domingo, setembro 4

Perdidos e Achados

Por tudo que não tivemos,
Por tudo que não vivemos,
Por tudo que juntos não aprendemos
E também pelos beijos tantos que não demos.

Por todos os filhos que juntos não criamos,
Por todas as músicas que sozinhos escutamos,
Pelas estrofes que em parceria não escrevemos
E por todas as viagens que ficaram no vamos.

Pela casa que não construímos,
Pelas noites em claro que passamos
E pelas loucuras muitas que não passaram de devaneios,

Eu choro.

Mas transformo as minhas lágrimas em lágrimas,
Porque há lágrimas e lágrimas
E é importante diferenciá-las.

Pois quero que as lágrimas transformadas
Me dêem força
Para encontrar todos esses dias
Em alguma esquina da vida.

sexta-feira, setembro 2

E o bigodão sul-africano canta assim:

I was born to love you
With every single beat of my heart
Yes, I was born to take care of you
Every single day of my life

(I was born to love you - Freddie Mercury)

quinta-feira, setembro 1

Desepero em moda

E eu quero que esse canto torto
Feito faca
Corte a carne
de vocês.

(A Palo Seco - Belchior)

O pra sempre nunca acaba

Em dia com a fome...
Não é assim que tem que ser?
Não? Como é então?
Me ensina aí, pô.
Eu só sei assim e de vez em quando a fome dói,
Uma dor que dói,
Diferente dessas que são apenas subterfúgios,
Essa não é fuga não, dondoca.
Muito pelo contrário,
Essa peca pela demasia.

“I´ve got a felling, a felling deep inside,
A felling that I can´t hide”

E que seja apenas Por Enquanto,
Dizem que na volta pra casa
A fome passa
E não há mais necessidade de esconder nada.
Nem o nada.

Quero poder ser nada de vez em quando,
Estúpido,
Burrinho,
Assumir os meus mais íntimos defeitos,
Minhas maiores limitações
E não precisar mais das máscaras
Porque já to com medo de que uma delas grude.

Quero voltar pra casa.

domingo, agosto 28

Aquilá

Estive lá,
ou seria aqui?
Se conta quando escrevo,
é aqui;
Se conta quando digito,
é lá;
Se conta quando eu sinto,
é confuso.
Muitas vezes estou lá,
achando que é aqui,
mas eu sei que é lá
pela falta do concreto.
É aqui no sentimento e talvez na imagem,
mas o físico permanece lá.
E eu quero viver aqui,
por menos bonito que seja,
porque é aqui que se faz o lá.

sábado, agosto 27

Pára Nuca

O para sempre e o nunca mais,
por mais instantâneos que sejam,
ou tenham sido,
são de fundamental importância na minha vida.

Para sempre lembrarei deles
e juro
nunca mais
colocá-los em questão.

quarta-feira, agosto 24

11 de Setembro

Ninguém escapa ao peso de viver assim;
Ser assim.

Eu não,
prefiro assim com você,
juntinho,
Sem caber de imaginar
Até o fim raiar.

(Morena - Marcelo Camelo)

terça-feira, agosto 23

Lambuzados

Ah, mas é claro que eu entendo o sorriso de cabide dos tucanos e dos que, apesar de não irem ao Maraca, pertencem ao time do "Eu já sabia" que ia acontecer todo esse lamaçal em Brasília:

Porco adora lama!

E quem pede

Relaxa, criança, só se acha quem se perde.

sábado, agosto 20

Hay que endurecer

Vem que tem,
Neném.
Com vírgula,
Por favor,
Porque não tem neném,
Mas tem, neném.
Então vem,
Mas vem sem calma,
Porque eu tô que tô,
Querendo uma vinda afoita,
Com direito a roupa rasgada.
Sai da moita
E vem correndo,
Porque já passou das sete
E eu não quero me prender na hora,
Mas quero te prender na hora.
Primeiro o pulso esquerdo,
Depois o direito.
Fique quietinha
E deixa que eu faço o trabalho inicial,
Mas não se acanhe!
Solte as amarras e me ganhe
Com esse olhar de ladinho,
Pedindo com carinho
Pra que eu perca o carinho,
Pero sin perder la ternura.

Seize the day - aceitamos contribuições

“Tornem suas vidas extraordinárias”

“Essa brincadeira de poder continua e você pode contribuir com um verso. Qual será o verso de vocês?”


(Sociedade dos Poetas Mortos)

sexta-feira, agosto 19

Um sonho de verão em pleno inverno

Um sol frio,
Praias desertas, apesar de lotadas,
Coqueiros repletos,
Porém altos demais.
Biquínis europeus,
Mulheres estadunidenses dançando a Macarena,
Com seus corpos esquisitos.

Desejo de verão em pleno inverno
Se transformou num inferno.
Um inferno interno.

quarta-feira, agosto 17

Habemus Apelido

Se você continuar com essa cara de cú, vou dar um Dom Casmurro em você.

Esse post é dedicado a MariaClaudiadeAlbuquerqueFarias, apesar de não ter nada a ver com ela. É só pra batizar. Tchothcofla aí pro batismo.

Guerra Declarada

Ó, MariaCristinaPereiraMartins - senhora das referências - eu não vou fazer referência hoje não, porque se essa música não existisse eu a teria feito hoje. Portanto, nada de Frejat e Cazuza, os versos são meus, só meus. E dedico esse plágio aos filhos da puta que roubam nossos versos.

Senhoritas das noites perfeitas,

Hoje, eu queria ter uma bomba ou um flit paralisante qualquer pra poder me livrar bem no último instante das suas frases feitas, das suas noites perfeitas, perfeeeeeeeeitas!

LÁ, SI, LÁ MI, RE, MI...

-Se Sobrá, me dá um pouquinho aí...
-Seu boçal, essa água que desce aí ardendo pela sua garganta não é desinfetante, não vai limpar porra nenhuma aí dentro!
-Gostaria de saber, meritíssimo, porque você usa esse bigode ridículo e se você já sabe que sua queridíssima esposa anda trepando com todo o Júri.

Michelle Ma Belle

“These are words that go together well”

Palavras que juntas caminham bem

(Beatle Paul – tradução: Flávio Chedid)

terça-feira, agosto 16

Ser o que ele é e quiser

A brincadeira com o lema dos milicos cantada por Gil, Caetano, Gal e Bethânia é um dos auges dos Doces Bárbaros junto com o hilariante e trágico julgamento do Gil. É uma coisa linda que faz doer os ossos lá no Arpoador num final de tarde de uma segunda feira com sol se ponto no lugar errado, ops, diferente. Falo da música, é claro.

O seu amor
Ame-o e deixe-o
Livre para amar
Livre para amar
Livre para amar
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
Ir aonde quiser
O seu amor
Ame-o e deixe-o brincar
Ame-o e deixe-o correr
Ame-o e deixe-o cansar
Ame-o e deixe-o dormir em paz
O seu amor
Ame-o e deixe-o
Ser o que ele é
Ser o que ele é
Ser o que ele é

(O seu amor- Gilberto Gil - sob efeito da erva maldita)

Não há dor no Arpoador

Hoje tive a impressão de que o sol se pôs no lugar errado. E foi só impressão, ele se pôs num lugar diferente. Num lugar novo. Errado e novo são extremamente distantes, apesar de certas vezes confundi-los. E o novo nem sempre é novo. Há velhos que são sempre novos, ó o arpoador aí. E há novos muito velhos, ó os moderninhos de plantão aí.

Hoje senti um perfume velho vagando na rua. Depois pensei que se fosse tão velho assim como o sentiria a troco de nada? O perfume mesmo velho era novo. Não passou? Passou, mas o perfume ficou. Há sempre um tanto de novo no velho e um tanto de velho no novo.

O Arpoador
.....................Assusta,
Por mais que não haja dor ali.
O Arpoador,
......................É sempre novo
Por mais velho.
...........................O sol nunca se põe no mesmo lugar.
Ou seria impressão minha?

domingo, agosto 14

Com "u" mesmo

Neste país,
Enquanto fudido continuar fudendo fudido a serviço de um fudedor-mor,
Que, aliás, é o único que goza nessa fudelança toda,
Não haverá panelaço que solucione.

