quarta-feira, fevereiro 10

Janela sobre a palavra (V)

Javier Villafañe busca em vão a palavra que deixou escapar bem quando ia pronunciá-la. Onde terá ido essa palavra que ele tinha na ponta da língua?

Haverá algum lugar onde se juntem as palavras que não quiseram ficar? Um reino das palavras perdidas? As palavras que você deixou escapar, onde estarão à sua espera?

(Eduardo Galeano - Palavras Andantes)

quinta-feira, fevereiro 4

Criminosos potenciais

Aos idealistas de plantão, um pouco de Radiohead:
"Just cause you fell it, doesn´t mean it´s there"

E aos demasiadamente precavidos, mais um pouco:
"We are accidents, waiting to happen"

(There there - Radiohead)

sexta-feira, janeiro 29

caminho de casa

Não mais que um metro e meio,
coberto com um saco negro de lixo,
desnudo a todos com coragem de observá-la.

me sinto um covarde todos os dias.

contra la vida cara

hoje, o Jornal Nacional, mais uma vez, falou da Venezuela. Entrevistou pessoas no antigo supermercado francês Cassino. Chamou de governistas os que apóiam o governo, mesmo que esses nenhuma ligação, além da empatia, tenham com o governo. Falou, como sempre a direita diz, da escassa variedade de produtos que possivelmente acontecerá no supermercado estatal. Falou, pejorativamente, que o supermercado se limitará ou prievilegiará os produtos de necessidades básicas.

Esqueceu de mencionar, emboras suas câmeras não tenham ofuscado o dizer presente em todo supermercado:

Contra la vida cara.

Palavras Andantes

Temos um esplêndido passado pela frente?

Para os navegantes com desejo de vento, a memória é um ponto de partida.

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Janela sobre as Proibições

Na parede de um botequim de Madri, um cartaz avisa: proibido cantar.
Na parede do aeroporto do Rio de Janeiro, um aviso informa: É proibido brincar com os carrinhos porta-bagagem .
Ou seja: ainda existe gente que canta, ainda existe gente que brinca.

(Eduardo Galeano - Palavras Andantes)

quinta-feira, janeiro 28

mídia venezuelana

o que seria da cbn caso se recusasse a passar a voz do brasil?

e da RedeTV caso se recusasse a transmitir um discurso ministerial, pra não precisar chegar ao presidente?

e da Record se infligisse leis votadas no congresso nacional, como é o caso das tvs venezuelanas?

o direito a ter um espaço televisivo ou radiofônico, não esqueçam, é um direito concedido pelo Estado. Uma conceção estatal deve atender a interesses públicos. Será esse o interesse de uma TV golpista que mente sobre fatos no intuito de destituir um presidente eleito, reeleito, reeeleito democraticamente?

não esqueçamos que nem todas as tvs golpistas foram destituídas na Venezuela e é aí que deve residir nossa crítica. Pergunto porque a Venevision de Senderos continua intacta.

as demais que bravejam aos sete ventos clamando por democracia se aproveitam do discurso do poder do povo para atender seus interesses que nada interessam ao povo.

que sejam extintas junto com hotéis, empresas privadas e todos interesses obscuros que quando interessam clamam por democracia.

mas, camarada Chavez, não se esqueça que Venevision e Mitsubishi (MMC) também fazem parte da mesma burguesia. Por que não encarar?

Celebremos a morte da RCTV, ao menos.

e a direita mostra suas garras mais afiadas

Seria estarrecedora, se não fosse totalmente previsível, a reação da mídia brasileira ao Plano Nacional de Direitos Humanos. Enfrentar de uma só vez os militares, a igreja, o agronegócio, a grande mídia e as grandes fortunas não é uma tarefa das mais simples.

Cabe um breve apanhado do que dizem os âncoras da nossa mídia:

Hoje, Boris Casoy, do alto de seu microfone, o mais baixo da escala da mídia, fez questão de chamar de bobagens os assuntos tratados no PNDH. Entrevistou lá um jurista que estava indignado com o reconhecimento do trabalho das prostitutas. Será que o nomeado jurista, cujo nome sequer gravei, critica o que já praticou, como denunciava a poetisa Juana Inés de la Cruz no século XVII?

Alexandre Garcia estava estarrecido como um programa de governo poderia atacar os militares, os produtores rurais e os meios de informações. Como podem ser esses considerados vilões em uma só penada? pergunta o repórter. Vale lembrar que liberdade de expressão não pode ser confundida com falta de controle social dos meios de comunicação, e é exatamente disso que fala o plano.

http://www.youtube.com/watch?v=7r4bs6CrcyU&feature=related

E, por fim, o segundo maior boçal de nossa mídia (sorte dele existir o Boris Casoy), Arnaldo Jabor diz que trata-se de um programa bonito por fora e soviético por dentro. Indignado com o fato de pensarmos em julgar crimes de 40 anos atrás, indignado com os laranjais da cultrale e com a destruição da Vale e da Aracruz Celulose. Me corrijam se estiver errado, mas me parece que apenas Brasil e Uruguai não julgaram os torturadores da ditadura (não foi a toa o editorial da Folha chamando-a de Ditabranda).

http://www.youtube.com/watch?v=gO_Fdc5OP08&feature=related

É preciso agir junto com o que me parece ser a ação mais interessante até então feita nesse governo.

Voltei

Em 25 de setembro de 2003, tirando da poeira os pensamentos que atormentavam a cabeça de um jovem de 20 anos, César Guerra Chevrand com sua bela homenagem, estimulou que esse espaço fosse criado. Sete anos depois, com uma defasagem de 7 meses sem escrever, o mesmo rapaz com traços mais marcados, meu irmãozão, me fez crer que os espaços alternativos, mesmo que pouco lidos, precisam ser construídos e divulgados.

A ideologia de direita grita aos setes cantos, tentando ofuscar os interesses que estão por detrás de sua suposta neutralidade. Precisamos falar mais alto. Precisamos berrar quando falar o imbecil do Arnaldo Jabor, precisamos de um grito que ofusque suas idiotices e posturas de classe.

De forma alguma proponho que seja esse o grito-maior. É apenas o meu estímulo para voltar a escrever pra uma porção de gente, mesmo que pra um bocadinho assim, pequenininho, mas volto a escrever acreditando que a rede de gritos, permitida por essa tecnologia, tem condições de alcançar corações e mentes inquietas com a situação em que vivemos.

Quero compartilhar com vocês, meus camaradas, as questões que me tiram o sono e me abrir para as posições contrárias. Permitir rever-me é algo que tento aprender com Paulo Freire, embora reconheça meus limites diante de uma confusão de interesses que não consigo desvendar. Imagino que seja essa minha maior dificuldade para um diálogo sincero, pelo simples fato de não conseguir discernir o sincero dos interesses obscuros.

Quero permear este espaço de questões não ditas, por mais polêmicas que sejam. Quero me abrir pra pessoas queridas, mesmo que discordem, com o desejo de ser ouvido. Tenho estímulo, talvez, nos escafandristas virtuais, que venham a explorar os escritos internáuticos daqui a mil anos e capturem/vivam o amor e inquietude deixados no ar.

Serei doce e amargo, porque há doçuras e amarguras no que sinto. Penso em distintas pessoas que quero que me leiam, com a certeza que não agradarei metade delas. Preciso aprender a desagradar, embora não seja esse meu objetivo.

segunda-feira, julho 13

Partida

Essa parte da ida
parece não estar no script
no momento do encontro
no conhecer
e no aprofundamento da amizade

Nas noites de dia
Nas praias de noite
Nas lágrimas com sorriso

Parece não fazer parte
dada a infinitude do momento presente

Mas, sim,
é parte integrante do encontro -
faz parte -
parte o peito e interrompe bruscamente,
como um parto.

Que também seja a parte de um novo ciclo,
de uma nova vinda,
de uma nova vida.

