendo os sabidos da vida -
normalmente com as calças acima dos umbigos -,
que gostam de teorizar sobre a natureza humana.

A natureza humana, ora pois,
pressupõe naturalidade,
e não pode ser entendida em um mundo artificialmente construído,
em que desejos são "desejosamente" manipulados.

Muita gente morre sem descobrir sua natureza,
achando natural dedicar a vida
a construir a morte,
a alimentar a artificialidade humana.

Dinheiro e poder são criações humanas,
portanto artifícios,
embora tenham se tornado fins,
que arrogantemente do lugar de onde falo,
afirmo que não levam a nenhum sentimento
perto do que tive em Flori.

No caminho,
solucei
e
exorcizei,
ao menos por um instante,
as artificialidades presentes em mim.

Vi um pouco da minha natureza,
embora hoje a artificialize com palavras -
criação humana -
a serem aprovadas.

Andei por Flori,
Chorei por Flori,
Fui, do verbo ser,
em Flori.

terça-feira, outubro 10

Da Lagoa

Se ontem fui, por que não serei amanhã o que ainda sou hoje?

De São Gabriel

Sim, tudo é certo logo que o não seja.
Amar, teimar, verificar, descrer.
Quem me dera um sossego à beira-ser
Como o que à beira-mar o olhar deseja.

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, setembro 15

Harmonia dos sentidos

Quando os olhos entravam em sintonia com as glândulas lacrimais, os ouvidos faziam pelos se arrepiarem e subia pelo corpo toda a plenitude do momento, em que celebrava, sobretudo, o presente, Clara pensava: quem me dera agora ter comigo um violão e saber tocá-lo. Apesar das inclinações musicais, a menina nos 20 anos vividos não tivera tempo pra se dedicar ao talento que ainda não sabia que tinha.

Talvez isso permitisse a Clara ir além. Não parando para compor, tocar, escrever, Clara ia além nos seus sentimentos. Não os cortava, sentia apenas. Não havia registro formal de grande parte dos sentimentos de Clara, mas muito deles ficaram nesse quarto que hoje habito. Nem todos imateriais.

Hoje sinto Clara de diversas maneiras, mas tudo começou com rabiscos em uma folha de papel encontrada em um armário embutido da cozinha. Não fazia muito sentido ter sido guardado, parecia algo esquecido junto com louças, que de tão velhas, não pude utilizar.

Há homens grandes pensando no amor,
E isto não é uma questão de estatura,
Hoje chorei ao pensar junto na ternura
De um pequeno grande ator.


De fato eram rabiscos. Ao lado do pequeno texto, coisas sem sentido, provavelmente escritas quando Clara falava ao telefone. Nomes de pessoas de cabeça pra baixo, com desenhos abstratos e números tentando dar uma ordem à bagunça feita.

Esse foi o primeiro contato que tive com a menina que sabia voar, sobretudo quando os sentidos se harmonizavam.

segunda-feira, setembro 11

Instante de Amor

Me ame apenas
no preciso instante
em que me amas.

Nem antes,
nem depois.
O corpo é forte.

Me ame apenas
no imenso instante
em que te amo.
O antes é nada
e o depois é morte.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Desistindo da insistência

Clara, com seus dedos finos, personalidade forte e olhar dissimulado, não conseguia entender a hora de deixar. Tudo parecia desistência e Clara não entendia que continuar, por vezes, era uma desistência. Clara, com seus dedos finos, personalidade forte, olhar dissimulado e persistência poucas vezes desistia. E não entendia que a insistência, por vezes, era uma desistência.

Clara, com seus dedos finos, personalidade forte, olhar dissimulado, persistência e ingenuidade dava murros em ponta de faca. Clara seria capaz de voar pela janela. Clara não seria capaz de se suicidar. A ingenuidade de Clara parecia insana aos insanos realistas. Clara sabia voar, ao contrário dos insanos realistas, parasitas da história.

Sua mãe nunca lhe dissera, mas era a mistura de dois grandes nomes. Clarice com Laura. Clarice e Laura nunca se conheceram, passaram por momentos distintos na vida da mãe de Clara. Ambas sabiam voar, ambas tinham inclinações musicais, ambas sabiam amar. Clara fora muito idealizada, como toda criança. Clara tinha passado, entendia de história, motivo pelo qual não desistia. Clara persistia proque entendia de história.

Olhando para o mato escuro, ouvindo música nova, Clara insistia na desistência. Clara, entretanto, desistia da mediocridade dos parasitas da história. Clara tinha o que aprender sobre o amor. Clara tinha o que ensinar sobre história.

Mesmo com os desencaixes

A vida é a arte do encaixe.

quinta-feira, setembro 7

A janela de Clara

Sentada nessa mesma posição, olhando pra mesma mata, pensando também em andar pelo telhado, procurando o mico que outrora vira e embargando a voz pra pronunciar o nome de quem, há pouco, estivera com ela olhando a mesma mata.

A menina que nessa casa morou, fruto da minha imaginação, também pensava nos que antes dela aqui estiveram, sonhando com um mundo dos que sonham, dos que acreditam que constroem a história, dos que constroem. Sonhos não envelhecem nem morrem.

A menina de cabelo curto desalinhado, de traços fortes, porém delicados, captava os sonhos dos que antes dela estiveram aqui. Sonhos que ficam no ar, que não a deixava esquecer a sua continuidade no mundo, mesmo sabendo que um dia também viraria pó. Clara não se conformava com a estupidez dos que, não entendendo a citada continuidade, destruíam as condições físicas do planeta, que a cada dia se mostravam mais perecíveis.

Clara gostava da mata que olhava pela sua janela, a via como uma faixa de resistência à destruição das condições físicas do planeta. Homens, cada vez mais egoístas e burros, sabendo da sua limitação física na terra e não entendendo a continuidade dos seus sonhos, ameaçavam toda a existência e a afirmação de que os sonhos não morrem. A limitação física do planeta ameaçava a eternidade dos sonhos de Clara e dos que antes dela aqui estiveram, sentados nessa mesma posição, olhando pra mesma mata, pensando também em andar pelo telhado, procurando o mico que outrora viram e embargando a voz pra pronunciar o nome dos que, há pouco, estiveram com eles olhando a mesma mata.

quarta-feira, setembro 6

Fragmentos

Choro não só pelo que foi
Choro não só pelo que dói
Choro não só pelos nossos erros
Choro não só pela música
Choro não só pelo não feito

Choro também pelo que ficou
Choro também pelo que virá
Choro também pelos acertos que tivemos
E por todas as músicas que não consegui te mostrar
Assim como filmes e pedaços de mim.