Enquanto em todos pequeninos detalhes,
Tirar vantagem for sinal de inteligência,
E apenas o seu vizinho, compadre ou alguém com afinidade próxima
For digno de respeito,
Não haverá indignação digna de mudanças.

Enquanto a indignação continuar sendo dirigida a "eles",
E nunca ao "eu",
E continuarmos vivendo num país de "eles",
Fudeu,
Porque “eles” vão continuar fudendo tudo e botando a culpa em “eles”.

quinta-feira, agosto 11

Bang Bang

Mocinha,
é preciso parar de procurar o vilão.

Dengo d(qu)e re(n)de

Vem cá, mulé,
Me faz um cafuné,
Que hoje eu quero um dengo molengo,
Daqueles de rede,
Morrer de sede
Pra não perder a posição,
Entrelaçar as pernas
E deixar que elas formiguem,
Me encolher no teu colo
Pra que você me carregue.
Vou no teu embalo sem sair do lugar,
Morro no teu colo sem reclamar,
Digo nomes sem sentido
Pra ver tua reação.

Adoro quando faz essa cara
De quem não entendeu,
Adoro quando encontra um cravo
E me pede pra espremer,
Adoro fingir que não gosto,
Adoro sentir o teu gosto
E também o teu gosto.
Adoro dormir mal ao teu lado,
Todo torto e preocupado,
Só pra te ver acordar de mau humor,
Murmurando palavras em grego
E reclamando do cobertor,
Que eu puxei pra mim.

Vem cá, menina,
Me faz um cafuné
E vamos pensar em nomes
Pra quando o mundo melhorar.

segunda-feira, agosto 8

Tuiuiu

Descobri onde cresci.
Foi logo ali,
No morro do Tuiuti.
Mesmo em casa,
Vivia ali,
No morro do Tuiuti.

Ali
-No morro do Tuiuti-,
Joguei bola e me casei.
Cai do altar e até chorei.

Confesso que por muito esqueci
Do morro do Tuiuti,
Mas hoje lembrei de onde vim,
Das 7 mulheres da Dona Sebastiana,
Da minha infância regada a brigadeiro,
Dos simples gestos e pessoas que formam uma pessoa.

Modéstia à parte,
Eu vim dali -
Do morro do Tuiuti.

domingo, agosto 7

Amor de fôrma

Eu aqui, ouvindo Belchior,
Pensando em ré menor,
Sei que a vida urge
E não hei de deixar meu blusão de couro,
Que ainda não tenho,
Se estragar no armário.
Será na estrada,
Na maldita e desejada estrada
Que me faz inventar meu próprio ser.

“O amor somente é tão banal”
Tão tão tão, que vem sendo vendido na padaria.
Dizia a menina desesperada: “me vê dez amores franceses, por favor”.
Tão tão tão mais fácil,
Que quando acabava, bastava pedir mais dez.

Ah, maldita mania de falar da praticidade dos outros.
Maldita mania de pensar na complexidade do eu.
Maldito egocentrismo que teima em banalizar o que há de diferente.
Narcisismo idiota!

sexta-feira, agosto 5

Sem dinheiro no banco

Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Sons, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Amar e mudar as coisas me interessam mais

(Apenas um rapaz latino americano – Belchior)

Dúvida ortográfica

Depois de dois trilhões e quatro milésimos de segundos (já pensaram na estranheza desse número?), viu a foto. Não sabia se ainda se tratava de um quadro ou se já tornara um ex-quadro. Esquadro, prestando atenção em cores sem saber o nome. Em fotos sem saber o título. Em quadros sem saber com que sensatez mereceriam ser vistos. Sem saber se é preciso sensatez. Sabendo o quão idiota é fingir não saber. Sabendo que a estrutura textual disposta não agradaria e que sua ânsia por ibope, mesmo revestida por uma discrição mentirosa, falsa e estúpida, exigiria uma coisa mais ousada, por mais que falasse a mesma mesmice. Sempre quis escrever "mesma mesmice". É com "c" mesmo?

quinta-feira, agosto 4

Astrid

Chegou em casa com uma atormentada sensação de falta de sensação. Tinha vontade de pular na cama assim que a visse. Desesperou-se ao perceber que havia vários objetos em cima dela que não poderiam ser arremessados no chão de qualquer maneira. Nem que fosse para fazer uma cena bacana antes da transa com a atriz de “5 rapazes em Liverpool”. Nem por ela poderia arremessar seu estimado violão no chão, muito menos sua guitarra de raios azuis discretos. O que será que faziam o violão e a guitarra em cima da cama? Não lembrava de tê-los colocado lá. Será que tiveram uma transa bacana? Será que arremessaram no chão alguns objetos que ali estavam antes deles?

Pensou: “Não seja bobo, isso não é necessário e violões não transam com guitarras. Ou transam?”. Se a guitarra tiver aqueles olhos pode ser que transem, mas esses raios azuis são muito discretos. Pensou que talvez o violão pode ter se apaixonado justamente pela discrição. E também pensou que eles não precisavam estar apaixonados para darem uma trepadinha. Um sexo casual entre um violão e uma guitarra é algo esquisito, porém compreensível.

Retirou-os com um certo cuidado da cama, mas não o merecido. Era tarde, era frio, faltava sensação e queria enfiar a cabeça no travesseiro. Queria esquecer de esquecer. Queria não precisar esquecer nem fazer jogos de palavras pra esconder o real sentido das coisas, que nem ele sabia qual era.

Dormiu pensando que só perde um amor quem ama, ou pelo menos quem amou. Sonhou com raios azuis discretos. Acordou com alguma sensação.

quarta-feira, agosto 3

Sonho não se dá

Tenho que admitir: esse foi do Amarante! Não sei maaaaais!

Quis nunca te perder
Tanto que demais
Via em tudo o céu
Fiz de tudo o cais
Dei-te pra ancorar
Doces deletérios
E
Quis ter os pés no chão
Tanto eu abri mão
Que hoje eu entendi
Sonho não se dá
É botão de flor
O sabor de fel é de cortar

Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
Muito bem

Quis nunca te ganhar
Tanto que forjei asas nos teus pés
Ondas pra levar
Deixo desvendar
Todos os mistérios

Sei, tanto te soltei
Que você me quis em todo lugar
Lia em cada olhar quanta intenção
Eu vivia preso

Eu sei, é um doce te amar
O amargo é querer-te pra mim
Do que eu preciso é lembrar, me ver
Antes de te ter e de ser teu
O que eu queria, o que eu fazia, o que mais
Que alguma coisa a gente tem que amar, mas o quê?
Não sei maaaaaais!
Os dias que eu me vejo só são dias que eu me encontro mais

E mesmo assim eu sei tão bem: existe alguém pra me libertar!

(Condicional - Rodrigo Amarante)

terça-feira, agosto 2

Pessoa Maior

PARA SER GRANDE, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive.

(Fernando Pessoa)
(Grifo dele)

segunda-feira, agosto 1

Há algo além

Coisa linda, Paulinho. Sua emoção ao tentar ler o poema da menina hoje salvou meu dia. Ver coisas bonitas, sensações bonitas, pessoas bonitas faz muito bem. Foi sincero e é tão bom ver coisas sinceras. Há algo além.

As gotas de melancolia, a rede que côa as memórias boas, o cheiro de mato...

Desejos bucólicos são desejos de grávida. Aparecem no meio da madrugada, no meio do trabalho, no meio da vida, no meio do fim. Também preciso sair dessa ilha! Preciso ir além, além do que vejo, além do que sinto. Preciso aprender a nadar antes que as gotas alaguem a ilha. E deixar de ser piegas também.