Pois é nas vidas que construímos
nessa parte ínfima da história que nos cabe
que se constrói o ser pleno -
feito de distintas partes.

Parte sem deixar partes,
deixa obras inteiras,
deixa saudades,
que se encontra na parte mais bela
do complexo coração humano.

Nessa parte eu não havia pensado,
Até se impor a partida -
parte integrante do reencontro.

sexta-feira, novembro 21

Poema da Lata

A história vivida, contada, encantada, virou sonho.

O sonho vivido, sentido, narrado, virou história.

História e sonho se confundem em outros sonhos e histórias.

Sonho e história fazem nova história e despertam novos sonhos.


Os valores que possuía o sobrevivente da guerra urbana,

Remanescente do que dizem ser a primeira favela brasileira,

Impressionavam o jovem de olhos miúdos,

Que atento às suas histórias e causos,

Energizou suas esperanças de transformação.


Ouviu, sentiu, aguardou o seu retorno,

Quando não esperava mais o reencontro,

Surpreendeu-se com o inimaginável,

Com o desprendimento material de quem nada tem.


Percebeu que mesmo na pobreza,

Quiçá miséria,

Há espaço para valores distintos,

Para entender que há questões que valem mais,

E obviamente isso não provém da miséria.


No dia posterior, com o sentimento à flor da pele,

Relatou para os companheiros que quer ver na mudança pretendida,

Todo o sentimento ali vivido,

Buscava eco.


Como não se controla o que daí resulta,

A história vivida, contada, encantada, virou sonho.

O sonho vivido, sentido, narrado, virou história.

História e sonho se confundem em outros sonhos e histórias.

Sonho e história fazem nova história e despertam novos sonhos.


O homem de valores, roupa preta, pai,

Catador de latas,

Virou sonho.


(Marcelo Ribeiro e Flávio Chedid)

segunda-feira, novembro 17

Parceria Dialética

Fotografei um mundo caô,

Vi que ele era muito cão.

Ao fim,

E antes que a noite acabasse,

Me pus a lembrar

Dos momentos que congelados

Ficaram foto-grafados.


No movimento da vida,

Não há foto-grafia

Que congele o sentimento.


O sentimento existe,

Embora seja outro.

É mais um sentimento de resgate

do sentimento que foi,

o que em si é um sentimento novo.


A saudade transforma o sentimento

Em Sentimento.


Os instantes são únicos

Melhor às vezes esquecer as fotografias,

Deixar a pose,

Mergulhar na vida,

Sorrir com a lembrança

Do instante não congelado.


No ir devir da Maré,

Encontrei novas foto-grafias,

Agora em movimento,

Dançam, balançam, enchem,

Engendram um pensamento

Que incita um novo viver.


O movimento é transformação.


(Wendell Ficher e Flávio Chedid)

sexta-feira, fevereiro 22

Recíproca

Uma profunda vontade de dizer o que vem à mente
Uma necessidade ímpar de compartilhar as angústias vividas
Uma oportunidade única de fundir as vidas,
De fazer dos nossos desejos íntimos,
Segredos.

Embora segredos sejam feitos para ser contados,
A idéia de que teu segredo foi revelado
E, sobretudo, aceito,
Ajuda a suavizar as regras que te foram ensinadas
E que de certa forma ajudas a prosseguir.

Nada, nada, nada no mundo substitui a sensação da reciprocidade
Do amor da amizade.

A admiração quando retornada
Facilita as dificuldades da vida
E retira a importância das deusificações desnecessárias.

Ah, se soubésseis o quanto que vos estimo!
(sem deusificação)
Com uma enorme vontade, quiçá necessidade,
De aceitá-los exatamente como são
(talvez por uma vontade estúpida de diminuir as minhas cobranças).

Tenho certeza da maior fluidez de seus pensasentimentos
(embora alguns já tenham uma fluência excelente),
Quando são tudo que podem ser.

A vontade de tê-los por perto toda vez que sinto o melhor de mim,
Denuncia o amor mais sincero,
Embora haja nesse desejo uma autopropaganda,
O que não acredito diminuir a intensidade do companheirismo aí presente.

Deixando de lado as generalizações
E com uma enorme vontade de declarar,
Tenho ao meu lado doçuras tão belas
Que ao mesmo tempo em que compartilham comigo as amarguras da vida,
Exalam perfume, vontade de entender,
E sonham com o que os que os sabidos da vida consideram utópico.

Mal sabem que a utopia é o não-lugar do presente,
Mas que tem uma influência única sobre o futuro,
Ou não é o futuro construído pelos mesmos seres capazes de serem utópicos?!

Dito o que veio a mente,
Declaro a vocês todo amor que me fazem sentir.

quinta-feira, fevereiro 14

Filha do Paul

A menina Clara gostava dos momentos em que ouvia música e tinha certeza de que o minuto seguinte seria mudado repentinamente. Quando ouvia She´s leaving home sabia que Paul era o homem de sua vida e que a solidão que sentia em seu quarto era compartilhada por ao menos mais uma pessoa nesse mundo. Sentia uma força imensa e alimentava sua coragem ao ouvir a história contada por Paul da menina que saía da casa dos pais depois de viver só por muitos anos.

Após disso, a vida lhe trazia uma dose de realidade que não gostava de sentir, causava desconforto, pois lhe confundia a cabeça. Os papéis não eram tão bem definidos, o que queria não estava tão claro. A única certeza que continuava a ter era de que Paul era o homem de sua vida, pois conseguia caminhar pelos dois pólos que a atormentava. Podia ser tanto a menina que saía de casa como o pai que sentia a dor de sua partida.

Once there´s a way to get back home.

A frase poderia ser dita pela mesma menina, poucos anos depois.


A esperança de ter no fim todo o amor que produziu fazia com que Clara esperasse o fim com uma certa ansiedade. E pensava além, gostava de imaginar que o amor produzido em seu quarto solitário seria sentido e distribuído por alguém como Paul, ou que ao menos chegasse até ele pela inexplicável capacidade humana de transmitir os sentimentos dos quais não sabem a origem.

Clara sabia que se de certa forma avançávamos, isso nada tinha a ver com a ciência, mas sim com a capacidade humana de transmitir os pensamentos e sentimentos que nem sabiam de onde vinham.

Clara sempre sonhava, ao ouvir She´s leaving home, com um pai que desejasse como nunca tê-la.

quarta-feira, outubro 10

O poeta e o poema

Com traços fortes,
Riso frouxo,
E muitos dentes,
O poeta tornou-se um poema.

No centro da Lapa,
No centro da roda,
Vejo-o dissipar alegria não mais com palavras escritas,
Muito menos declamadas,
Mas com a leveza e constância de seu sorriso
E com os ouvidos atentos de quem sabe enxergar o outro.

Sem a necessidade de palavras,
Que emprega como ninguém,
O poeta risonho tornou-se sua melhor obra
E pude observar no mundo em sua volta
O resultado da irradiação de seus versos mais bonitos.

A prostituta,
O bêbado,
A criança,
O músico
E o suposto malandro,
Dançam, tocam e cantam próximos aos arcos,
Sob a regência do poeta.

Eu, também recebendo essa energia,
Descobri que quando o poeta vive aquilo que escreve,
Torna-se um poema
Com uma capacidade extremamente superior de despertar no mundo
A beleza da descoberta dos sentimentos.

quinta-feira, junho 28

Equitativa

E a idéia, quiçá uma ilusão, ou talvez uma pretensão pela dúvida, de que as nuvens, o pôr do sol e o mar não dependem de nós, me fez sentir um desejo enorme de vê-los do lugar mais bonito todos os dias para que eu tenha a esperança renovada cotidianamente para entender que apesar das nossas dificuldades de lidar com as dificuldades alheias o sol continua nascendo e se pondo sem ligar para as nossas crises existenciais.