Dificuldades Manuais

Sempre tive dificuldades em escrever à mão
Com a esquerda nunca
pude executar bem as coisas
que me pedia.
A firmeza da direita nunca tive.
Trêmula se me mostra às vezes.
Com a idade não poderei tomar sequer uma xícara
de café.
Mas posso ainda dar um murro na mesa
ante a atual situação ou sobraçar um montão de rosas.
Bem, neste caso, quem treme
é o coração.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Presente

O que te dar neste dia?

O que te daria eu ontem
quando nem te conhecia?
E amanhã, o que darei
se hoje não te dei
o que devia?

O que te dou é apenas
sombra do que querias
Dou-te prosa, e o desejo
era dar-te poesia.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

domingo, agosto 13

Apego

E no exato momento em que a caneta parou no papel, em que as palavras precisaram ser inventadas – e não mais expurgadas, como de costume -, percebeu que havia algo de podre no reino encantado.

“Moça dos olhos lindos (trocou menina por moça),

Preferi as páginas em branco pra poder criar em cima do nada, em cima do novo (de fato, precisavam de algo novo)”.


...
A caneta parou...

Tentou a partir de então se explicar: porque escolheu a página em branco e não um cartão apapagaiado que os namorados costumam dar, porque a escolheu sabendo de todas as complicações que isso causaria (sim, já sabia), porque escrevia essa carta de maneira tão idiota e, finalmente, porque ela não fluía e porque havia vários pontos no papel de caneta parada.

A carta, que nunca fora carta, tinha muitos pontos manchando o papel e não fosse o choro seco que o atormentava neste dia, os pontos de caneta seriam manchados pelas lágrimas, que rolavam internamente e se acumulavam em algum depósito lacrimal. Seria essa a razão das mudanças no seu corpo?

O choro seco é corrosivo

Carta pra ser carta precisa ser entregue, mas choro pra ser choro não precisa ter lágrimas. Chorava pela carta que não era carta. Precisava torná-la carta ou parar de precisar disso. Precisava desaguar, talvez precisasse corroer.

O apego é corrosivo.

Precisava corroê-lo porque não é possível eliminá-lo de uma só vez.

Ápice

Aproveito o auge da minha bipolaridade

segunda-feira, agosto 7

Dias assim

Dias de sim
Dias de não
Dias de quanto
Dias de tão
Dias de muito
Dias de pouco
Dias de graça
Dias sem graças
Dias de dia
Dias de noite
Dias de domingo
Dias de sábado
Dias de luta
Dias de preguiça
Dias de santo
Dias nem tanto
Dias quentes
Dias mornos
Dias de paixão
Dias de desamor
Dias de carinho
Dias de dor
Dias de cão
Dias de ressaca
Dias normais
Dias cansados
Dias demais

Demais, demais,

Porém com a absoluta convicção de estar vivendo os melhores 80 anos da minha vida

sexta-feira, julho 21

Comigo

Se você vier pro que der e vier
(...)
Se você vier até onde a gente chegar
(...)
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo
(...)
Eu lhe prometo o sol

(Geraldo Azevedo/Renato Rocha - Dia Branco)

quinta-feira, julho 20

Codinome

E espero que o mais honestos dos sentimentos esteja a flor da pele quando o beija-flor te olhar pela janela. Ontem um pousou por aqui, me olhou de lado e me assustei. Nem sempre estamos preparados para o belo. Praticamente o expulsei.

quarta-feira, julho 19

Ascendente

Adoro manter acesa
a chama que me faz ascender.

sábado, julho 15

Game

Em noites de dia,
Me chame.

Dos falsos amores,
reclame.

Nos sábados quentes,
proclame.

Nos dias de noite,
Me ame.

Ideologia

23,
Dizem que é uma questão de idade
Penso que é uma idade de questões.

quarta-feira, julho 12

Um pouco mais

Quando o meu bem-querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais

E quando o seu bem-querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais

E quando o meu bem-querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais

E quando o seu bem-querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais

E quando o meu bem-querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria dos animais

E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás

(Bem querer - Chico dos olhos d'água)

Todas, meninas

segunda-feira, julho 3

Essência

E no louco universo da família -
Em que por vezes reina a hipocrisia -,
Podem ser encontradas
As mais belas manifestações
De carinho, ternura
e Abdicações.

Universo paralelo em que nesse
Mundo vasto
Vasto mundo
Temos a real dimensão
Da importância de sermos,
Ora ofuscada pelo emaranhado
De pessoas e egos.

quinta-feira, junho 29

PS

Um coração quando chora,
Precisa ser ouvido.
Há um tanto de lágrimas
Capazes de mudar o curso das coisas.

Um coração quando arde,
Precisa ser estimulado
Antes que o fogo cesse
E retorne à mediocridade dos dias mornos.

domingo, junho 18

O adeus dos sonhos

Os sonhos iam viajar. Helena ia até a estação do trem. Da plataforma, dizia adeus aos sonhos com um lencinho.
(Livro dos Abraços - Eduardo Galeano)

quarta-feira, maio 17

Post Novo

Hoje eu quero pensar no que nunca senti. Todo sentimento novo me faz pensar no que nunca senti e talvez no que nunca irei sentir.

É uma sensação maravilhosa,
Por mais que ansiosa,
De todas as possibilidades que a vida reserva.

Viajarei de avião pela segunda vez,
E isso me arrepia,
Pois da primeira,
Talvez por sê-la,
Tive uma sensação nova,
Dessas maravilhosas,
Que por mais que ansiosas,
Causam a esperança supracitada.

Percebi, ora bolas,
A minha insignificância,
Perante a imensidão de tudo.

Não ria, menina,
Eu achava que era grande,
Embora seja,
Mas eu achava que era maior,
Maior do que sou, sabe?

Achava que o mundo dependia de mim.
Não ria, poxa,
Eu achava mesmo,
E pior,
Achava que gostava disso.

Gostava não,
Eu gosto dessa sensação de leveza,
De pertencimento,
De poder quebrar o pé,
Sem que haja um colapso,
(Por mais que goste também da falta que causo –
Humanóides egocêntricos)

Hoje eu te quero,
Muito mais do que um dia pude querer ser maior,
Mesmo porque eu só achava que queria.
Queria não.

Te quero com meu coração,
Com meu corpo,
Com minha boca,
Muito mais do que com meu ego,
Por mais que o alimente.

Te quero minha, mesmo que livre,
Te quero linda, mesmo com rugas,
Te quero feliz, mesmo que continue buscando.

Ai, essas pessoas não entendem nada de antônimos!

domingo, maio 14

Big Brother

Parceiro de festas, sonhos
E realidades,

Nos dias virados,
Em que pesaram a fragilidade
E evidenciaram-se minhas imperfeições –
Tão imperfeitamente escondidas -
Pude sentir no teu afago
Um acolhedor carinho humano -
Meu coração, meu nariz e meu pé te agradecem.

Nos dias de festas,
Vejo o esforço dos teus olhos -
Já tão miúdos normalmente -,
De ficarem abertos
Para aproveitarmos juntos,
Até a exaustão do corpo,
A beleza dos nossos dias,
Que sabemos
Finitos.