Chove uma chuva fina e triste
Na minha alma
caem gotas de melancolia
Ao me lembrar da alegria
Dos bons tempos idos.
Tudo me adivinha
Nesta hora de garoa.
Lanço minha rede e ela côa
O que chega de mim de memória boa.
Este estado melancólico
É, no fundo, desejo bucólico
De cheiro de mato,
De sítio com galinha, cachorro e pato,
Do perfume de terra molhada.
Vontade de partir dessa cidade ilhada
De erros cometidos pela ganância escrachada -
A fome do desvalido,
O choro bandido,
A cidade dividida
Em banquete e latrina -.
Tudo fere - a menina
Pobre sem escola,
Mais à frente o menino que cheira cola,
O mendigo no passeio pedindo esmola -.
No ermo dos questionamentos meus,
Não consigo encontrar Deus,
Mas, ainda assim, dentro da órbita,
Peço paz ante a constatação mórbida:
Cheiro de mato,
Sítio com galinha, cachorro e pato,
O perfume de terra molhada
E meu amor comigo na estrada

(Paulo Sabino)

domingo, julho 31

um caminho só e só -deixe guardado.

já vou! será?
eu quero ver!
o mundo eu sei, não é esse lar.
por onde andar?

eu começo por onde a estrada vai.
e não culpo a cidade, o pai.
vou lá andar.
e o que vou ver?
eu sei lá!

não faz disso esse drama, essa dor.
é que a sorte é preciso tirar pra ter.
perigo é eu me esconder em você...
e quando eu vou voltar quem vai saber?
se alguém numa curva me convidar
eu vou lá!!
que andar é reconhecer
olhar

eu preciso andar um caminho só.
vou buscar alguém que eu não sei quem sou.
eu escrevo e te conto o que eu vi e me mostro de lá pra você.
guarde um sonho bom pra mim!?

(Primeiro Andar-Rodrigo Amarante)

sábado, julho 30

Coração vulgar na espuma do mar

Vendaval, carrossel
Segue a vida a rolar
Pé na estrada, pó de estrelas
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia a vagar

Caravela, pão e mel
Segue o circo a rolar
Picadeiros, primaveras
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia a viver
Na espuma do mar

E o grão de tão pequeno
Ser tão grande
O que a gente é
Ter esse destino
De pessoa que sonhou...

Que navega no céu
Que navega no ar
Grão de areia a bailar
Lá no fundo do azul

E anda que nem bola
Como a vida
Quando quer brotar
Rola como anda
Que nem fonte de calor...

Barricadas, cordilheiras
Coração vulgar
Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia a vagar
Na espuma do mar

Aventuras, cicatrizes
Segue o mundo a rolar
Diamantes do universo
Coração vulgar

Que navega no céu
E navega no ar
Grão de areia vagar
Na espuma do mar

(A Via Láctea - Lô Borges e Ronaldo Bastos)

quinta-feira, julho 28

Razão Mentirosa

Pensar com a razão,
Não,
Com o coração,
Também não,
A solução é não pensar?
Não, não.

Não há solução
Nem pensamento que solucione

O meu coração soluça
E a minha razão nada soluciona
Sem poder ouvir os dois,
Pra quem devo apelar?

Ah, coração soluçante,
Insolúvel, apesar de despedaçado,
Haverá de encontrar uma solução
Antes que a razão solucione.
Porque a razão, na verdade,
Nada Soluciona
Apenas aprisiona um coração soluçante,
Com medo de um piripaque qualquer
Com medo dos soluços,
Que doem até fisicamente

E mente.

terça-feira, julho 26

Mundo verde-escuro

E nesse verde escuro do mundo, acho que já esqueci o vermelho. Esqueci o prazer do roxo amarelado e do lilás alaranjado. Tudo bem, não faço questão das cores tropicais, mas quero, ao menos, a parte verde escura que me cabe. E pra isso, tenho que lembrar de algo que não lembro agora, porque a vida, meu bem, nem sempre tem o vento a favor. Na maioria das vezes a maré é contrária e eu já perdi a fala há tempos nessa mania de querer falar algo infalável. Ah, Flávio, inFlávio, não joga contra o patrimônio e suba do baixo da sua estima para algo que lhe seja cabível.

Bebendo água de madeira
Bobeira
Besteira
Não suma
Assuma
O que resta de insumo
Pra esse supra-sumo
É nada mais do que nada
Mais do que nada

segunda-feira, julho 25

Queria que tudo

Tudo que queria era apenas um pouco mais de calma pra levar a vida. Levá-la com a leveza merecida - para ele também -, mas nem sempre possível. E quando pensava dessa maneira, ficava filosofando e teorizando tudo acerca do possível. O que é possível? Chegava a conclusão de que se desejava e não conseguia é porque não era possível. Depois pensava que esse pensamento era apenas mais uma forma de simplificar as coisas, reduzir a discussão, uma forma de pensar menos, porque pensar era, por vezes, o que mais o atormentava.

Tudo que queria era um pouco menos de angústia pra levar os dias. Levá-los com o sossego merecido – para ele apenas -, mas isso nem sempre era possível. Porque ao pensar dessa maneira, se angustiava. Ficava angustiado e ansioso esperando o dia que não seria mais angustiado e ansioso. Chegava a conclusão que a melhor coisa a fazer era se permitir ser angustiado e ansioso, porque assim, ficava angustiado e ansioso uma vez só. Depois pensava que essa era apenas mais uma de suas preguiças, tinha preguiça de deixar de ser angustiado.

Tudo que queria era um pouco mais de paz. Lera por aí que a dor é inevitável, mas que o sofrimento é opcional. Queria poder optar, mas será que não o fazia por preguiça também? Ou seria uma questão ancestral, mal resolvida, psicanálitica, uma dessas coisas que acontecem quando a sua mãe não te deixar chupar o dedo do pé quando se tem apenas alguns meses de vida?

Tudo que queria era parar com essa mania-doida-de-gente de querer explicação pra tudo e levar a vida (e não que ela o levasse), com calma, leveza e paz. Não, nem tanto vai, com um pouco mais de calma, leveza e paz (percebam a diferença). Ou com um pouco menos de atormento (diferente de sem atormento), porque sem um tiquinho disso ia ficar chato também.

Tudo que queria era escrever, seja lá o que fosse, pra soltar o que nem sabia se era o que estava sentindo.

quinta-feira, julho 21

Mais um

Caralho, caralho, caralho voador. Dia do amigo de cú é rola!

Há uma vala

"O abismo que é pensar e sentir".

quarta-feira, julho 20

Em busca da terra do nunca

- Eu quero uma música, eu quero uma música, eu quero uma música que fale disso. Que fale desse querer infantil, meio tolo, que é querer uma música. “Uma” não, “A”. Eu quero a música. A música! Que fale desse jeito bobão, meio gago, de repetir que eu quero “a” e não “uma”.

- Ela não existe, ela não existe. Cada minuto, cada sentimento novo, cada microsegundo é uma música diferente. Não procure a música, nem que seja dentro de ti, porque como constatou a Clarice, cada coisa tem um instante em que ela é. O microsegundo que passou era uma música, agora já é outra, que já passou também. É o instante-já da Clarice. O “instante-já” é mais rápido do que o “de repente, não mais que de repente”.

- Impossível, nada é mais rápido do que aquilo. E deixa eu buscar a música. A música, A! Você aí, imitando o meu modo de repetir, também busca suas explicações nos livros. O instante que a Clarice escreveu isso também já passou. Talvez não faça mais sentido, talvez só faça sentido pra alguns, talvez só pra você. Aceite que certos sentimentos já existiram e não me venha com suas teorias ineditistas. Nada é tão novo e eu quero encontrar respaldo, conforto em alguma música. Em alguém que já tenha sentido o mesmo.

- Você quer encontrar conforto pro seu sentimento ou quer encontrar um sentimento já sentido? Porque dessa maneira você não molda sua vida, ou melhor, você a molda baseado em sentimentos alheios, porque assim é mais fácil. Sinta, sinta, sinta, me deixe repetir como você e só sinta. O resto vem. Ou vai. Sentindo vem a sua música, que mudará e moldará. Não tente encontrá-la a não ser que queira apenas uma aprovação pro que sente.