Por ele mesmo

Enquanto te enterravam no cemitério judeu
do Caju
(e o clarão de teu olhar soterrado
resistindo ainda)
o táxi corria comigo à borda da Lagoa
na direção de Botafogo
as pedras e as nuvens e as árvores
no vento
mostravam alegremente
que não dependem de nós

(Morte de Clarice Linspector - Ferreira Gullar)

sábado, junho 9

Margem

Eu vivo à beira.

Sou, ou quero ser, um ser marginal.

À margem do supostamente trivial, eu vivo.

Busco a diferença em tortuosos e já conhecidos caminhos.

Nada de novo.

Eu sou uma inovação do velho.

Tento me diferenciar por uma neurose já conhecida,

por uma incesante mania de ser mais,

que quanto mais quer ser, menos é.

Experimento o sonho em dias reais.

Tenho os amigos dos momentos certos,

embora em certos momentos eles não existam.

Choro com filmes sobre humanos,

me emociono com os equívocos de ser.

Sou e esqueço que sou em dias cinzas.

Tenho pequenas emoções que me fazem sentir grande.

Tenho grandes descompassos que me fazem sentir pequeno.

Eu quero ter filhas.

Sonho com a continuidade da vida,

mesmo que marginal.

Dúvida

Eram tantas histórias, com tantos detalhes, com uma sutileza ímpar, contadas minuciosamente, que eu me perguntava: como essa senhora vive tantas coisas se gasta todo seu tempo contando o que supostamente viveu?

terça-feira, maio 29

A Procura

Procurei descansar até terminar o sonho, ignorando que sua razão de ser está em sua infinitude. Tentei por algumas vezes continuá-lo, agarrá-lo, não deixar que a imagem saísse de foco ou que virasse som de telefone. Em vão, levantei para o outro sonho, que há quem diga ser a vida real. Demorei a torná-la um sonho e não há quem me faça desistir, embora por vezes, assim como nos sonhos em que todos concordam ser sonhos, tenha vontade de pará-lo, torná-lo menos intenso, ou ao contrário, torná-lo ainda mais intenso justamente pela sua descontinuidade.

Levantei com uma calma digna dos fins de semana, preparei-me lentamente na busca do que havia perdido há uns meses atrás. Estava calmo, certo de que o deixara em algum livro, caderno, no bolso de alguma calça jeans ou atrás da cama. A calma devia-se ao fato de saber que só achamos coisas, sobretudo quando importante, quando não as procuramos.

No caminho da ilha em que trabalho, tive a impressão de tê-lo encontrado em algumas músicas, mas a estranha fluidez do trânsito, impediu-me de vê-lo como um todo. O espaço em que tento transformar em arquipélago de sonhos por meio do compartilhamento de idéias dos que também ampliaram as suas idéias de sonho é um ambiente também propício ao desfacelamento do sonho contínuo, dividindo-o por conta da racionalidade excessiva ali presente.

Ao chegar no pequeno espaço que divido na ilha, sorri com os rostos expostos dos que há muito transformaram suas vidas reais em sonhos continuados. Os rostos expostos pelo amigo da vida toda, sorriam. Mesmo os sisudos. O amigo da vida toda, que expusera os rostos, encontrava-se angustiado pelo contato excessivo com os de racionalidade excessiva. O procurei para opinar sobre a necessidade de ceder em determinados momentos.

Certas práticas no pequeno pedaço da ilha quase me fazem acreditar na divisão sonho/vida real, mas logo me deparo com as marcas de quem já travou essa luta antes e as acho mais bonitas dos que as faces limpas dos que acreditam ter chegado à verdade.

Saio antes da ilha disposto a encontrar o que havia perdido em uma história há muito travada contra ou a favor da instituição mais antiga então vigente. Dei de cara com faixas, fruto da contemporânea luta que não sei ao certo ser a mesma que travo. Aliás, travo eu uma luta?

Procuro manter a estranha calma da manhã. Ando lentamente pelas ruas do novo bairro em que vivo em busca de novidades. Procuro o que havia perdido em algumas lojas, rostos e telefonemas não atendidos.

No fim da noite, início da madrugada, após voltar de um ritual dos que acreditam na separação sonho/vida real, que estranhamente gosto, procuro mais uma vez a lentidão da manhã, não muito normal pra mim. Procuro em pratos de comida, taças de vinho, páginas de livro e me convenço que só o encontrarei quando não mais procurar.

Descanso com a calma da manhã.

quinta-feira, março 15

Reverência

A esse coração que quer o mundo,
que quer partir e depois juntar tudo
que quer compartilhar todos os sentimentos egoístas,
que deseja companhia quando uma luz se acende
e evidencia toda a estupidez
do ciúmes,
da inveja,
da vaidade,

eu reverencio,
pois é o único que tenho.

sexta-feira, março 9

Pieguice gostoooosa

Hoje o meu dia amanheceu assim:
As palavras finais estão prolongaaaaadas,
Os textos que leio estão tão boniiiiiitos,
A saudade que bate apertaaaaada,
O carinho que cresce comigo.

Estou com aquele olhar vivo dos dias booons,
Sem a vista enevoada dos nem tanto,
Com uma clareza boa do meu sentimento
E sem o medo inútil que paralisa.

A violeta tá floriiiiida,
O quixote imponeeeente
O matin verdiiiiiin
Os miquinhos escondidos.

Hoje eu tô aberto pra balanço!

Desejo indesejável

As garras que te mostro,
O canto que te canto,
Os poemas que te escrevo,
O pranto que a ti confesso
O eu que sou teu

Não são suficientes para que esqueças
o que foi?
O que já passou e só ganha espaço
Porque não é mais?


Ainda bem que não...

segunda-feira, fevereiro 19

Quase 4 meses

E sigo sonhando
e sigo vivendo.

Vivendo sonhando a vida que o sonho me trouxe.

Pra ele acendo uma vela.

Andressa

Não mais que 9,
menina.

Com a toalha sobre os ombros,
evita a dor que o peso das bebidas
pode causar em sua coluna de
menina.

Aprende rapidamente a dissuadir
e facilmente esconde a sua face de
menina.

Menina,
não mais que 9,
sonha com o dia em que a tratem como
menina.

Em que não mais precise
usar as forças que não tem
para sustentar o peso das latas
que destróem a sua coluna de
menina.

Faz doer a minha alma
pela possibilidade de ser
a minha menina,
que antes dos 9
se utiliza de uma toalha
para diminuir a dor
que não sabe ser causada
pela frieza dos que não entendem nada de
meninas.

Só sentimos por conta da possibilidade de vivermos,
se é que me entendem.

sexta-feira, fevereiro 9

Dorme

Quando dormes, pareces o anjo que imagino
Quando acordas, és a mulher que desejo
Quando desejas, sou o homem que queres
Quando queres, nem sempre te satisfaço.

Diferimos em número, gênero e grau
Assemelhamo-nos em número, gênero e grau
És singular quando sou plural
Sou plural quando és singular.
Por vezes convergimos.

Se queremos de nós algo maior,
Se queremos dar fruto a outro ser,
Precisamos convergir na divergência
E buscar nos dias tortos,
A congruência de nossos passos tortos.

Não sei o que nos espera,
Além de uma lembrança eterna,
De um carinho gigantesco
E de um amor já sentido
Que nunca se “dessente”.

Seja lá o que for, meu bem,
Seja lá quem encontremos nos blocos
E o que o for acontecer,
Já te amo para sempre.

Poucos entendem o para sempre,
Mas certo de que sabes
Que certos sentimentos são eternos,
Por mais que momentâneos,
Deixo-te em paz,
Na calada da noite,
Pois assim a vida te quer.

Doce, suave, áspera, fogosa,
Cínica.