Nos dias de sonhos,
De vida comunitária,
De emancipação social,
De igualdade de oportunidades,
Procuro a tua aprovação na luta diária,
Mesmo que discorde,
Como um menino que precisa ouvir o irmão mais velho.

Voemos, portanto,
Sem medo de avião.

sábado, maio 6

Entregue

Amigo dos dias difíceis,
Se peço socorro pra ti,
É por que enxergo e sinto
Na beleza dos teus olhos e da tua alma
O conforto que necessito
Pra levar a vida com mais leveza.

Encontrando os meus defeitos nos teus,
Me faço humano,
Me desfaço do pano,
Que por muito desengano,
Me separa dos seres errantes.

Amo-te,
Assim como tuas idéias,
Que por vezes concretizamos
Em cartas sonhadoras e utópicas.

Utopias vividas,
Pois acredito na vivência da imaginação,
Mesmo que momentânea.

Sei, que o todo é feito de partes,
Assim como a vida de momentos,
Motivo pelo qual valorizo
O teu sorriso
E tua alegria revolucionária.

Comparo-os a um grito de liberdade,
Tão intenso e bonito,
Que me faz sentir saudade do presente
Mesmo incerto, tortuoso e errante.

Amo as entregas.

terça-feira, abril 11

Sinto que minto

Claro que sinto
E minto.
Minto que não sinto,
Mas sinto que minto que não sinto,
Portanto sinto.

Já que sinto,
O que faço então?

Se minto, também sinto que minto –
Mentira curta –
Logo percebo e sinto de novo
E sinto dobrado -
O já sentido e a sensação de mentira.

Minto pra mim, mas logo sinto.

O que faço então?

Aceito que sinto?
Mudo o que sinto?
Como mudo o que sinto?

Sinto,
Minto,
Sinto que minto,
Penso que sinto que minto.

Sensação quadruplicada.

Prazer de ter sensação, talvez.
Mas cansado do prazer mórbido.

Não quero mais sentir tudo
Pra não precisar mentir.

Sinto
E penso a verdade,
Meu rosto não nega.

Preciso me olhar de fora, por vezes.

sábado, abril 8

Ambas

Guardo e sugo teus olhos
Pra que nos momentos distantes
Em que tocamos nossas vidas
Possa sentí-las de fato -
A vida e tu.

sexta-feira, março 17

Gelatina

E a vida passa. E a vida passa. E a vida corre.

Por mais que tente pegá-la, agarrá-la, mesmo por um ínfimo momento, não conseguirás. É como uma gelatina pululante, que se esparrama pelos dedos, no difícil momento em que consegues tê-la em mãos. Aliás, não a tens em mãos. Ontem, alisaste a vida, eu sei, e achaste que fosse capaz de segurá-la. Ledo engano, menino inocente. Talvez porque esteja com a noção errada do que seja ter a vida em mãos.

Controlá-la?

Se é isso que pensas, pena de ti. Pois nunca conseguirás e mesmo que conseguisses, terias um insuportável sabor de chatice misturado com a amargura da onipotência, que a vida – essa mesma que não consegues agarrar – te fez ter. Controlá-la significaria perder o prazer – o maior da vida – do imprevisível, que te faz mudar os planos que tanto prezas, mas, que no fundo sabes, insuportáveis.

Agora, ter a vida em mãos pode ser a consciência de que não ela não é controlável e de que é o imprevisível, o não controle, o que mais te causa prazer. A tem em mãos no momento em que não a tem. Sim, sei que parece filosofia barata. Redefinirei.

Saber alguns dos meandros da vida, ou ao menos da tua vida, é a consciência necessária para te livrar das angústias da vulnerabilidade que sentes, pois tal consciência te mostra o quanto gostas desta gelatina pululante, desta incerteza diária, desta vulnerabilidade que tanto te angustia. Não pela angústia, mas pelo prazer da incerteza que te causa. Será que pela angústia também?

E a vida voa. E a vida voa. E se esparrama.

quarta-feira, março 8

Sou

Queria ouvir numa música algo parecido com que sinto. Mesmo que a música diga que não sabe dizer o que sente. Quero saber o que sinto ou compartilhar a ignorância dos sentimentos com alguém.

Algo como “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê”. Ah, essa música é bacana, pois diz o que sente sem saber o que sente, já que não sabe o porquê.

Quero dizer o que sinto, sem saber exatamente. Por que precisaria saber exatamente? Mania de exatas. O mundo é viciado nas ciências exatas. Na lógica formal.

Quero sentir o contraditório. Matar a razão do filho da professora de matemática com dois sentimentos opostos. Quero amar o odiável e me permitir odiar o amável.

Tudo parece engraçado e ridículo quando exposto aos nossos julgamentos. Fodam-se. Fudamo-nos. Deixemos de ser ridículos e sintamos. As pessoas, as músicas, o vento. Mesmo que repetidas.

Mesmo que nossas. Mesmo que nossas. Mais uma vez, mesmo que nossas. Respeitemos os sentimentos. Mesmo que nossos. As músicas, mesmo que nossas. As pessoas, mesmo que nossas. Ops, ato falho, não possuo ninguém, por mais que queira.

Não me possuo. Não te possuo. Embora possuído seja.

“E lá se vai mais um dia”. Sinto-me possuído pelas melodias melodiosas. Aquelas que batem e ficam. Aquelas que ficam e batem. Batem e fazem bater ainda mais. Tenho um coração que bate, que sente. Tenho um coração. Não quero, necessariamente, com isso, ter mais. Mas é magnífica a sensação de ser. De ser humano. De ter um coração. De ter um coração que bate.

Ando descobrindo que sou. Por vezes “egocentro” as coisas, mas não necessariamente. Sei, nas profundezas da minha consciência que não há de ser só aqui que bate um coração. Felizmente, pois haveria de ser tedioso esse triunfo egocêntrico. Haveria de ser solitário. Não haveria de ser, aliás.

Ando descobrindo que sou. Que serei. E seres também.

terça-feira, fevereiro 28

Média

Caretice mesmo é o desregramento pelo simples medo da caretice. Desregramento que não respeita os limites suportáveis.

Pensamento um tanto medíocre, eu sei, mas prefiro ficar com as sensações que consigo bancar.

Nova sensação de mediocridade. Como se nunca fosse além.

quarta-feira, fevereiro 22

Presságio

Desde então

Presságio

Tão apressado

Que esperou

alisE

Olhos amedrontadores
Ou seriam assustadores?

Nada disso, são doces.
Só tem medo ou susto
Quem não os vê
Com a devida atenção
E não percebe que a força é frágil
Ou está na fragilidade
Dos olhos fortes.