- Talvez seja isso, talvez você tenha razão. Talvez não. Caso sim, qual o problema de buscar a aprovação ou uma experiência parecida? É difícil ser pioneiro, até num sentimento, é difícil admitir isso, mas eu quero, por vezes, saber o que devo sentir. Nossa, que coisa horrível que acabei de falar. Você ouviu? Era melhor ter falado sobre o “caso não” pra evitar atos falhos como esse. Buscar aprovação no que sente é tão ruim assim?

- Só pra você. E é muito ruim pra você. Muito, muito, muito. Acho que só você pode fazer idéia do quanto. É só parar pra pensar no que tem se passado nessa caixola. Reprovação do que sente? Não minta, nem tente dizer que o que sente é demente, pois demente é querer demonizar o que sente.

- Uou, o papo da música tava melhor. Achei, ó só: “apenas te peço que respeite o meu louco querer”. E mais essa frase aqui “apenas te peço que aceite o meu estranho amor”. Viu?

- Vi, é você quem tem que respeitar e aceitar. Só você!Deixa de ser egocêntrico a ponto de achar que as pessoas se preocupam tanto com o que se passa com você. Só você, só você, só você. E eu preciso parar de ficar repetindo as palavras feito um idiota.

quarta-feira, julho 13

Friozão

Hoje parecia frio
Meu quarto é úmido e ainda não havia saído de casa

Hoje parecia úmido
Meu quarto é frio e ainda não havia saído de casa

Meu dia frio e úmido parecia triste
É que meu olhar é estreito e limitado
E de tão estreito e limitado pouco me vê
Pouco se vê

Pouco se vê quando não se vê
Pouco vejo quando não me vejo

Fazia tempo que eu não olhava pra mim
Fazia tempo que eu pouco via
Não que agora eu veja muito
Mas, ao menos, vejo que pouco vejo

Esse meu olhar estreito e limitado só podem resultar em dias frios e úmidos
Preciso sair de casa
Sem deixar de olhar pra casa

sábado, julho 9

Passou

É que quando eu acordei,
Com a incosequente turbulência na minha cabeça,
Eu tava com cheiro de carinho.

Vocês já sentiram cheiro de carinho?

quinta-feira, julho 7

Papos rápidos

Eu também quero saber. Ah, quem não quer? Aliás, esse cérebro eletrônico não me dá socorro. Faz quase tudo, mas é mudo. Comanda, mas não anda. Gostei muito, Sarcé. Fico aqui rindo da cara de tacho desse computador que acha que tudo pode, mas não consegue sair pra passear. Ele até fala algumas coisas hoje em dia, mas se o Gil dissesse isso naquela época iam falar que era papo de maconheiro.

Ah, eu falava sobre o que queria saber, mas a música acabou e esqueci o que queria. Agora tô pensando no tempo em que o medo era motivo de choro, desculpa para um abraço ou um consolo. Um abraço de uma coisa sua que ficou em mim é uma cena linda, linda demais. Putz, o abraço de uma lembrança. Que imagem bonita. Coisas que ficam, que não têm fim. Isso é deveras bonito. Ah, desculpa, eu queria falar “deveras” de alguma maneira.

Agora tô vendo tudo enquadrado. Não é a cachaça-com-madeira-dentro-que relutei-contra-mas-não-resisti. É a Adriana aqui no rádio. Ah, que bonito, esse rádio tá tão legal hoje. E eu tô tão bobo. Mas bobo mesmo é o Gonzagão com a Mariana. Chegue aqui minha bichinha, chegue mais, amor. Dê um choro bem cheiroso aqui no seu vovô. E o ciumento do pai: Se o vovô ganhou um cheiro, eu também quero ganhar. Haha, menina de sorte!

Sabe, meu coração, sei lá porque, fica assim, tá vendo? Ih, é versão instrumental!

Mas sabe, a gente fica até sem querer ler jornal. Deprime. Seria medo de perder a inocência? É isso? Mas não tem jeito. São os revides, sabe? Ninguém mais acha que tá errado. Tá todo mundo compensando de alguma maneira a injustiça sofrida. Tá todo mundo querendo pegar a sobra. As pessoas estão vivendo das sobras. É como se todo dia fosse o último dia. Como se não houvesse amanhã? Mas precisa haver amanhã? É burrice, é muita burrice. Será que a gente não percebe? Eu ia escrever: “Será que eles não percebem”, mas tá todo mundo querendo tirar o rabo da jogada e vi que tava fazendo exatamente isso. Será que não percebemos que isso é autoflagelação? Não acredito que haja tanto masoquista!

Mas, deixando o resto pra lá, eu quero a morena dos olhos d’água. Porque apesar de tudo, a vida ainda vale o sorriso que eu tenho pra lhe dar.

terça-feira, julho 5

Festa imodesta

Sentimento atrasado
Perdeu o trem das sete
E chegou no meio da festa

O bonde já estava andando, baby
Não se entulhe com suas neuroses e hipocrisias
Ignore o "se" e as conjunções adversativas

Sentimento cancerígeno
Retarda e emburrece
Perdeu o trem pras estrelas
E chegou como um tiro na testa

Cospe o que te atrasa
Escarra o que te emburrece
Deixe a lambança pra ressaca
Porque nessa noite eu quero dançar até as sete

A tempo

Conselho Cazuziano deve ser seguido:

Eu te avisei: vai à luta
Marca o teu ponto na justa
O resto deixa pra lá
Deixa pra lá...

Vai à luta...
Porque os fãs de hoje
São os linchadores de amanhã

(Vai à Luta – Cazuza / Rogério Meanda)

quarta-feira, junho 29

Incontrolável

Peco por não pecar
Perco por não me perder
Sinto muito por não sentir
Soluço por não chorar

Peco por não me perder
Perco por não pecar
Sinto por não chorar
Soluço por não sentir

Me controlo por tentar não me controlar

terça-feira, junho 28

Coisa Bonita - De cá pra lá

No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir

(Adriana Calcanhotto/Antônio Cícero)

sábado, junho 25

A minha

Não posso assim ficar, ao vento, lento, esperando um tufão me carregar. Antes de mais tudo, preciso não só entender, mas agir entendendo que quem causa o tufão sou eu, ao menos os tufões que podem agir sobre mim. Há ventanias que deixam tantas pessoas intactas e eu não quero ficar intacto. Quero todas as cicatrizes do redemoinho que eu escolhi. O mais importante: que eu escolhi! Sem escolha não há vida. Eu não sou pipa! Deixa a vida me levar é a puta que o pariu. Eu levo a vida!

sexta-feira, junho 24

Sem resguardos ou reficofages

Se paixão emitisse som,
Não falaria!

Gritaria,
Cantaria,
Espernearia,
Escandalizaria.

A paixão é um amor mimado
Um amor cantado
Esperneado e
Escandalizado.

Ah, mais que amor bacana!
É Melhor do que caldo de cana!
É melhor do que te imitar
Com essa forma de rimar.

Rimo assim pra te amar
Ou seria por te amar
Mimadamente, esperneadamente, escandalizadamente?

quinta-feira, junho 23

Sorriso de Beata

Paulette, é impressionante como nunca tinha percebido o sorriso de beata da vida. É o fim da picada mesmo, mas antes do fim da empreitada, vamos dançar na Matriz.

"Não merece a vida uma lágrima barata,
Pois ela se banca ingrata`
Pelo jeito que a todos trata:
No fim da empreitada,
Cínica, desce a mão fria numa punhalada,
A outra, devagar, afaga com a navalha
E, na face, um sorriso de beata.
Cansaço e doença após tanta batalha,
Puta!, babaca!,
Mãe vil, estúpida e severa quando ralha.

Não merece a vida uma lágrima barata
Pelo jeito que a todos trata:
O fim da empreitada
É, também, o fim da picada."

(Paulo Sabino - A grande cilada)

quarta-feira, junho 22

Friozinho

E eu guardo,
Pelo resguardo!
Me cobre um dia
Numa noite de lua cheia
Ou numa madrugada fria.

Eu digo,
Proclamo,
Esperneio,
Canto
E até escandalizo.