Te amo!

segunda-feira, janeiro 29

Sem saber

Faz tempo que aqui não falo de Clara, o que não quer dizer que a tenha esquecido. Depois de 4 longos meses, continuo a história da menina que me ajuda a compreender algumas de minhas dores, abrindo e fechando portas. Quatro meses em que recontei o que dela sabia, guardei coisas mais íntimas, encontrei uma carta da doce menina e preferi me calar por não saber ao certo o que ela gostaria que outros soubessem. Hoje, desisti, por achar que ninguém tem o direito de cobrar o silêncio de ninguém.

Clara dizia se incomodar com o mundo das palavras. “Por que não optamos pela linguagem dos olhares? As sobrancelhas dizem mais que juras de amor”, costumava dizer a menina. Já havia experimentado duas ou três vezes a paixão. A dúvida deve-se ao fato de uma delas ter se revertido no sentimento oposto, o que a fazia optar pela renúncia do que, de fato, havia sentido. Clara ainda não havia descoberto que só quem tem o poder de nos causar dor, é quem assume um lugar tão grande no coração que é capaz de comer um pedaço dele. Clara não teve tempo de descobrir que o coração também se regenera, que o sol nasce e se põe independente de suas dores e que fora dela havia uma infinidade de sentimentos esperando por alguém.

Nessa paixão renunciada, Clara nunca soube dizer ao certo o que sentia. Na dor sentida, também não. Preferia a negação. Mas sabia que em alguns momentos seu corpo dissera mais do que qualquer palavra poderia dizer, como no dia em que ainda menina se entregou nua, sem dizer uma palavra, pedindo para que o jovem rapaz de cabelos crespos, também nada dissesse. Clara esperava dele todo o carinho que seu corpo pedia, mas o jovem rapaz, que nada entendia de linguagem dos corpos, não compreendeu. Se ela dissesse algo, tampouco entenderia.

Para o entendimento entre duas pessoas necessita-se mais do que palavras ou linguagem corporal. É preciso sintonia, que por vezes nem o amor é capaz de gerar. É preciso renúncia de verdades e, inclusive mágoas, para que a comunicação se dê de forma clara. E Clara não soube, nem pôde renunciar suas mágoas. É preciso tempo e maturidade.

Sem saber, Clara guardou o sentimento que só alguém com aquela importância poderia gerar. Nunca soube expressar o que sentia com relação ao rapaz. Deixava em sua dúvida quanto à paixão sentida, a maior prova pros que soubessem de sua história de que a mágoa era a única forma de expressar a maior paixão que já teve. Para perdoá-lo, era necessário que não mais sentisse a paixão e dor que ele lhe causava. Sem saber, cultuava sua dor.

terça-feira, janeiro 9

Desejo boooobo

Eu, no auge da bobice,
queria que as pessoas carameladas da minha vida,
estivessem conectadas por um fio
ou por um mega infra moderno,
para que eu não perdesse nenhum comentário importante,
desses que caem de repente na cabeça,
perdem a graça logo e,
mesmo que encontre o caramelo 10 minutos depois,
não tem mais graça.

sábado, novembro 18

Palavras-chave

Você é uma lindeza tão linda
e um doce tão doce
que só do mais escondido esconderijo
consigo enxergar
a bela beleza
do seu olhar doce, lindo, escondido e belo.

Eu sou uma imperfeição ambulante,
em busca da perfeição ambulatória,
que nem medicar a minha médica
consigo
diante das minhas doenças doentias.

Extrapolo os limites da individualidade
e só enxergo a minha feliz felicidade
porque já tive minha tristeza extrapolada
pelas cegueiras da reciprocidade
que inventei na criativa mente e pensamentos
que crio a cada segundo de vida vivida.

Também peço-te perdão
pela imperdoável mania de querer
me desculpar pelas culpas presentes
nas ausências do meu ser.

Quando ausente,
sinto-me apenas
esquecendo o que vem do lado de lá,
pedindo pra ficar.

Queria dormir ao seu lado agora.

domingo, novembro 12

Resíduos

E realmente, de tudo fica um pouco.
Sobretudo do que um dia fora tudo.
Do pouco, nada fica.

Caderno de Belezas

É que mesmo com tantos murros e pontapés,
existem abraços tão sinceros,
sorrisos tão doces,
lágrimas tão amorosas,
que me dá uma vontdade de acreditar no mundo.

domingo, outubro 29

Pa!

Estive em Flori,
onde um PM me chamou de guri,
onde andei idealizando pessoas
e percebi,
que apesar das diferenças culturais,
há uma lógica regente:
a lógica dos plurais,
a lógica do amor.

Um homem de bar,
desses que quase não falam,
me mostrou,
em meio a discursos e discussões,
o imensurável amor que o rege
e me arrancou lágrima dos olhos
em um ambiente onde homens não choram.

Com olhos de quem continua aprendendo,
e guarda na profundeza dos olhos lacrimejados
a imagem da filha -
a bela Julia Gabriela -,
o homem simples de bar
externalizou a beleza de ser,
a beleza do amor,
a humanidade que o rege,
contradizendo os sabidos da vida -
normalmente com as calças acima dos umbigos -,
que gostam de teorizar sobre a natureza humana.

A natureza humana, ora pois,
pressupõe naturalidade,
e não pode ser entendida em um mundo artificialmente construído,
em que desejos são "desejosamente" manipulados.

Muita gente morre sem descobrir sua natureza,
achando natural dedicar a vida
a construir a morte,
a alimentar a artificialidade humana.

Dinheiro e poder são criações humanas,
portanto artifícios,
embora tenham se tornado fins,
que arrogantemente do lugar de onde falo,
afirmo que não levam a nenhum sentimento
perto do que tive em Flori.

No caminho,
solucei
e
exorcizei,
ao menos por um instante,
as artificialidades presentes em mim.

Vi um pouco da minha natureza,
embora hoje a artificialize com palavras -
criação humana -
a serem aprovadas.

Andei por Flori,
Chorei por Flori,
Fui, do verbo ser,
em Flori.

terça-feira, outubro 10

Da Lagoa

Se ontem fui, por que não serei amanhã o que ainda sou hoje?

De São Gabriel

Sim, tudo é certo logo que o não seja.
Amar, teimar, verificar, descrer.
Quem me dera um sossego à beira-ser
Como o que à beira-mar o olhar deseja.

(Fernando Pessoa)

sexta-feira, setembro 15

Harmonia dos sentidos

Quando os olhos entravam em sintonia com as glândulas lacrimais, os ouvidos faziam pelos se arrepiarem e subia pelo corpo toda a plenitude do momento, em que celebrava, sobretudo, o presente, Clara pensava: quem me dera agora ter comigo um violão e saber tocá-lo. Apesar das inclinações musicais, a menina nos 20 anos vividos não tivera tempo pra se dedicar ao talento que ainda não sabia que tinha.

Talvez isso permitisse a Clara ir além. Não parando para compor, tocar, escrever, Clara ia além nos seus sentimentos. Não os cortava, sentia apenas. Não havia registro formal de grande parte dos sentimentos de Clara, mas muito deles ficaram nesse quarto que hoje habito. Nem todos imateriais.

Hoje sinto Clara de diversas maneiras, mas tudo começou com rabiscos em uma folha de papel encontrada em um armário embutido da cozinha. Não fazia muito sentido ter sido guardado, parecia algo esquecido junto com louças, que de tão velhas, não pude utilizar.

Há homens grandes pensando no amor,
E isto não é uma questão de estatura,
Hoje chorei ao pensar junto na ternura
De um pequeno grande ator.


De fato eram rabiscos. Ao lado do pequeno texto, coisas sem sentido, provavelmente escritas quando Clara falava ao telefone. Nomes de pessoas de cabeça pra baixo, com desenhos abstratos e números tentando dar uma ordem à bagunça feita.