E assim dizia os bobos idos de dezembro de 2005:

E volta a cara de bobo
Que de boba nada tem
Estimulada pela insistência
De viver algo além

Além do que se vê
Com os olhos fracos
E desatentos.

quinta-feira, fevereiro 9

O resto

Meio que estou,
Meio que sou,
Meio que vou,
Meio que cedo,
Meio que tarde,
Meio que noite,
Meio que bobo,
Meio que sério,
Meio que eu,
Meio que procuro,
Não tão despretensiosamente assim,
O resto.

Haverá?

Sim, sim,
Não sei quando,
Mas sei que,
Não sei quanto,
Mas sei se.

Futuro

Mais um daqueles,
Eu mando tudo pro alto
E faço de ti
O meu amor.

quarta-feira, janeiro 25

L(e)amb(r)ança

Sim, eu sei, menina,
Não é só isso,
Tem um tanto daquilo outro,
Mas é isso também
E isso é o que resta a ser feito.

As nossas melhores lembranças
E lambanças
Aparecem vez em quando
Pra desvirtuar as outras tantas em construção.

Não devem ser motivo de culpa,
Muito menos de desvirtuamento ou descontrução,
Pois como sabemos bem,
Toda essa vida nova se baseia e se constrói
A partir das lambanças passadas

Mas não me pergunte o que são as lambanças presentes
Nem o que fazer com elas.

sexta-feira, janeiro 6

Ai, a primeira fresta

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava

Carlos amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha

(Flor da Idade - Chico Buarque)

sábado, dezembro 31

Torres Ribeiro

Ana Clara,
Clara Ana,
Claríssima,
Aníssima,
Claro que é Ana,
Ana que é Clara,
Que clareia,
Que elucida,
Que apaixona.

Clarana,
Serás Ana e Clara
E do mais,
Apenas será
Como a vida a moldar -
Sem idealizações.

Porém, se fores clara
Como a Ana Clara,
Moldarás a vida
E as pessoas que por ti passarem,
Com a claridade de tua alma,
Idealizada por mim, é claro,
Que por mais que tente,
Sou humano.

quinta-feira, dezembro 29

Aprendizado

Procuro na gritaria noturna, mascarada pelo silêncio que chamam de calada, uma pequenina explicação pras doenças da alma e do ego a que todos estamos vulneráveis, mas que poucos querem(os) admitir. Não admissão que agrava o estado clínico, pois a falta de diagnóstico agrava a doença pelo fato de lidarmos com os nossos defeitos da mesma forma doentia e defeituosa que os causaram. Não saímos do ciclo vicioso, não aprendemos nada com o que se passa.

Por vezes, me sinto surdo. Parece que não ouço ninguém, a não ser a mim mesmo. Outras, parece que ouço demais. Pertenço ao mundo que critico, ao mesmo tempo em que pertenço ao mundo que amo. Colaboro com o mundo que critico, mas também sei que luto pelo mundo que amo. Não aprendi a lidar com a minha ambigüidade.

Quero gente, amar gente, largar esse amor platônico e doentio que só sabe idealizar personagens de contos de fadas. Tenho a convicção de que me aceitarei muito mais como gente, ambíguo que sou, quando minhas paixões, amores e até desamores, forem gente ao invés de mocinhos e vilões.

Sim, sentirei falta do amor rasgado, inexplicável, apesar de tentar empalavrá-lo o tempo todo, sem fechar a minha matraca, racional que sou. Foi-me útil por mostrar que o sentimento é meu, direcionável para pessoas diversas, porém específicas.

Mas preciso me desvencilhar do que me foi útil. Quero encontrar pessoas para me aceitar como tal e, quem sabe, parar de escrever bobagem.

quinta-feira, dezembro 22

Mudo

Me impressiono neste momento da vida, linha tênue que divide o menino em dois, com dois tipos de coisas: as que estão mudando e as que não estão mudando.

As que não estão mudando talvez seja o eu, que procuro há tanto tempo, nesse emaranhado da vida, que nos confude com o que gostaríamos de ser.

E ser é o que gostaria(mos) de ser.

Eu amo tudo o que foi

Tudo que já não é,
A dor que já não me dói,
A antiga e errônea fé
O ontem que dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi e voou
E hoje é já outro dia.

(Fernando Pessoa)

terça-feira, dezembro 20

Azedou

Eu sei, foi um doce te amar
O amargo foi querer-te pra mim

(Rodrigo Amarante adaptado)

quinta-feira, novembro 10

Why (Uai)?

Mas pra quê,
tanto não-sei-o-quê,
se no meu colo,
mocinha,
você vira um bebê?

quarta-feira, novembro 9

Fato amarelo real

E lá na vilazinha da Rua Ipiranga, a moça vira para a menininha com não mais de 4 anos e diz:

-A minha casa é a mais bonita da vila!

A menininha, sem pestanejar e sendo política e poética ao mesmo tempo, respondeu:

-Não importa, a minha é a mais amarela!

A Origem do Mundo

"A guerra civil da espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão. Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. COntou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso não entendia.
-Mas papai - disse Josep, chorando - se Deus não existe, quem fez o mundo?
-Bobo - disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando -. Bobo. Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.

(Eduardo Galeano - O livro dos abraços)

Foi

O passado é tão incerto quanto o futuro!

Livro dos Abraços

Hoje eu fui abraçado por um livro, pela segunda vez na vida. Verinha, que certamente não lerá isso aqui, foi um dos presentes mais belos que já ganhei. Precisava de um tiquinho de beleza hoje e ganhei um ticão. Descobri que tem que ler no máximo 3 páginas por dia e deixar derreter na boca.

Recordar: Do latim re-cordis,
tornar a passar pelo coração.

segunda-feira, novembro 7

A imbecilidade humana não tem limites

Enquanto comemorava algo estúpido, li isso:

06/11/05 20:22-Torcedor do Bota morre em confronto com Flamenguistas- jovem de 20 anos é atingido por golpes de foice na serra que liga Volta Redonda ao Rio

Preferia que o flamengo nunca tivesse existido a ler isto.

quinta-feira, novembro 3

Sim, são infelizes

O prazer da generosidade
É pra poucos.
Não me sinto mais bonzinho que ninguém,
Apenas mais inteligente

Desfruto do prazer do bem.

sexta-feira, outubro 28

...

Em tempos de eu, o projeto mais revolucionário do qual tenho ouvido falar é a tentativa de diálogo.

Mentirinha branca

A dor da vida (,)
Querida,
Tem cheiro de alecrim,
Que eu não conheço,
Mas sei que é assim,
Só porque diz na música
Da Adriana Partimpim.

sexta-feira, outubro 21

Educa a dor

Que ela passa
Ou apenas obedece?

quarta-feira, outubro 19

Gotículas

Você parece um anjo caído,
Que embora em terra,
Permanece no céu
Com uma maturidade infantil,
Observando meus espasmos de alegria
- Que o prático desdenharia –
Com a doçura de seu olhar juvenil
E a sapiência da sua mente adulta,
Que luta.