Só não esqueça de trazer cobertor!

terça-feira, junho 21

Para os práticos

E para os que fingem não gostar do George Michael. You can never change the way they feel. Better let them do just what they will.

(...)
And people,
Will always make a lover feel a fool,
But you knew I loved you,
We could have shown them all,

But remember this,
Every other kiss,
That you ever give
Long as we both live
When you need the hand of another man,
One you really can surrender with,
I will wait for you,
Like I always do,
There’s something there,
That can’t compare with any other.
(...)
(George Michael - Kissing a fool)

domingo, junho 19

Is there a light that never goes out?

Se há uma luz que nunca se apaga, eu não sei, ou melhor, eu sei. Eu sei onde ela fica. Sei os detalhes do rosto, do gosto, latitude, longitude, comprimento, medidas, defeitos e efeitos.

Mas se há uma luz que nunca se apaga, eu não me assusto mais. Já disse e redisse que a gente aprende a dormir de luz acesa.

sábado, junho 18

Minha menininha azul

Repetitivo, repetitivo, repetitivo. Três vezes repetitivo. Mas, poxa, isso é uma das coisas mais lindas que já ouvi, senti, cheirei, vi e falei também. Na voz da Janis, que parece saber exatamente como a menininha se sente, Little Girl Blue.

Sit there, hmm, count your fingers.
What else, what else is there to do ?
Oh and I know how you feel,
I know you feel that you're through.

Oh wah wah ah sit there, hmm, count,
Ah, count your little fingers,
My unhappy oh little girl,
little girl blue, yeah.

Oh sit there, oh count those raindrops
Oh, feel 'em falling down,
oh honey all around you.
Honey don't you know it's time,
I feel it's time,
Somebody told you 'cause you got to know
That all you ever gonna have to count on
Or gonna wanna lean on It's gonna feel just like those raindrops do
When they're falling down, honey, all around you.
Oh, I know you're unhappy.

Oh sit there, ah go on, go on
And count your fingers.
I don't know what else, what else Honey have you got to do.
And I know how you feel, And I know you ain't got no reason to go on
And I know you feel that you must be through.
Oh honey, go on and sit right back down,
I want you to count, oh count your fingers,
Ah my unhappy, my unlucky
And my little, oh, girl blue. I
know you're unhappy,
Ooh ah, honey I know, Baby I know just how you feel
(Lorenz Hart, Richard Rodgers )

quinta-feira, junho 16

Com licença(,) Crica

(...)
Amor de sede,
pode ser
desde que seja
Amor(,) que ceda!
Amor(,) que seja!
Amor de seda.

Meia bomba

Se você só pudesse enxergar metade das nucas,
sentisse apenas metade dos beijos,
ouvisse a Janis pela metade,
cheirasse só meios cabelos
e
cantasse só cadê teu suin?

Qual metade você escolheria?

Por milênios

Nada é em vão
Em vão, só o nada

Tudo fica suspenso
No ar
Ou imerso
No mar

quarta-feira, junho 15

Só sei que é assim

O Roger Waters volta ao Pink Floyd e durante os 4 últimos dias o Roberto Jefferson foi capa do Globo!

Bye Bye, Baby Bye Bye

E com a Janis gritando suavemente e esperneando veludosamente nos meus ouvidos, eu dou um tchau, dois tchaus, três tchaus, bye bye bye, pra esse compromisso idiota que travei com a tristeza!

Tristeza querida,
sinto-lhe dizer
que não te amo mais.

Me fizeste companhia,
eu sei,
mas tudo acaba um dia.

Teu amor era egoísta!
Eu sei que a criei,
errei,
Só peço que não insista.

Agora eu parto,
em diversos pedaços,
cada um vai para um lado
e nenhum ao teu encontro.

You know I´ve got a go!

Bye Bye! Baby, Bye Bye.

segunda-feira, junho 13

É

É, Sarcé,
a vida não é pra ser vivida pelo que foi ou pelo que será,
mas pelo que ela é.

E o que ela é?
Não é um pouco do que foi e outro pouco do que será?
Será?
Sim, sim, mas o tanto que ela é tem que ser percebido no "é" e não no "será".
Muito menos temos que viver o "é" como o que "foi".

A vida é o que é. O que é o que é?
Diga lá, meu irmão.

I don´t care if it hurts

Os práticos,
Já apresentados aqui,
Procuram alguém que lhes dê pouco trabalho.

Eu,
Fartamente exposto aqui,
Procuro um amor desembestado,
Como um cavalo afobado -
Não me importo se for pangaré -
Acho charmoso até.

Pode ser estabanado,
Amor errado,
Menosprezado,
Amor barato – a mesma referência de sempre.

Pode ter rugas – referência nova –
Verrugas,
Varizes
E celulites.

A sorte de um amor tranqüilo – mais referência -
Não pode ser confundida
Com a morbidez de um pseudo-amor prático.
(Também quero que meu pangaré pare pra beber água)

Amor de sede,
Pode ser,
Só quero que seja.

domingo, junho 12

E de beleza também

Poxa,
Eu sei que era pra rir,
Mas não é choro de tristeza
E, sim, de estranheza.

quinta-feira, junho 9

Ouçam com cuidado e atenção

Mas isso é tão bonito, deixe chegar, deixe passar, respeite, aceite, nunca o nunca e lutemos.

Não quero sugar todo seu leite
Nem quero você enfeite do meu ser
Apenas te peço que respeite
O meu louco querer

Não importa com quem você se deite
Que você se deleite seja com quem for
Apenas te peço que aceite
O meu estranho amor

Ah! Mainha deixa o ciúme chegar
Deixa o ciúme passar e sigamos juntos
Ah! Neguinha deixa eu gostar de você
Prá lá do meu coração
Não me diga nunca não

Teu corpo combina com meu jeito
Nós dois fomos feitos muito pra nós dois
Não valham dramáticos efeitos
Mas o que está depois

Não vamos fuçar nossos defeitos
Cravar sobre o peito as unhas do rancor
Lutemos mas só pelo direito
Ao nosso estranho amor

(Nosso estranho amor- Caetano)

Coisas dessa vida tão cigana

Se tremem
Não tremem em vão
Deve ter um motivo
Medo ou paixão
Medo da paixão
Ou paixão pelo medo
Seja lá o que for
- Esse pavor ou ardor –
Não lhe deixe causar dor
Beba-o suavemente
Como um taça de vinho
De São Clemente
Só pra rimar
E plagiar
E rimar de novo

Histórias de Minas - Seleta

A história é bonita, gostaria até de acreditar, beberia com mais prazer. Porém, sei bem quem tá do lado de lá! Hipócritas!

“Antônio Rodrigues é um homem obstinado, totalmente devotado à cana e ao alambique. Ele é o homem que escuta o cantar do canavial. Ajudado pelo vento e pela fantasia ele percebe que a hora chegou. Hora de moer o milho para a fermentação. Hora de lubrificar a moenda. Antônio vive ao norte de Minas, quase Bahia, numa cidadezinha encravada em um vale árido e quente. Salinas é conhecida por sua cana incrivelmente doce de onde se extrai uma magnífica cachaça, feita por homens que não se dobram à inclemência do clima. Acompanhar Antônio caminhando entre seus tonéis é um privilégio. Ele escolhe a madeira e constrói cada tonel com enorme dedicação, já que de lá descansa a sua incrível cachaça, que serve orgulhoso. Das fazendas Olaria e Sobradinho saem as cachaças que se tornaram símbolo da região. Esperamos que ao provar a cachaça de Antônio você possa lembrar que nos confins do nosso país existem pessoas tão especiais como o homem que escuta o canavial”.

quarta-feira, junho 8

Louca

Moça,
Não foi só na minha cabeça.
Ficaste também na minha boca.

domingo, junho 5

Só mais unzinho...