Esse foi o primeiro contato que tive com a menina que sabia voar, sobretudo quando os sentidos se harmonizavam.

segunda-feira, setembro 11

Instante de Amor

Me ame apenas
no preciso instante
em que me amas.

Nem antes,
nem depois.
O corpo é forte.

Me ame apenas
no imenso instante
em que te amo.
O antes é nada
e o depois é morte.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Desistindo da insistência

Clara, com seus dedos finos, personalidade forte e olhar dissimulado, não conseguia entender a hora de deixar. Tudo parecia desistência e Clara não entendia que continuar, por vezes, era uma desistência. Clara, com seus dedos finos, personalidade forte, olhar dissimulado e persistência poucas vezes desistia. E não entendia que a insistência, por vezes, era uma desistência.

Clara, com seus dedos finos, personalidade forte, olhar dissimulado, persistência e ingenuidade dava murros em ponta de faca. Clara seria capaz de voar pela janela. Clara não seria capaz de se suicidar. A ingenuidade de Clara parecia insana aos insanos realistas. Clara sabia voar, ao contrário dos insanos realistas, parasitas da história.

Sua mãe nunca lhe dissera, mas era a mistura de dois grandes nomes. Clarice com Laura. Clarice e Laura nunca se conheceram, passaram por momentos distintos na vida da mãe de Clara. Ambas sabiam voar, ambas tinham inclinações musicais, ambas sabiam amar. Clara fora muito idealizada, como toda criança. Clara tinha passado, entendia de história, motivo pelo qual não desistia. Clara persistia proque entendia de história.

Olhando para o mato escuro, ouvindo música nova, Clara insistia na desistência. Clara, entretanto, desistia da mediocridade dos parasitas da história. Clara tinha o que aprender sobre o amor. Clara tinha o que ensinar sobre história.

Mesmo com os desencaixes

A vida é a arte do encaixe.

quinta-feira, setembro 7

A janela de Clara

Sentada nessa mesma posição, olhando pra mesma mata, pensando também em andar pelo telhado, procurando o mico que outrora vira e embargando a voz pra pronunciar o nome de quem, há pouco, estivera com ela olhando a mesma mata.

A menina que nessa casa morou, fruto da minha imaginação, também pensava nos que antes dela aqui estiveram, sonhando com um mundo dos que sonham, dos que acreditam que constroem a história, dos que constroem. Sonhos não envelhecem nem morrem.

A menina de cabelo curto desalinhado, de traços fortes, porém delicados, captava os sonhos dos que antes dela estiveram aqui. Sonhos que ficam no ar, que não a deixava esquecer a sua continuidade no mundo, mesmo sabendo que um dia também viraria pó. Clara não se conformava com a estupidez dos que, não entendendo a citada continuidade, destruíam as condições físicas do planeta, que a cada dia se mostravam mais perecíveis.

Clara gostava da mata que olhava pela sua janela, a via como uma faixa de resistência à destruição das condições físicas do planeta. Homens, cada vez mais egoístas e burros, sabendo da sua limitação física na terra e não entendendo a continuidade dos seus sonhos, ameaçavam toda a existência e a afirmação de que os sonhos não morrem. A limitação física do planeta ameaçava a eternidade dos sonhos de Clara e dos que antes dela aqui estiveram, sentados nessa mesma posição, olhando pra mesma mata, pensando também em andar pelo telhado, procurando o mico que outrora viram e embargando a voz pra pronunciar o nome dos que, há pouco, estiveram com eles olhando a mesma mata.

quarta-feira, setembro 6

Fragmentos

Choro não só pelo que foi
Choro não só pelo que dói
Choro não só pelos nossos erros
Choro não só pela música
Choro não só pelo não feito

Choro também pelo que ficou
Choro também pelo que virá
Choro também pelos acertos que tivemos
E por todas as músicas que não consegui te mostrar
Assim como filmes e pedaços de mim.

Dificuldades Manuais

Sempre tive dificuldades em escrever à mão
Com a esquerda nunca
pude executar bem as coisas
que me pedia.
A firmeza da direita nunca tive.
Trêmula se me mostra às vezes.
Com a idade não poderei tomar sequer uma xícara
de café.
Mas posso ainda dar um murro na mesa
ante a atual situação ou sobraçar um montão de rosas.
Bem, neste caso, quem treme
é o coração.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

Presente

O que te dar neste dia?

O que te daria eu ontem
quando nem te conhecia?
E amanhã, o que darei
se hoje não te dei
o que devia?

O que te dou é apenas
sombra do que querias
Dou-te prosa, e o desejo
era dar-te poesia.

(Affonso Romano de Sant'Anna)

domingo, agosto 13

Apego

E no exato momento em que a caneta parou no papel, em que as palavras precisaram ser inventadas – e não mais expurgadas, como de costume -, percebeu que havia algo de podre no reino encantado.

“Moça dos olhos lindos (trocou menina por moça),

Preferi as páginas em branco pra poder criar em cima do nada, em cima do novo (de fato, precisavam de algo novo)”.


...
A caneta parou...

Tentou a partir de então se explicar: porque escolheu a página em branco e não um cartão apapagaiado que os namorados costumam dar, porque a escolheu sabendo de todas as complicações que isso causaria (sim, já sabia), porque escrevia essa carta de maneira tão idiota e, finalmente, porque ela não fluía e porque havia vários pontos no papel de caneta parada.

A carta, que nunca fora carta, tinha muitos pontos manchando o papel e não fosse o choro seco que o atormentava neste dia, os pontos de caneta seriam manchados pelas lágrimas, que rolavam internamente e se acumulavam em algum depósito lacrimal. Seria essa a razão das mudanças no seu corpo?

O choro seco é corrosivo

Carta pra ser carta precisa ser entregue, mas choro pra ser choro não precisa ter lágrimas. Chorava pela carta que não era carta. Precisava torná-la carta ou parar de precisar disso. Precisava desaguar, talvez precisasse corroer.

O apego é corrosivo.

Precisava corroê-lo porque não é possível eliminá-lo de uma só vez.

Ápice

Aproveito o auge da minha bipolaridade

segunda-feira, agosto 7

Dias assim

Dias de sim
Dias de não
Dias de quanto
Dias de tão
Dias de muito
Dias de pouco
Dias de graça
Dias sem graças
Dias de dia
Dias de noite
Dias de domingo
Dias de sábado
Dias de luta
Dias de preguiça
Dias de santo
Dias nem tanto
Dias quentes
Dias mornos
Dias de paixão
Dias de desamor
Dias de carinho
Dias de dor
Dias de cão
Dias de ressaca
Dias normais
Dias cansados
Dias demais

Demais, demais,

Porém com a absoluta convicção de estar vivendo os melhores 80 anos da minha vida

sexta-feira, julho 21

Comigo

Se você vier pro que der e vier
(...)
Se você vier até onde a gente chegar
(...)
Se você quiser e vier pro que der e vier comigo
(...)
Eu lhe prometo o sol

(Geraldo Azevedo/Renato Rocha - Dia Branco)

quinta-feira, julho 20

Codinome

E espero que o mais honestos dos sentimentos esteja a flor da pele quando o beija-flor te olhar pela janela. Ontem um pousou por aqui, me olhou de lado e me assustei. Nem sempre estamos preparados para o belo. Praticamente o expulsei.

quarta-feira, julho 19

Ascendente

Adoro manter acesa
a chama que me faz ascender.

sábado, julho 15

Game

Em noites de dia,
Me chame.

Dos falsos amores,
reclame.

Nos sábados quentes,
proclame.

Nos dias de noite,
Me ame.