Mesmo sabendo que não passam de espasmos,
Me devota sorrisos dignos de outros espasmos
E me diz do fundo da sua sabedoria de criança
Que são os espasmos que nos dão a esperança
De um dia ver a Cecília e sua lambança
Ter espasmos mais freqüentes,
Que de tão recorrentes,
Deixariam de ser assim denominados.

quarta-feira, outubro 12

Suspiro

O romântico é um suicída
Tão cida
Que de tanto apontar a arma
Tomou um tiro
Sem apertar um gatilho

Tão ida
Que foi
Sem ir

Tão vida
Que morreu
De excesso

Tão cesso
Que viveu paralisado
Pelos egos super

Não cesse,
Vá,
Limite-se até o limitável
E suma quando preciso.

sexta-feira, outubro 7

Mas eu quero somar

Eu ainda não a conheço -
Sonho não vale.
E sei que mereço
Por motivos diversos.

O resto do que presto
Ainda posso raspar com uma colher
E entregar a ela.

Que coisa louca e complexa,
Viver parece um camaleão metamorfosiático
O que eu fui, sou e/ou serei,
Se confundem com o que sobrou.

É apenas uma conta de subtração.

Um tango pra vocês

Eu sei que determinada rua que eu já passei,
Não tornará a ouvir o som dos meus passos
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela ultima vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida?
Existem tantas... um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada.
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...

Oh morte, tu que es tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...

(Raul Seixas e Paulo Coelho)

terça-feira, outubro 4

Tem que ir

Com a cara amassada mesmo,
Remela no rosto,
Bunda de fora e
Descabelado,
Porque se não for, não vai.

Tem que ir.

sexta-feira, setembro 30

Apesar de tudo...

... há o Arpoador,
Lennon e McCartney existiram,
Chico compôs com o Vinícius.

... as quintas feiras estão aí,
assim como as mesas de bar com o Césinha
e o novo, que traz tudo,
apesar de tudo

... somos o que somos,
apesar do que fomos,
já que na verdade sempre somos
um pouco do que fomos.

apesar de tudo,
que não é pouca coisa,
estamos aí...

... sou, quero, amo
....apesar de tudo

sexta-feira, setembro 23

Relatos ancestrais do ano de 2005

O elenco de Kids anda invadindo os lugares que freqüento. A “modernice” anda mais moderna que a modernidade. Dentro dessa modernice, os homens continuam livres, leves e soltos para fazer o que lhes convém. As mulheres continuam sofrendo com os seus desejos e pagando caro com o peso da culpa quando cedem. Alguns preconceitos ancestrais andam sendo vencidos, outros estão virando modernices. Correndo o risco de parecer reacionário, afirmo que o rock está cada vez mais reacionário. Acontece que a revolução aconteceu nos anos 60 e 70 e nada perto disso foi produzido nos anos subseqüentes. Há espasmos interessantes, mas o Jimmy Page continua sendo capa de jornal.

A gente se olha, se toca e se cala, mas continua se desentendendo no instante em que fala (Belchior, 1978). Meus velhos amigos continuam novos. As meninas continuam interessantes, apesar da culpa e da modernice exacerbada, chegando ao extremo nas danças em frente à caixa de som. O visual não é acompanhado de atitude. As atitudes ainda vestem calça boca de sino.

Minha mãe continua fazendo aniversário. Eu continuo o mesmo. Não, não, não. Eu ando mudado. Mudado e mudando. Particípio e gerúndio. Ando pensando em sair de casa para uma outra casa, na qual as dificuldades venham a me facilitar as coisas.

Ando pensando em paz. Ando pensando em rede. O mundo continua rápido. As frases continuam curtas, como os cabelos. E as palavras continuam parcas. Ou será que é o impronunciável que continua extenso?

Continuo. E descontinuo. A vida, a história e a música são feitas de ruptura e continuidade. Sou uma ruptura contínua. Envelheço para o novo.

Continuo amando.

quarta-feira, setembro 21

Boçal do bem

Eu te amo tanto, que não te digo
O quanto te amo tanto.
Porque tanto é tão grande
Quanto o medo de te perder.

Hoje eu não queria ser boçal
Como estou sendo agora,
Mas tampouco queria ser falso.

Não queria querer tanto
Nem queria temer o quanto
Porque nunca se sabe o quanto é seu
E o quanto é meu.

E essa mania idiota de querer saber
Só completa a boçalidade
Que é ainda agravada pela vontade
Necessidade,
Sei lá o que,
De não ser boçal!

Seu boçal!

terça-feira, setembro 20

Água Viva

Sábado de sexta mal dormida. Uma rede úmida. Um ela chamado Clarice. Busco o instante matematicamente com o delta t tendendo a zero. Busco o instante da vida, quando o cantar do passarinho é. Não é uma pausa. Ele é e continua sendo. A vida é feita de instantes. Feita de “É”s. A vida vale a pena quando feita de “É”s bonitos. Essas frases bobas são bobas, mas são partes dos meus “É”s de sábado de sexta mal dormida e me recuso a apagá-las.

“Estava com saudades das novidades do sonho”. No sonho se é e mais nada. E justamente por ser, e apenas ser, me liberto de amarras e me embasbaco muitas vezes ao me deparar com gênios dentro do meu sonho. Gênio por ser, apenas por ser e justamente por ser. É gênio quem é e só se preocupa em ser. Não em ser gênio. Ser apenas. A preocupação de ser gênio não é uma preocupação de ser, e sim de ser gênio.

Ser. Ser (ponto).

“Lembrar-se com saudade é como se despedir de novo”. Prolongamos despedidas quando queremos que nossos “É”s continuem sendo. Queria me despedir das despedidas. Ao invés do sou, vivo no fui. Fui. Quero ir. Quero dizer fui pra ser. Ser. Ser(ponto). Ser um ser. Pra ser um ser, preciso ser. E apenas ser (ponto).

“Violeta diz levezas que não se podem dizer”. É na sutileza que se arrebenta. Prefiro um tapa na cara. A sutileza é uma falsa indiferença. Cruel.

“X – o instante impronunciável”. É impronunciável.

“E eu estava só, sem precisar de ninguém. É difícil porque preciso repartir contigo o que sinto”. Falsa ilusão, humanóides!

A busca para entregar-me aos instantes me faz perder diversos instantes. “Realizo o realizável e o irrealizável eu vivo”. Presença leve. Levíssima. Quero gozá-la.

Vivo. Viva. “Traga-me um copo d´água”. Pode me matar.

(Em aspas, trechos de água viva - Clarice Lispector)

quinta-feira, setembro 15

Caçador de borboletas

Essa coisa de querer captar
O sentimento-mais no instante-tal,
Faz parte de um desespero momentâneo,
De uma ânsia suspirática.