"Acontece que estou cansado de ser um homem". (Pablo Neruda)

E mais

"O amor é tão curto
Esquecer é tão longo".
(Pablo Neruda)

Mais Carteiro e o Poeta

"Se pouco a pouco você deixou de me amar,
Eu deixarei de amar você pouco a pouco".
(Pablo Neruda)

O Carteiro e o Poeta

Sobre as referências musicais e literárias que muitos não gostam ou não entendem:

"A poesia não pertence a quem a escreve, mas àqueles que precisam dela". (Frase do carteiro)

sábado, junho 4

Cecília

Já se conheciam e se amavam há 22 anos. Há 22 anos que se conheciam e se amavam. A rotina, por vezes, atuava e disso se esqueciam (ou seria o esquecimento, unilateral?), mas quando lembravam...Ah, quando lembravam!

Num dia desses de lembranças, permitiram às lágrimas, rolar (ou era só ele que não permitia normalmente?). Olharam-se de lado e pensaram: “eu sei que a gente se ama muito, é que, às vezes, é preciso resistir pra que andemos com nossas próprias pernas” (será que foi só ele que pensou isso?).

Foi uma declaração à distância, uma declaração pelo olhar. Não foi preciso um beijo ou um abraço. Os olhares cansados e marejados disseram: “eu te amo desse jeito, não preciso fazer estardalhaço” (porra, será que foi só ele que pensou isso tudo?).

Ela sabia tudo que ele pensava, mas tudo mesmo, inclusive esses pensamentos tolos sobre a unilateralidade. Pensou e pensou tão alto que ele ouviu: “te olho, te guardo, te sigo, te vejo dormir”.

sexta-feira, junho 3

Nobody Knows

Ah, sexta feira! Seria pena esperar em vão! Hoje eu quero fazer o meu Carnaval! O Chico, sempre o Chico, completa:

"Amanhã ninguém sabe
Traga-me um violão
Antes que o amor acabe

Amanhã ninguém sabe
traga-me uma morena
antes que o amor acabe

(...)

Eu quero cantar o amor
antes que o amor acabe"

(Amanhã Ninguém Sabe)

Mas eu digo venha

"O que quer que eu diga, você não vai entender".

"Eu não sei dizer
o que quer dizer
o que vou dizer
eu amo você,
mas não sei o que
isso quer dizer".

(Zeca Balero - Lenha)

terça-feira, maio 31

Poema em Linha Torta

O que que se faz com o já feito?
Me diga:
O que que se faz com o desfeito?
Com o imperfeito?
Com o teu jeito?

O que que se faz com o defeito?
Me diga:
Onde ficam escondidos os defeitos dos perfeitos?

Ah, os perfeitos!
Será que só Pessoa que era vil, mesquinho e infame?
Vai, me diga:
Será?
Onde está?

Cadê o teu preconceito,
Teu pensar estreito,
Tua bunda de fora?!
Mostre, vai!
Sentirá-se melhor.
E eu também!

Sábia e Reflexiva Dona Uda 2

Ao saber que os homens descendem do macaco e não de Adão e Eva:

"Caramba, bem que eu percebo que algumas pessoas são bem parecidas com macaco. O filho do Miltinho é igualzinho a um miquinho".

Sábia e Reflexiva Dona Uda

"Cada pensar é diferente".

Be Atriz Intrépida

Ah, isso é uma das coisas mais belas que alguém já fez.

Olha, olha! Será? Será que o tempo passa? Será que eu posso não andar com os pés no chão? Será que é divina? E se ela um dia despencar do céu? O que fazer com os pagantes? O que fazer comigo? Me leva pra sempre, vai. Me leva nessa máquina do tempo. Será que o tempo realmente passa? O tempo como grande estrela no anfiteatro, modelando o artista ao seu feitio com seu lápis impreciso" (O tempo e o artista).

“Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Diz quantos desastres têm na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz”.

(Beatriz – Chico na voz do Milton)

sábado, maio 28

Ué 2

-Pô, cara, não quero mais ser flanelinha não. Descobri o que quero.
- O que?
- Pô, quero treinar o time mirim lá da comunidade.
- Por quê?
- Pô, lembra do Gabina, cara? De como a gente gostava dele?
- Sim, lembro.
- Pois é, quero que aquela garotada goste de mim daquele jeito.
- Mas isso não dá dinheiro. O Gabina não recebia nada.
- Não?
- Não, ué.
- Porra, cara. Você tá sempre estragando meus planos com os seus "ués". Ainda te enforco nessa gravata aí!

Oração pro Coração

Se um dia tu soubesses
Tudo que me passa
Farias uma prece

quinta-feira, maio 26

Plásticos práticos

Os práticos mentem
Prática não é a vida
e nem o que eles sentem

segunda-feira, maio 23

Com sotaque

Entre Poconhoncas e Piritina,
ficava Potora,
Poconhoncas do abacate,
Potora da amora.

Em Piritina, perdeu as botas,
em Potora, as meias,
em Poconhoncas, as veias,
em Jubiruba, as teias.

Teias de aranha,
cidade chafariz,
o povo jubirubense
só pretende ser feliz.

Feliz no chafariz,
chafariz que vem de cima,
versos infantis,
com pingos que molham
os cabelos e o nariz.

A luz de gás néon,
mergulhada na água com açúcar,
dá o tom.
A pedra machuca,
a onda relaxa.

Relaxa tanto,
que queria ser onda
pra fazer relaxar,
apesar da turbulência.

E lá de cima, os aviões avistam os navios.
Ou seria o contrário?

domingo, maio 22

- E aí, como andam as coisas?
- Estou começando minha vida profissional.
- Ah, é? Em que?
- Flanelinha.
- Flanelinha?
- É, flanelinha. Dá dinheiro.
- Ahh..
- O que foi?
- Nada, ué.
- Ué porquê?
- Ué, só falei ué.
- Ihhh, falou ué mais duas vezes. Qual o problema?
- Nada, ué.
- Porra, vai tomar no cú com o seu ué! O que você anda fazendo?
- Tô trabalhando naquela empresa de computação.
- Ah é, de gravata?
- Não, não. Normal.
- Normal como?
- Normal, ué.
- Porra, vai se fuder! Ué de cú é rola!

sábado, maio 21

Pastelão

A prisão da sua verdade
nada mais é senão
saudade

Minha comitragédia é bonita.
não acha?(!)

sexta-feira, maio 20

Apple Pie

Andando em linhas porcas,
em tortas de maçã,
por portas sem maçanetas.
Linhas tortas maçantes!

Linhas porcas traçantes!
Rastejantes, humilhantes,
deploráveis, infindáveis.

Novas linhas marcantes,
esperando a esperança
que resta na lembrança.
Lembrança de criança.

Linhas novas cativantes!

terça-feira, maio 17

Don´t leave me cry

Já quis ser música, desejo complicado, acreditando dessa maneira evitar sofrimentos. Que bobeira, isso foi antes de perceber que certas músicas sangram, Gonzaguinha sabe bem. Hoje peço menos, quero ser apenas um falsete prolongado, um falsete de “high and dry” ou “fake plastic tree”.

“Don´t leave me high, don´t leave me dry”. “Kill yourself to never ever stop”. "She tastes like the real thing, my fake plastic love". "If I could be who you wanted all the time..".

Acho que esse desejo esdrúxulo surge da vontade de prolongar alguns momentos da vida como em um falsete. Falsete real. A interrupção abrupta que, por vezes, é falsa. Prolongamentos, como em falsetes, seriam mais reais, acho eu. Em certos casos. Ahhhhh....

sexta-feira, maio 13

Sintoniza aí!

A Rádio Brega “Cordão de Pérolas” está de volta com mais uma música arrebatadora, emocionada, exagerada e rasgada como a vida deve ser.

O trecho abaixo se repete na música, mas gostaria de deixar claro que me refiro à parte em que a Montserrat canta e o Freddie Mercury repete o que ela diz, parecendo bastante com as traduções do “Good Times 98”.

Que voz! Caralho voador!

How can I go on
From day to day?
Who can make me strong in every way?
Where can I be safe?
Where can I belong
In this great big world of sadness?
How can I forget
Those beautiful dreams that we shared?
They're lost and they're no where to be found
How can I go on?