Ideologia

23,
Dizem que é uma questão de idade
Penso que é uma idade de questões.

quarta-feira, julho 12

Um pouco mais

Quando o meu bem-querer me vir
Estou certa que há de vir atrás
Há de me seguir por todos
Todos, todos, todos os umbrais

E quando o seu bem-querer mentir
Que não vai haver adeus jamais
Há de responder com juras
Juras, juras, juras imorais

E quando o meu bem-querer sentir
Que o amor é coisa tão fugaz
Há de me abraçar com a garra
A garra, a garra, a garra dos mortais

E quando o seu bem-querer pedir
Pra você ficar um pouco mais
Há que me afagar com a calma
A calma, a calma, a calma dos casais

E quando o meu bem-querer ouvir
O meu coração bater demais
Há de me rasgar com a fúria
A fúria, a fúria, a fúria dos animais

E quando o seu bem-querer dormir
Tome conta que ele sonhe em paz
Como alguém que lhe apagasse a luz
Vedasse a porta e abrisse o gás

(Bem querer - Chico dos olhos d'água)

Todas, meninas

segunda-feira, julho 3

Essência

E no louco universo da família -
Em que por vezes reina a hipocrisia -,
Podem ser encontradas
As mais belas manifestações
De carinho, ternura
e Abdicações.

Universo paralelo em que nesse
Mundo vasto
Vasto mundo
Temos a real dimensão
Da importância de sermos,
Ora ofuscada pelo emaranhado
De pessoas e egos.

quinta-feira, junho 29

PS

Um coração quando chora,
Precisa ser ouvido.
Há um tanto de lágrimas
Capazes de mudar o curso das coisas.

Um coração quando arde,
Precisa ser estimulado
Antes que o fogo cesse
E retorne à mediocridade dos dias mornos.

domingo, junho 18

O adeus dos sonhos

Os sonhos iam viajar. Helena ia até a estação do trem. Da plataforma, dizia adeus aos sonhos com um lencinho.
(Livro dos Abraços - Eduardo Galeano)

quarta-feira, maio 17

Post Novo

Hoje eu quero pensar no que nunca senti. Todo sentimento novo me faz pensar no que nunca senti e talvez no que nunca irei sentir.

É uma sensação maravilhosa,
Por mais que ansiosa,
De todas as possibilidades que a vida reserva.

Viajarei de avião pela segunda vez,
E isso me arrepia,
Pois da primeira,
Talvez por sê-la,
Tive uma sensação nova,
Dessas maravilhosas,
Que por mais que ansiosas,
Causam a esperança supracitada.

Percebi, ora bolas,
A minha insignificância,
Perante a imensidão de tudo.

Não ria, menina,
Eu achava que era grande,
Embora seja,
Mas eu achava que era maior,
Maior do que sou, sabe?

Achava que o mundo dependia de mim.
Não ria, poxa,
Eu achava mesmo,
E pior,
Achava que gostava disso.

Gostava não,
Eu gosto dessa sensação de leveza,
De pertencimento,
De poder quebrar o pé,
Sem que haja um colapso,
(Por mais que goste também da falta que causo –
Humanóides egocêntricos)

Hoje eu te quero,
Muito mais do que um dia pude querer ser maior,
Mesmo porque eu só achava que queria.
Queria não.

Te quero com meu coração,
Com meu corpo,
Com minha boca,
Muito mais do que com meu ego,
Por mais que o alimente.

Te quero minha, mesmo que livre,
Te quero linda, mesmo com rugas,
Te quero feliz, mesmo que continue buscando.

Ai, essas pessoas não entendem nada de antônimos!

domingo, maio 14

Big Brother

Parceiro de festas, sonhos
E realidades,

Nos dias virados,
Em que pesaram a fragilidade
E evidenciaram-se minhas imperfeições –
Tão imperfeitamente escondidas -
Pude sentir no teu afago
Um acolhedor carinho humano -
Meu coração, meu nariz e meu pé te agradecem.

Nos dias de festas,
Vejo o esforço dos teus olhos -
Já tão miúdos normalmente -,
De ficarem abertos
Para aproveitarmos juntos,
Até a exaustão do corpo,
A beleza dos nossos dias,
Que sabemos
Finitos.

Nos dias de sonhos,
De vida comunitária,
De emancipação social,
De igualdade de oportunidades,
Procuro a tua aprovação na luta diária,
Mesmo que discorde,
Como um menino que precisa ouvir o irmão mais velho.

Voemos, portanto,
Sem medo de avião.

sábado, maio 6

Entregue

Amigo dos dias difíceis,
Se peço socorro pra ti,
É por que enxergo e sinto
Na beleza dos teus olhos e da tua alma
O conforto que necessito
Pra levar a vida com mais leveza.

Encontrando os meus defeitos nos teus,
Me faço humano,
Me desfaço do pano,
Que por muito desengano,
Me separa dos seres errantes.

Amo-te,
Assim como tuas idéias,
Que por vezes concretizamos
Em cartas sonhadoras e utópicas.

Utopias vividas,
Pois acredito na vivência da imaginação,
Mesmo que momentânea.

Sei, que o todo é feito de partes,
Assim como a vida de momentos,
Motivo pelo qual valorizo
O teu sorriso
E tua alegria revolucionária.

Comparo-os a um grito de liberdade,
Tão intenso e bonito,
Que me faz sentir saudade do presente
Mesmo incerto, tortuoso e errante.

Amo as entregas.

terça-feira, abril 11

Sinto que minto

Claro que sinto
E minto.
Minto que não sinto,
Mas sinto que minto que não sinto,
Portanto sinto.

Já que sinto,
O que faço então?

Se minto, também sinto que minto –
Mentira curta –
Logo percebo e sinto de novo
E sinto dobrado -
O já sentido e a sensação de mentira.

Minto pra mim, mas logo sinto.

O que faço então?

Aceito que sinto?
Mudo o que sinto?
Como mudo o que sinto?

Sinto,
Minto,
Sinto que minto,
Penso que sinto que minto.

Sensação quadruplicada.

Prazer de ter sensação, talvez.
Mas cansado do prazer mórbido.

Não quero mais sentir tudo
Pra não precisar mentir.

Sinto
E penso a verdade,
Meu rosto não nega.

Preciso me olhar de fora, por vezes.

sábado, abril 8

Ambas

Guardo e sugo teus olhos
Pra que nos momentos distantes
Em que tocamos nossas vidas
Possa sentí-las de fato -
A vida e tu.

sexta-feira, março 17

Gelatina

E a vida passa. E a vida passa. E a vida corre.

Por mais que tente pegá-la, agarrá-la, mesmo por um ínfimo momento, não conseguirás. É como uma gelatina pululante, que se esparrama pelos dedos, no difícil momento em que consegues tê-la em mãos. Aliás, não a tens em mãos. Ontem, alisaste a vida, eu sei, e achaste que fosse capaz de segurá-la. Ledo engano, menino inocente. Talvez porque esteja com a noção errada do que seja ter a vida em mãos.

Controlá-la?

Se é isso que pensas, pena de ti. Pois nunca conseguirás e mesmo que conseguisses, terias um insuportável sabor de chatice misturado com a amargura da onipotência, que a vida – essa mesma que não consegues agarrar – te fez ter. Controlá-la significaria perder o prazer – o maior da vida – do imprevisível, que te faz mudar os planos que tanto prezas, mas, que no fundo sabes, insuportáveis.

Agora, ter a vida em mãos pode ser a consciência de que não ela não é controlável e de que é o imprevisível, o não controle, o que mais te causa prazer. A tem em mãos no momento em que não a tem. Sim, sei que parece filosofia barata. Redefinirei.

Saber alguns dos meandros da vida, ou ao menos da tua vida, é a consciência necessária para te livrar das angústias da vulnerabilidade que sentes, pois tal consciência te mostra o quanto gostas desta gelatina pululante, desta incerteza diária, desta vulnerabilidade que tanto te angustia. Não pela angústia, mas pelo prazer da incerteza que te causa. Será que pela angústia também?