Vem cá, borboleta,
Senta aqui do meu ladinho,
Não é todo dia que vejo um inseto metamorfosiático
Violeta com bolinhas amarelas.

Eu pareço piada de cursinho de inglês!

sábado, setembro 10

Nas lúcidas entrelinhas

Sou um bêbado lúcido
E ofereço o que não tenho
Só pra ter o que não ofereço.
Essa história de dar pra receber
É conto da carochinha.
Eu dou pra dar
E recebo pra receber.
Dou por dar
E recebo por receber.
E por perceber,
Que dou o dável,
Quero receber o recebível

sexta-feira, setembro 9

*-mais

Acordou ensopado. Suor também, mas, sobretudo, uma sopa de sentimentos, palavras, letras, fluidos e pessoas. Sim, uma sopa de pessoas, como se não soubesse distinguir o aipo da cebola. As pessoas estavam misturadas como aipo e cebola e é estranho como não conseguia diferenciar coisas tão distintas. E isso porque ninguém faz idéia da distância entre as pessoas ensopadas - muito maior do que entre o aipo e a cebola. Nessa mistura de sentimentos ficava difícil distinguir o dele. Há algum sentimento em mim que não seja meu? Ficou com essa pergunta na cabeça e, apesar de não tê-la respondido completamente, chegou à conclusão de que alguns sentimentos são mais nossos do que outros e o que ele chamou de sentimento dos outros na verdade não era sentimento, e sim, macaquice. Queria se livrar das macaquices e encontrar os sentimentos-mais pra poder focá-los. Nunca gostou muito da idéia de foco, mas nos últimos tempos acordava ensopado todas as noites e vinha achando que era culpa da falta de foco, apesar de saber que isso era uma grande macaquice. Acordar ensopado todas as noites deixa as pessoas piradas, misturando os conceitos, perdendo a coerência, buscando se livrar das macaquices por meio de macaquices. Valia tudo pra encontrar o sentimento-mais. Há apenas um? Não, não, mas no exato momento em que me relatava a história buscava o sentimento-supra-mais, um pelo qual pudesse canalizar todos os fluidos da manhã ensopada. Meu caro amigo, não há sentimento digno de todos os nossos fluidos, disse-lhe, mas o pobre rapaz febril não conseguia entender que o que rasgava o seu ensopado coração iria furar feito uma flecha o coração de qualquer pessoa para a qual direcionasse tal sentimento com a intensidade que lhe vinha. Se encharcar qualquer pessoa ou sentimento – não sabia ao certo a distinção, assim como do aipo e da cebola – corria o risco de matar tal pessoa ou sentimento afogado. Contrargumentou que afogar o sentimento seria uma boa, mas lembrei dos momentos em que reclamava da falta de sentimento e nesse momento percebi a relevância da indistinção – mesmo sem saber se essa palavra existe – entre o sentimento e a pessoa. Afogar o sentimento é afogar a si mesmo. Ser humano é de querer, dizia um poeta baiano, e de sentir, dizia a ele. Afogar o sentimento é um suicídio lento. Encontrar os sentimentos-mais, meu caro amigo, vai implicar em muitas macaquices, em muitas noites encharcadas, em muitos fluidos desperdiçados. Ele odiava a idéia de desperdício dos fluidos, mas lembrei ao meu impetuoso amigo que se não os desperdiçasse com os sentimentos-menos iria afogar os sentimentos-mais, consequentemente a pessoa-mais e, como já disse, isso é um suicídio lento.

E só isso

Ao exercício de estar realmente só, deve preceder um real querer de estar só. E se tudo que busca é a piedade, esteja certo de que a encontrará. E eu terei pena de você.

terça-feira, setembro 6

Meio inteiro não vale

Se já sei os meios pra não ser meio,
Porque não sou inteiro?

segunda-feira, setembro 5

Minto que nem sinto

O meu tempo é hoje
Eu não vivo no passado
O passado vive em mim

(Paulinho da Viola – trecho do documentário “O meu tempo é hoje”)

domingo, setembro 4

Perdidos e Achados

Por tudo que não tivemos,
Por tudo que não vivemos,
Por tudo que juntos não aprendemos
E também pelos beijos tantos que não demos.

Por todos os filhos que juntos não criamos,
Por todas as músicas que sozinhos escutamos,
Pelas estrofes que em parceria não escrevemos
E por todas as viagens que ficaram no vamos.

Pela casa que não construímos,
Pelas noites em claro que passamos
E pelas loucuras muitas que não passaram de devaneios,

Eu choro.

Mas transformo as minhas lágrimas em lágrimas,
Porque há lágrimas e lágrimas
E é importante diferenciá-las.

Pois quero que as lágrimas transformadas
Me dêem força
Para encontrar todos esses dias
Em alguma esquina da vida.

sexta-feira, setembro 2

E o bigodão sul-africano canta assim:

I was born to love you
With every single beat of my heart
Yes, I was born to take care of you
Every single day of my life

(I was born to love you - Freddie Mercury)

quinta-feira, setembro 1

Desepero em moda

E eu quero que esse canto torto
Feito faca
Corte a carne
de vocês.

(A Palo Seco - Belchior)

O pra sempre nunca acaba

Em dia com a fome...
Não é assim que tem que ser?
Não? Como é então?
Me ensina aí, pô.
Eu só sei assim e de vez em quando a fome dói,
Uma dor que dói,
Diferente dessas que são apenas subterfúgios,
Essa não é fuga não, dondoca.
Muito pelo contrário,
Essa peca pela demasia.

“I´ve got a felling, a felling deep inside,
A felling that I can´t hide”

E que seja apenas Por Enquanto,
Dizem que na volta pra casa
A fome passa
E não há mais necessidade de esconder nada.
Nem o nada.

Quero poder ser nada de vez em quando,
Estúpido,
Burrinho,
Assumir os meus mais íntimos defeitos,
Minhas maiores limitações
E não precisar mais das máscaras
Porque já to com medo de que uma delas grude.

Quero voltar pra casa.

domingo, agosto 28

Aquilá

Estive lá,
ou seria aqui?
Se conta quando escrevo,
é aqui;
Se conta quando digito,
é lá;
Se conta quando eu sinto,
é confuso.
Muitas vezes estou lá,
achando que é aqui,
mas eu sei que é lá
pela falta do concreto.
É aqui no sentimento e talvez na imagem,
mas o físico permanece lá.
E eu quero viver aqui,
por menos bonito que seja,
porque é aqui que se faz o lá.

sábado, agosto 27

Pára Nuca

O para sempre e o nunca mais,
por mais instantâneos que sejam,
ou tenham sido,
são de fundamental importância na minha vida.

Para sempre lembrarei deles
e juro
nunca mais
colocá-los em questão.

quarta-feira, agosto 24

11 de Setembro

Ninguém escapa ao peso de viver assim;
Ser assim.