(Freddie Mercury)

quinta-feira, maio 12

Idéias Cazuzianas

Parto do ponto de partida de que há dois partos:

o parto da parida e o parto da partida!

terça-feira, maio 10

Poema Velho

Sem canto,
meu canto
quer um colo
pra deitar.

Me encanto,
enquanto
controlo
esse lugar.

Sem manto,
nem santo,
peço um tango
pra dançar.

Seu pranto
diz tanto,
que me espanto
em pensar

Seu mudo,
diz tudo,
contudo
já não dá.

domingo, maio 8

Lá na Coppe...

Já duvido de qualquer um que queira me explicar os mecanismos da vida, seus paradigmas, questões mais importantes, questões universais, questões gerais. Não há intelecto humano que capte as particularidades presentes em cada um. Não há questões gerais, universais, acho eu.

Agora, duvido ainda mais de quem quer fazer isso usando a calça acima do umbigo. Aí não dá, sai de casa!Larga os livros! Ajeita essa calça!

sexta-feira, maio 6

Criança Esperança 2005

Tão longe de mim
So far away from me
Tão próxima de mim
So close to me

Não faz idéia do quanto
do tanto
no manto
esperanto

esperança
criança
lambança
matança

Na central
deu no jornal
morreu
escafedeu-
se


criança lambuzada
matança esperada
ou seria esperançada?
Imaginada?

Imaginem só
nenhum paraíso, nenhum inferno
Muitos Lennons!
Sem matanças esperadas
só crianças lambuzadas

terça-feira, maio 3

No butecão da feira:

Brincando com o poema do Mario Quintana:

todos esses que aí estão
comendo salmão e tomando vinho,
eles passarão...
eu frango à passarinho!

segunda-feira, maio 2

Precisa-se de um novo

Obrigado a presenciar o sucumbimento do nível do futebol brasileiro (o jogado aqui), a ponto de não aguentar ver um jogo do meu flamengo por mais de 10 minutos e de querer estar cada vez mais longe do Maraca, eu fico com as palavras do Drummond. Atenção especial para a parte em negrito. Que coisa bonita!

"Se há um deus que regula o futebol,
esse deus é sobretudo irônico e farsante,
e Garrincha foi um de seus delegados
incumbidos de zombar de tudo e de todos, nos estádios.

Mas, como é também um deus cruel,
tirou do estonteante Garrincha
a faculdade de perceber sua condição de agente divino.
Foi um pobre e pequeno mortal
que ajudou um país inteiro a sublimar suas tristezas.
O pior é que as tristezas voltam,
e não há outro Garrincha disponível.
Precisa-se de um novo, que nos alimente o sonho."

Carlos Drummond de Andrade

sábado, abril 30

O grande picadeiro - certezas e incertezas

Passada a euforia, veio o medo. Passada a calmaria, veio uma calmaria ainda maior. Isso assustou, claro.

- Que medo é esse, rapaz?
- Não sei, não sei. Talvez seja desculpa pra um abraço ou um consolo.
- Consolo? De quem? Você precisa disso? Um abraço eu te dou, pô.
- Sim, claro. Seu abraço é sempre bom. Mas a gente valoriza pouco o que a gente já tem, né? Desculpa dizer isso, mas talvez precisasse de um abraço que não tenho como certo, entende?
- Tá, vou te dar menos abraços daqui pra frente.
- Você entendeu o que quis dizer, porra!
- Sim, entendi. Mas o tal abraço é de alguém específico?
- Sim, de alguém que não tenha como certo.
- Porra, agora você que tá de palhaçada. Você entendeu a minha pergunta!
- Não sei, não sei, talvez. Me sinto tão idiota.
- Também sinto isso a seu respeito. E que papo era aquele de consolo?
- Porra, pára de me lembrar as merdas que eu digo. Me sinto ainda mais idiota.
- São dessas que você tem vergonha que você precisa lembrar, falar.
- Por quê?
- Escondem algo.
- Pára de se fazer de entendido da vida. Você e suas fórmulas, lógicas, certezas.
- É, mas a gente precisa delas. Dá medo não ter nada como certo.
- Agora é você que tá com medo? Medo das coisas incertas? Largue suas certezas, meu caro.
- Agora eu que estou me sentindo um idiota.
- Também sinto isso a seu respeito nesse momento. Engraçado que me sinto melhor depois da sua insegurança revelada.
- Escroto.
- Eu sei, eu sei. Não conseguimos viver sem nenhuma certeza mesmo, mas os maiores prazeres da vida vêm das coisas incertas, inesperadas. Não é?
- É, eu sei. Mas não dá pra esperar algo inesperado. Isso angustia.
- A falta de certezas?
- A falta de perspectiva.
- A falta de certezas, é a mesma coisa.
- Tá, e daí?
- Agora eu que me farei de entendido da vida e te garanto que você pode esperar por algo inesperado.
- Mas quando?
- Porra, aí você quer muito. O inesperado não pode ter dia certo. Seria esperado.
- Você gosta das coisas incertas, né? O meu abraço, dito “certo” por você, não tem o mesmo valor.
- Deixa de ser melodramático, porra. Aquilo foi uma frase momentânea. Se não tivesse o seu abraço, sentiria muita falta. Como posso sentir falta de algo que tenho, porra!
- Você precisa sentir falta das coisas?
- É, parece que sim. Que idiota que sou, mas o que posso fazer?
- Ria, ria de si mesmo. Ria de mim mesmo. Isso aqui é um grande circo mesmo.
- Boa, sinto você menos idiota agora. Me dê um abraço.
- Mané!

quinta-feira, abril 28

Cesarceando

No dia 28 de abril
de 1979
nasceu o menino
que quando pede
chove

No dia 28 de abril
ao invés de chorar
ele riu

Riu da cara do médico
que não entendia
porque naquele dia
a galera aplaudia

Aplaudia da geral
com o anúncio do placar
que voltou a funcionar
só pra avisar

Que no dia 28 de abril
nasceu o Sarcé
filho do Maraca
neto da Marica

Hai-Kayzeando

Mané por mané
Eu fico com o meu
O Sarcé

terça-feira, abril 26

Olê Olá

Um ranger de dentes,
Um grito preso,
Uma chuva de meses,
Uma música triste.

Morde,
Berra,
Molha,
Chora.

Outro ranger de dentes,
Um grito solto,
A chuva no corpo em riste,
Outra música triste.

Trinca,
Geme,
Goza,
Bebe.

Beba a música.
A dor morreu de velha
E na estranha falta dela,
Chore.

segunda-feira, abril 25

Vida líquida em liquidação

Líquidos transbordantes seriam apenas líquidos transbordantes se não contivessem parte da liquidez transbordante humana. Diz o Aurélio que os líquidos sempre tendem a tomar a forma dos recipientes que os contêm.

Não possuem forma própria?! O Seu Aurélio não levou em consideração os líquidos transbordantes e lacrimejantes que saem dos olhos humanos e representam as suas vulnerabilidade e liquidez. Qual seria o recipiente que os contêm? Depois de transbordarem talvez o ar, o chão, o pedaço de papel, o teclado do computador.

Mas e os líquidos transbordantes que não transbordam? Falo dos que têm potencial para tal, mas não o fazem por circunstâncias diversas, como a falta de coragem ou a falta de oportunidade. Será que esses também podem ser considerados líquidos transbordantes? Talvez, sim, só não são líquidos transbordados. São líquidos somatizados, talvez.

Bom, tô perdendo o foco que na verdade nunca tive. Mas estava tentando argumentar que alguns desses tais líquidos transbordantes possuem forma sim. Muitas vezes possuem até endereço, rg e cpf. Outros talvez não possuam mesmo, mas não acredito que tomem a forma dos tais recipientes que nem sei quais são. Digamos que seja o teclado do computador. Não consigo imaginar um líquido transbordante humano com formato de teclado de computador.

Bom, isso não interessa. Líquidos transbordados, líquidos liquidados representam a liquidez humana. A capacidade de transformar ativo em dinheiro?! Não, Aurélio, liquidez no sentido molengo da palavra. Representado talvez a tentativa humana de se adaptar aos recipientes que os contêm. Terra dura, coração mole. Líquidos liquidados na tentativa de tornar a terra menos dura ou o coração menos mole. Ou então de fazer com que o coração mole sobreviva na terra dura, que no caso é o recipiente que nos contêm.