E a vida voa. E a vida voa. E se esparrama.

quarta-feira, março 8

Sou

Queria ouvir numa música algo parecido com que sinto. Mesmo que a música diga que não sabe dizer o que sente. Quero saber o que sinto ou compartilhar a ignorância dos sentimentos com alguém.

Algo como “meu coração, não sei porque, bate feliz quando te vê”. Ah, essa música é bacana, pois diz o que sente sem saber o que sente, já que não sabe o porquê.

Quero dizer o que sinto, sem saber exatamente. Por que precisaria saber exatamente? Mania de exatas. O mundo é viciado nas ciências exatas. Na lógica formal.

Quero sentir o contraditório. Matar a razão do filho da professora de matemática com dois sentimentos opostos. Quero amar o odiável e me permitir odiar o amável.

Tudo parece engraçado e ridículo quando exposto aos nossos julgamentos. Fodam-se. Fudamo-nos. Deixemos de ser ridículos e sintamos. As pessoas, as músicas, o vento. Mesmo que repetidas.

Mesmo que nossas. Mesmo que nossas. Mais uma vez, mesmo que nossas. Respeitemos os sentimentos. Mesmo que nossos. As músicas, mesmo que nossas. As pessoas, mesmo que nossas. Ops, ato falho, não possuo ninguém, por mais que queira.

Não me possuo. Não te possuo. Embora possuído seja.

“E lá se vai mais um dia”. Sinto-me possuído pelas melodias melodiosas. Aquelas que batem e ficam. Aquelas que ficam e batem. Batem e fazem bater ainda mais. Tenho um coração que bate, que sente. Tenho um coração. Não quero, necessariamente, com isso, ter mais. Mas é magnífica a sensação de ser. De ser humano. De ter um coração. De ter um coração que bate.

Ando descobrindo que sou. Por vezes “egocentro” as coisas, mas não necessariamente. Sei, nas profundezas da minha consciência que não há de ser só aqui que bate um coração. Felizmente, pois haveria de ser tedioso esse triunfo egocêntrico. Haveria de ser solitário. Não haveria de ser, aliás.

Ando descobrindo que sou. Que serei. E seres também.

terça-feira, fevereiro 28

Média

Caretice mesmo é o desregramento pelo simples medo da caretice. Desregramento que não respeita os limites suportáveis.

Pensamento um tanto medíocre, eu sei, mas prefiro ficar com as sensações que consigo bancar.

Nova sensação de mediocridade. Como se nunca fosse além.

quarta-feira, fevereiro 22

Presságio

Desde então

Presságio

Tão apressado

Que esperou

alisE

Olhos amedrontadores
Ou seriam assustadores?

Nada disso, são doces.
Só tem medo ou susto
Quem não os vê
Com a devida atenção
E não percebe que a força é frágil
Ou está na fragilidade
Dos olhos fortes.

E assim dizia os bobos idos de dezembro de 2005:

E volta a cara de bobo
Que de boba nada tem
Estimulada pela insistência
De viver algo além

Além do que se vê
Com os olhos fracos
E desatentos.

quinta-feira, fevereiro 9

O resto

Meio que estou,
Meio que sou,
Meio que vou,
Meio que cedo,
Meio que tarde,
Meio que noite,
Meio que bobo,
Meio que sério,
Meio que eu,
Meio que procuro,
Não tão despretensiosamente assim,
O resto.

Haverá?

Sim, sim,
Não sei quando,
Mas sei que,
Não sei quanto,
Mas sei se.

Futuro

Mais um daqueles,
Eu mando tudo pro alto
E faço de ti
O meu amor.

quarta-feira, janeiro 25

L(e)amb(r)ança

Sim, eu sei, menina,
Não é só isso,
Tem um tanto daquilo outro,
Mas é isso também
E isso é o que resta a ser feito.

As nossas melhores lembranças
E lambanças
Aparecem vez em quando
Pra desvirtuar as outras tantas em construção.

Não devem ser motivo de culpa,
Muito menos de desvirtuamento ou descontrução,
Pois como sabemos bem,
Toda essa vida nova se baseia e se constrói
A partir das lambanças passadas

Mas não me pergunte o que são as lambanças presentes
Nem o que fazer com elas.

sexta-feira, janeiro 6

Ai, a primeira fresta

Carlos amava Dora que amava Lia que amava Léa que amava Paulo
Que amava Juca que amava Dora que amava

Carlos amava Dora
Que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava Dito que amava Rita que amava
Carlos amava Dora que amava Pedro que amava tanto que amava
a filha que amava Carlos que amava Dora que amava toda a quadrilha

(Flor da Idade - Chico Buarque)

sábado, dezembro 31

Torres Ribeiro

Ana Clara,
Clara Ana,
Claríssima,
Aníssima,
Claro que é Ana,
Ana que é Clara,
Que clareia,
Que elucida,
Que apaixona.

Clarana,
Serás Ana e Clara
E do mais,
Apenas será
Como a vida a moldar -
Sem idealizações.

Porém, se fores clara
Como a Ana Clara,
Moldarás a vida
E as pessoas que por ti passarem,
Com a claridade de tua alma,
Idealizada por mim, é claro,
Que por mais que tente,
Sou humano.

quinta-feira, dezembro 29

Aprendizado

Procuro na gritaria noturna, mascarada pelo silêncio que chamam de calada, uma pequenina explicação pras doenças da alma e do ego a que todos estamos vulneráveis, mas que poucos querem(os) admitir. Não admissão que agrava o estado clínico, pois a falta de diagnóstico agrava a doença pelo fato de lidarmos com os nossos defeitos da mesma forma doentia e defeituosa que os causaram. Não saímos do ciclo vicioso, não aprendemos nada com o que se passa.

Por vezes, me sinto surdo. Parece que não ouço ninguém, a não ser a mim mesmo. Outras, parece que ouço demais. Pertenço ao mundo que critico, ao mesmo tempo em que pertenço ao mundo que amo. Colaboro com o mundo que critico, mas também sei que luto pelo mundo que amo. Não aprendi a lidar com a minha ambigüidade.

Quero gente, amar gente, largar esse amor platônico e doentio que só sabe idealizar personagens de contos de fadas. Tenho a convicção de que me aceitarei muito mais como gente, ambíguo que sou, quando minhas paixões, amores e até desamores, forem gente ao invés de mocinhos e vilões.

Sim, sentirei falta do amor rasgado, inexplicável, apesar de tentar empalavrá-lo o tempo todo, sem fechar a minha matraca, racional que sou. Foi-me útil por mostrar que o sentimento é meu, direcionável para pessoas diversas, porém específicas.

Mas preciso me desvencilhar do que me foi útil. Quero encontrar pessoas para me aceitar como tal e, quem sabe, parar de escrever bobagem.

quinta-feira, dezembro 22

Mudo

Me impressiono neste momento da vida, linha tênue que divide o menino em dois, com dois tipos de coisas: as que estão mudando e as que não estão mudando.

As que não estão mudando talvez seja o eu, que procuro há tanto tempo, nesse emaranhado da vida, que nos confude com o que gostaríamos de ser.

E ser é o que gostaria(mos) de ser.

Eu amo tudo o que foi

Tudo que já não é,
A dor que já não me dói,
A antiga e errônea fé
O ontem que dor deixou
O que deixou alegria
Só porque foi e voou
E hoje é já outro dia.

(Fernando Pessoa)

terça-feira, dezembro 20

Azedou

Eu sei, foi um doce te amar
O amargo foi querer-te pra mim

(Rodrigo Amarante adaptado)

quinta-feira, novembro 10

Why (Uai)?

Mas pra quê,
tanto não-sei-o-quê,
se no meu colo,
mocinha,
você vira um bebê?

quarta-feira, novembro 9

Fato amarelo real

E lá na vilazinha da Rua Ipiranga, a moça vira para a menininha com não mais de 4 anos e diz:

-A minha casa é a mais bonita da vila!