Eu não,
prefiro assim com você,
juntinho,
Sem caber de imaginar
Até o fim raiar.

(Morena - Marcelo Camelo)

terça-feira, agosto 23

Lambuzados

Ah, mas é claro que eu entendo o sorriso de cabide dos tucanos e dos que, apesar de não irem ao Maraca, pertencem ao time do "Eu já sabia" que ia acontecer todo esse lamaçal em Brasília:

Porco adora lama!

E quem pede

Relaxa, criança, só se acha quem se perde.

sábado, agosto 20

Hay que endurecer

Vem que tem,
Neném.
Com vírgula,
Por favor,
Porque não tem neném,
Mas tem, neném.
Então vem,
Mas vem sem calma,
Porque eu tô que tô,
Querendo uma vinda afoita,
Com direito a roupa rasgada.
Sai da moita
E vem correndo,
Porque já passou das sete
E eu não quero me prender na hora,
Mas quero te prender na hora.
Primeiro o pulso esquerdo,
Depois o direito.
Fique quietinha
E deixa que eu faço o trabalho inicial,
Mas não se acanhe!
Solte as amarras e me ganhe
Com esse olhar de ladinho,
Pedindo com carinho
Pra que eu perca o carinho,
Pero sin perder la ternura.

Seize the day - aceitamos contribuições

“Tornem suas vidas extraordinárias”

“Essa brincadeira de poder continua e você pode contribuir com um verso. Qual será o verso de vocês?”


(Sociedade dos Poetas Mortos)

sexta-feira, agosto 19

Um sonho de verão em pleno inverno

Um sol frio,
Praias desertas, apesar de lotadas,
Coqueiros repletos,
Porém altos demais.
Biquínis europeus,
Mulheres estadunidenses dançando a Macarena,
Com seus corpos esquisitos.

Desejo de verão em pleno inverno
Se transformou num inferno.
Um inferno interno.

quarta-feira, agosto 17

Habemus Apelido

Se você continuar com essa cara de cú, vou dar um Dom Casmurro em você.

Esse post é dedicado a MariaClaudiadeAlbuquerqueFarias, apesar de não ter nada a ver com ela. É só pra batizar. Tchothcofla aí pro batismo.

Guerra Declarada

Ó, MariaCristinaPereiraMartins - senhora das referências - eu não vou fazer referência hoje não, porque se essa música não existisse eu a teria feito hoje. Portanto, nada de Frejat e Cazuza, os versos são meus, só meus. E dedico esse plágio aos filhos da puta que roubam nossos versos.

Senhoritas das noites perfeitas,

Hoje, eu queria ter uma bomba ou um flit paralisante qualquer pra poder me livrar bem no último instante das suas frases feitas, das suas noites perfeitas, perfeeeeeeeeitas!

LÁ, SI, LÁ MI, RE, MI...

-Se Sobrá, me dá um pouquinho aí...
-Seu boçal, essa água que desce aí ardendo pela sua garganta não é desinfetante, não vai limpar porra nenhuma aí dentro!
-Gostaria de saber, meritíssimo, porque você usa esse bigode ridículo e se você já sabe que sua queridíssima esposa anda trepando com todo o Júri.

Michelle Ma Belle

“These are words that go together well”

Palavras que juntas caminham bem

(Beatle Paul – tradução: Flávio Chedid)

terça-feira, agosto 16

Ser o que ele é e quiser

A brincadeira com o lema dos milicos cantada por Gil, Caetano, Gal e Bethânia é um dos auges dos Doces Bárbaros junto com o hilariante e trágico julgamento do Gil. É uma coisa linda que faz doer os ossos lá no Arpoador num final de tarde de uma segunda feira com sol se ponto no lugar errado, ops, diferente. Falo da música, é claro.

O seu amor
Ame-o e deixe-o
Livre para amar
Livre para amar
Livre para amar
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ser o que ele é
Ser o que ele é
Ser o que ele é

(O seu amor- Gilberto Gil - sob efeito da erva maldita)

Não há dor no Arpoador

Hoje tive a impressão de que o sol se pôs no lugar errado. E foi só impressão, ele se pôs num lugar diferente. Num lugar novo. Errado e novo são extremamente distantes, apesar de certas vezes confundi-los. E o novo nem sempre é novo. Há velhos que são sempre novos, ó o arpoador aí. E há novos muito velhos, ó os moderninhos de plantão aí.

Hoje senti um perfume velho vagando na rua. Depois pensei que se fosse tão velho assim como o sentiria a troco de nada? O perfume mesmo velho era novo. Não passou? Passou, mas o perfume ficou. Há sempre um tanto de novo no velho e um tanto de velho no novo.

O Arpoador
.....................Assusta,
Por mais que não haja dor ali.
O Arpoador,
......................É sempre novo
Por mais velho.
...........................O sol nunca se põe no mesmo lugar.
Ou seria impressão minha?

domingo, agosto 14

Com "u" mesmo

Neste país,
Enquanto fudido continuar fudendo fudido a serviço de um fudedor-mor,
Que, aliás, é o único que goza nessa fudelança toda,
Não haverá panelaço que solucione.

Enquanto em todos pequeninos detalhes,
Tirar vantagem for sinal de inteligência,
E apenas o seu vizinho, compadre ou alguém com afinidade próxima
For digno de respeito,
Não haverá indignação digna de mudanças.

Enquanto a indignação continuar sendo dirigida a "eles",
E nunca ao "eu",
E continuarmos vivendo num país de "eles",
Fudeu,
Porque “eles” vão continuar fudendo tudo e botando a culpa em “eles”.

quinta-feira, agosto 11

Bang Bang

Mocinha,
é preciso parar de procurar o vilão.

Dengo d(qu)e re(n)de

Vem cá, mulé,
Me faz um cafuné,
Que hoje eu quero um dengo molengo,
Daqueles de rede,
Morrer de sede
Pra não perder a posição,
Entrelaçar as pernas
E deixar que elas formiguem,
Me encolher no teu colo
Pra que você me carregue.
Vou no teu embalo sem sair do lugar,
Morro no teu colo sem reclamar,
Digo nomes sem sentido
Pra ver tua reação.

Adoro quando faz essa cara
De quem não entendeu,
Adoro quando encontra um cravo
E me pede pra espremer,
Adoro fingir que não gosto,
Adoro sentir o teu gosto
E também o teu gosto.
Adoro dormir mal ao teu lado,
Todo torto e preocupado,
Só pra te ver acordar de mau humor,
Murmurando palavras em grego
E reclamando do cobertor,
Que eu puxei pra mim.

Vem cá, menina,
Me faz um cafuné
E vamos pensar em nomes
Pra quando o mundo melhorar.

segunda-feira, agosto 8

Tuiuiu

Descobri onde cresci.
Foi logo ali,
No morro do Tuiuti.
Mesmo em casa,
Vivia ali,
No morro do Tuiuti.