Ah tá, entendi, Aurélio, a primeira definição até que fazia sentido.

quarta-feira, abril 20

Why don´t we do it in the road?

Vocês bem viram,
riram,
observaram,
congelaram,
flagraram
e
perceberam o que acontece
quando aquele menino adoece.

Fica com uma cara de bobo,
um sorriso maroto,
um olhar idiota,
uns pensares banais.

Pensa em pular de pára-quedas,
transar em via-pública,
ouvir roupa nova
e gritar pra todo mundo ouvir.

Quando acaba, diz que não quer mais,
que igual aquele nunca mais será,
diz que só quer paz
e que aquele olhar idiota ninguém mais verá.

Quando retorna, parece que não foi,
parece que ali sempre esteve
e que a volta dessa cara de bobo
faz parte de sua vida.

Trata-se de um problema clínico,
cíclico,
que aquele menino cínico
cisma em dizer que é amor.

sexta-feira, abril 15

Versos Escaralhados

Sinta, mas não explique.
Minta, mas não revide.
Acredite, Cazuza existe.
Rime, mas nem tanto.

Seja o que não foi,
Quando queria e não podia,
Quando podia e não queria

Queira quando quiser,
Possa quando puder.
Respeite os versos verdadeiros
Por mais cretinos que sejam.

Descubra-os,
O que é o mais difícil
No meio desses edifícios

Encontram-se embaralhados,
Escaralhados, amontoados.
Cabendo a você e somente a você
Desescaralhá-los.



PS: Cris, o verso "rime, mas nem tanto" eu roubei de você. Achei bom. Podia?

quarta-feira, abril 13

Entrega

“Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda que palavra por palavra eis aqui uma pessoa se entregando. Coração na boca, peito aberto, vou sangrando. São as lutas dessa nossa vida que eu estou cantando.

Quando eu abrir minha garganta, essa força tanta. Tudo que você ouvir esteja certa, estarei vivendo. Veja o brilho dos meus olhos e o tremor nas minhas mãos. E o meu corpo tão suado, transbordando toda raça e emoção. E se eu chorar e o sol molhar o meu sorriso, não se espante, cante, que o teu canto é minha força pra cantar.

Quando eu soltar a minha voz, por favor, entenda, é apenas o meu jeito de viver o que é amar.”

(Gonzaguinha-Sangrando)


Caralho! Caralho! Caralho voador! Que música bonita, que cara foda!

Putz, que inveja, como eu queria ter escrito essa música, sobretudo a última frase. É tão sincera, poética e de uma humildade sem tamanho. Não há definições sobre o amor, é exatamente isso, há formas de amar, ou melhor, formas de viver o que é amar. Puta que pariu! Tô desbocado mesmo!

E o nome da música é perfeito. A música sangra, essa música sofre, nega meu post anterior. Essa é uma música que sofre! E ao mesmo tempo liberta. Ela sangra e grita: “ Puta merda, não me venha dizer o que é amar”.

Salve, salve Gonzaguinha!

segunda-feira, abril 11

Somos uns manés mesmo!

Beatriz, Cecília, Carolina, Luiza, Lígia, Michelle, Julia, Amélia, Rita, Rubina, Andrea, Natália, Nathalie, Leila..... Infinitas músicas com nome de mulher.

Os homens são muito bobos, né?

Procurei, vasculhei, pensei e não encontrei uma música cuja compositora tenha dado o nome de um homem. A única que encontrei foi Maurício, música 8 dos quatros estações. Feita por um homem para um homem.

Essa mulherada não tá com nada!

domingo, abril 10

Hoje eu queria ser uma música

Hoje eu queria ser uma música, sabe? Daquelas bonitas, fortes, que fazem você chorar sem saber o porquê. Daquelas que sem entender a letra, você sabe o que quer dizer. Não precisa ser complexa. Letra simples, inteligível ou não, e melodia simples. Eu tenho a impressão de que as músicas, por mais tristes que sejam, não sofrem. As músicas não sofrem. Hoje eu queria ser uma música. Queria poder causar sentimentos diversos nas pessoas sem sofrer as conseqüências, sabe?

Egoísta? Sim, sim, muito. Eu e as músicas. As músicas são muito egoístas e ninguém cobra nada delas. Muito menos elas mesmas, músicas não têm superego.

Então, queria ser uma música pra poder ser egoísta sem que me cobrassem nada. Ou melhor, sem que me cobrássemos nada. Ficou claro isso? Acho que não, mas as músicas também não têm essa preocupação, não precisam ser claras, podem ser escuras também. A vida de música é muito boa, cara. Elas não precisam trabalhar, não precisam ser complexas, não têm superego, podem ser egoístas, escuras e ainda por cima ninguém cobra nada delas. Hoje eu queria ser uma música e não me preocupar com as interpretações. Ninguém culpa uma música por ter interpretado algo. No máximo o compositor, mas a música fica lá, intocada. Porra, vida de música é muito boa.

Hoje eu queria ser uma música, mas não uma música de um compositor só, sabe? Queria ser uma música composta por muita gente, porque essas músicas de um pai ou mãe só são muito mimadas.

sábado, abril 9

Monólogo

Sabe aquela música?
Como assim qual?
Aquela! Aquela que falava de como as coisas se esvaem..
Não lembra?
Pena...
Deixa pra lá. Era bobeira.
Onde?
Na rede.
Qual rede?!!!
Não, claro que não é na Internet. Uma rede de verdade.
Também não lembra?
Pena...
Não, não se preocupe, nem precisa se desculpar. Pena pra você, não pra mim.

domingo, abril 3

Amor mimado

Era tão bonita, mas tão bonita, tão doce, tão especial, tão inteligente, que queria compartilhar a admiração plena que tinha com todos amigos próximos. Tentava explicar e não obtinha os êxitos desejados. Uma já conhecida mania de não conseguir compartilhar consigo mesmo os prazeres que a vida o dava. Precisava dizer, precisava gritar, berrar, espernear. Sempre fora mimado, amado, mimado amado, quase sinônimos, tratando-se de amor-mimor materno.

Racionalizava, mas não resolvia. Continuava tentando fazer que enxergassem por meio de palavras. Não era possível. Suas palavras não poderiam ser belas como tão fina flor. Precisava fazer com que a vissem. Não haveria erro. Diante de tamanha beleza e doçura não exitariam.

Pois exitaram. Não enxergaram o sorriso doce, dissimulado, escondendo uma inocência já vivida. Não perceberam o olhar, que fingia ser sério para tentar disfarçar a beleza que a vida a ela reservara. Não podia esbaldar, tão próxima a tamanha miséria e mesquinhez, todo o seu talento.

Mesmo quando ela não dissimulava – ele a conhecia bem - não conseguiam perceber que o que dizia era a mais pura verdade - a beleza da vida materializada. Não, não. Simplificavam tudo, racionalizando com seus estúpidos métodos de conhecer a vida e as pessoas. Eles não sabiam nada porque não sabiam nada. Entenderam? Nunca souberam nada. E não saber nada implica em não saber nada. Isso só muda se um dia souberem alguma coisa. E se vocês guiarem-se pela lógica formal, perceberão que eles nunca saberão nada. Entenderam?

Deixa pra lá, o que importa é que percebera que só ele a via como era. A via como merecia. Ninguém mais. Não queria terminar com um ditado popular, nem na forma, muito menos no sentido. Nenhum preconceito, apenas piegas demais. Mas tivera a certeza de que apenas seus olhos eram capazes de enxergar o óbvio. Óbvio apenas para ele. Seus olhos viam e de tanto ver, tornaram-se tão doces como o olhar cruzado, dissimulado, doce, com a inocência já vivida escondida. Reteve toda aquela beleza e não se satisfez. Achou que seria capaz acumular mais e mais e mais e mais....Achou, amou, mimou, quase sinônimos tratando-se de amor-mimor platônico.