Ali
-No morro do Tuiuti-,
Joguei bola e me casei.
Cai do altar e até chorei.

Confesso que por muito esqueci
Do morro do Tuiuti,
Mas hoje lembrei de onde vim,
Das 7 mulheres da Dona Sebastiana,
Da minha infância regada a brigadeiro,
Dos simples gestos e pessoas que formam uma pessoa.

Modéstia à parte,
Eu vim dali -
Do morro do Tuiuti.

domingo, agosto 7

Amor de fôrma

Eu aqui, ouvindo Belchior,
Pensando em ré menor,
Sei que a vida urge
E não hei de deixar meu blusão de couro,
Que ainda não tenho,
Se estragar no armário.
Será na estrada,
Na maldita e desejada estrada
Que me faz inventar meu próprio ser.

“O amor somente é tão banal”
Tão tão tão, que vem sendo vendido na padaria.
Dizia a menina desesperada: “me vê dez amores franceses, por favor”.
Tão tão tão mais fácil,
Que quando acabava, bastava pedir mais dez.

Ah, maldita mania de falar da praticidade dos outros.
Maldita mania de pensar na complexidade do eu.
Maldito egocentrismo que teima em banalizar o que há de diferente.
Narcisismo idiota!

sexta-feira, agosto 5

Sem dinheiro no banco

Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Amar e mudar as coisas me interessam mais

(Apenas um rapaz latino americano – Belchior)

Dúvida ortográfica

Depois de dois trilhões e quatro milésimos de segundos (já pensaram na estranheza desse número?), viu a foto. Não sabia se ainda se tratava de um quadro ou se já tornara um ex-quadro. Esquadro, prestando atenção em cores sem saber o nome. Em fotos sem saber o título. Em quadros sem saber com que sensatez mereceriam ser vistos. Sem saber se é preciso sensatez. Sabendo o quão idiota é fingir não saber. Sabendo que a estrutura textual disposta não agradaria e que sua ânsia por ibope, mesmo revestida por uma discrição mentirosa, falsa e estúpida, exigiria uma coisa mais ousada, por mais que falasse a mesma mesmice. Sempre quis escrever "mesma mesmice". É com "c" mesmo?

quinta-feira, agosto 4

Astrid

Chegou em casa com uma atormentada sensação de falta de sensação. Tinha vontade de pular na cama assim que a visse. Desesperou-se ao perceber que havia vários objetos em cima dela que não poderiam ser arremessados no chão de qualquer maneira. Nem que fosse para fazer uma cena bacana antes da transa com a atriz de “5 rapazes em Liverpool”. Nem por ela poderia arremessar seu estimado violão no chão, muito menos sua guitarra de raios azuis discretos. O que será que faziam o violão e a guitarra em cima da cama? Não lembrava de tê-los colocado lá. Será que tiveram uma transa bacana? Será que arremessaram no chão alguns objetos que ali estavam antes deles?

Pensou: “Não seja bobo, isso não é necessário e violões não transam com guitarras. Ou transam?”. Se a guitarra tiver aqueles olhos pode ser que transem, mas esses raios azuis são muito discretos. Pensou que talvez o violão pode ter se apaixonado justamente pela discrição. E também pensou que eles não precisavam estar apaixonados para darem uma trepadinha. Um sexo casual entre um violão e uma guitarra é algo esquisito, porém compreensível.

Retirou-os com um certo cuidado da cama, mas não o merecido. Era tarde, era frio, faltava sensação e queria enfiar a cabeça no travesseiro. Queria esquecer de esquecer. Queria não precisar esquecer nem fazer jogos de palavras pra esconder o real sentido das coisas, que nem ele sabia qual era.

Dormiu pensando que só perde um amor quem ama, ou pelo menos quem amou. Sonhou com raios azuis discretos. Acordou com alguma sensação.

quarta-feira, agosto 3

Sonho não se dá

Tenho que admitir: esse foi do Amarante! Não sei maaaaais!

Quis nunca te perder
Tanto que demais
Via em tudo o céu
Fiz de tudo o cais
Dei-te pra ancorar
Doces deletérios
E
Quis ter os pés no chão
Tanto eu abri mão
Que hoje eu entendi
Sonho não se dá
É botão de flor
O sabor de fel é de cortar

Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
Muito bem

Quis nunca te ganhar
Tanto que forjei asas nos teus pés
Ondas pra levar
Deixo desvendar
Todos os mistérios

Sei, tanto te soltei
Que você me quis em todo lugar
Lia em cada olhar quanta intenção
Eu vivia preso

Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
O que eu queria, o que eu fazia, o que mais
Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?
Não sei maaaaaais!
Os dias que eu me vejo só são dias que eu me encontro mais

E mesmo assim eu sei tão bem: existe alguém pra me libertar!

(Condicional - Rodrigo Amarante)

terça-feira, agosto 2

Pessoa Maior

PARA SER GRANDE, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

(Fernando Pessoa)
(Grifo dele)

segunda-feira, agosto 1

Há algo além

Coisa linda, Paulinho. Sua emoção ao tentar ler o poema da menina hoje salvou meu dia. Ver coisas bonitas, sensações bonitas, pessoas bonitas faz muito bem. Foi sincero e é tão bom ver coisas sinceras. Há algo além.

As gotas de melancolia, a rede que côa as memórias boas, o cheiro de mato...

Desejos bucólicos são desejos de grávida. Aparecem no meio da madrugada, no meio do trabalho, no meio da vida, no meio do fim. Também preciso sair dessa ilha! Preciso ir além, além do que vejo, além do que sinto. Preciso aprender a nadar antes que as gotas alaguem a ilha. E deixar de ser piegas também.


Chove uma chuva fina e triste
Na minha alma
caem gotas de melancolia
Ao me lembrar da alegria
Dos bons tempos idos.
Tudo me adivinha
Nesta hora de garoa.
Lanço minha rede e ela côa
O que chega de mim de memória boa.
Este estado melancólico
É, no fundo, desejo bucólico
De cheiro de mato,
De sítio com galinha, cachorro e pato,
Do perfume de terra molhada.
Vontade de partir dessa cidade ilhada
De erros cometidos pela ganância escrachada -
A fome do desvalido,
O choro bandido,
A cidade dividida
Em banquete e latrina -.
Tudo fere - a menina
Pobre sem escola,
Mais à frente o menino que cheira cola,
O mendigo no passeio pedindo esmola -.
No ermo dos questionamentos meus,
Não consigo encontrar Deus,
Mas, ainda assim, dentro da órbita,
Peço paz ante a constatação mórbida:
Cheiro de mato,
Sítio com galinha, cachorro e pato,
O perfume de terra molhada
E meu amor comigo na estrada

(Paulo Sabino)