A menininha, sem pestanejar e sendo política e poética ao mesmo tempo, respondeu:

-Não importa, a minha é a mais amarela!

A Origem do Mundo

"A guerra civil da espanha tinha terminado fazia poucos anos, e a cruz e a espada reinavam sobre as ruínas da República. Um dos vencidos, um operário anarquista, recém-saído da cadeia, procurava trabalho. Virava céu e terra, em vão. Não havia trabalho para um comuna. Todo mundo fechava a cara, sacudia os ombros ou virava as costas. Não se entendia com ninguém, ninguém o escutava. O vinho era o único amigo que sobrava. Pelas noites, na frente dos pratos vazios, suportava sem dizer nada as queixas de sua esposa beata, mulher de missa diária, enquanto o filho, um menino pequeno, recitava o catecismo para ele ouvir.
Muito tempo depois, Josep Verdura, o filho daquele operário maldito, me contou. COntou em Barcelona, quando cheguei ao exílio. Contou: ele era um menino desesperado que queria salvar o pai da condenação eterna e aquele ateu, aquele teimoso não entendia.
-Mas papai - disse Josep, chorando - se Deus não existe, quem fez o mundo?
-Bobo - disse o operário, cabisbaixo, quase que segredando -. Bobo. Quem fez o mundo fomos nós, os pedreiros.

(Eduardo Galeano - O livro dos abraços)

Foi

O passado é tão incerto quanto o futuro!

Livro dos Abraços

Hoje eu fui abraçado por um livro, pela segunda vez na vida. Verinha, que certamente não lerá isso aqui, foi um dos presentes mais belos que já ganhei. Precisava de um tiquinho de beleza hoje e ganhei um ticão. Descobri que tem que ler no máximo 3 páginas por dia e deixar derreter na boca.

Recordar: Do latim re-cordis,
tornar a passar pelo coração.

segunda-feira, novembro 7

A imbecilidade humana não tem limites

Enquanto comemorava algo estúpido, li isso:

06/11/05 20:22-Torcedor do Bota morre em confronto com Flamenguistas- jovem de 20 anos é atingido por golpes de foice na serra que liga Volta Redonda ao Rio

Preferia que o flamengo nunca tivesse existido a ler isto.

quinta-feira, novembro 3

Sim, são infelizes

O prazer da generosidade
É pra poucos.
Não me sinto mais bonzinho que ninguém,
Apenas mais inteligente

Desfruto do prazer do bem.

sexta-feira, outubro 28

...

Em tempos de eu, o projeto mais revolucionário do qual tenho ouvido falar é a tentativa de diálogo.

Mentirinha branca

A dor da vida (,)
Querida,
Tem cheiro de alecrim,
Que eu não conheço,
Mas sei que é assim,
Só porque diz na música
Da Adriana Partimpim.

sexta-feira, outubro 21

Educa a dor

Que ela passa
Ou apenas obedece?

quarta-feira, outubro 19

Gotículas

Você parece um anjo caído,
Que embora em terra,
Permanece no céu
Com uma maturidade infantil,
Observando meus espasmos de alegria
- Que o prático desdenharia –
Com a doçura de seu olhar juvenil
E a sapiência da sua mente adulta,
Que luta.

Mesmo sabendo que não passam de espasmos,
Me devota sorrisos dignos de outros espasmos
E me diz do fundo da sua sabedoria de criança
Que são os espasmos que nos dão a esperança
De um dia ver a Cecília e sua lambança
Ter espasmos mais freqüentes,
Que de tão recorrentes,
Deixariam de ser assim denominados.

quarta-feira, outubro 12

Suspiro

O romântico é um suicída
Tão cida
Que de tanto apontar a arma
Tomou um tiro
Sem apertar um gatilho

Tão ida
Que foi
Sem ir

Tão vida
Que morreu
De excesso

Tão cesso
Que viveu paralisado
Pelos egos super

Não cesse,
Vá,
Limite-se até o limitável
E suma quando preciso.

sexta-feira, outubro 7

Mas eu quero somar

Eu ainda não a conheço -
Sonho não vale.
E sei que mereço
Por motivos diversos.

O resto do que presto
Ainda posso raspar com uma colher
E entregar a ela.

Que coisa louca e complexa,
Viver parece um camaleão metamorfosiático
O que eu fui, sou e/ou serei,
Se confundem com o que sobrou.

É apenas uma conta de subtração.

Um tango pra vocês

Eu sei que determinada rua que eu já passei,
Não tornará a ouvir o som dos meus passos
Tem uma revista que eu guardo há muitos anos
E que nunca mais eu vou abrir
Cada vez que eu me despeço de uma pessoa
Pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela ultima vez
A morte, surda, caminha ao meu lado
E eu não sei em que esquina ela vai me beijar

Com que rosto ela virá?
Será que ela vai deixar eu acabar o que eu tenho que fazer?
Ou será que ela vai me pegar no meio do copo de uísque
Na música que eu deixei para compor amanhã?
Será que ela vai esperar eu apagar o cigarro no cinzeiro?
Virá antes de eu encontrar a mulher, a mulher que me foi destinada,
E que está em algum lugar me esperando
Embora eu ainda não a conheça?

Vou te encontrar vestida de cetim,
Pois em qualquer lugar esperas só por mim
E no teu beijo provar o gosto estranho
Que eu quero e não desejo,mas tenho que encontrar
Vem, mas demore a chegar.
Eu te detesto e amo morte, morte, morte
Que talvez seja o segredo desta vida
Morte, morte, morte que talvez seja o segredo desta vida

Qual será a forma da minha morte?
Uma das tantas coisas que eu não escolhi na vida?
Existem tantas... um acidente de carro.
O coração que se recusa abater no próximo minuto
A anestesia mal aplicada.
A vida mal vivida, a ferida mal curada, a dor já envelhecida
O câncer já espalhado e ainda escondido, ou até, quem sabe
Um escorregão idiota, num dia de sol, a cabeça no meio-fio...

Oh morte, tu que es tão forte,
Que matas o gato, o rato e o homem
Vista-se com a tua mais bela roupa quando vieres me buscar
Que meu corpo seja cremado e que minhas cinzas alimentem a erva
E que a erva alimente outro homem como eu
Porque eu continuarei neste homem
Nos meus filhos, na palavra rude
Que eu disse para alguém que não gostava
E até no uísque que eu não terminei de beber aquela noite...

(Raul Seixas e Paulo Coelho)

terça-feira, outubro 4

Tem que ir

Com a cara amassada mesmo,
Remela no rosto,
Bunda de fora e
Descabelado,
Porque se não for, não vai.

Tem que ir.

sexta-feira, setembro 30

Apesar de tudo...

... há o Arpoador,
Lennon e McCartney existiram,
Chico compôs com o Vinícius.

... as quintas feiras estão aí,
assim como as mesas de bar com o Césinha
e o novo, que traz tudo,
apesar de tudo

... somos o que somos,
apesar do que fomos,
já que na verdade sempre somos
um pouco do que fomos.

apesar de tudo,
que não é pouca coisa,
estamos aí...

... sou, quero, amo
....apesar de tudo

sexta-feira, setembro 23

Relatos ancestrais do ano de 2005

O elenco de Kids anda invadindo os lugares que freqüento. A “modernice” anda mais moderna que a modernidade. Dentro dessa modernice, os homens continuam livres, leves e soltos para fazer o que lhes convém. As mulheres continuam sofrendo com os seus desejos e pagando caro com o peso da culpa quando cedem. Alguns preconceitos ancestrais andam sendo vencidos, outros estão virando modernices. Correndo o risco de parecer reacionário, afirmo que o rock está cada vez mais reacionário. Acontece que a revolução aconteceu nos anos 60 e 70 e nada perto disso foi produzido nos anos subseqüentes. Há espasmos interessantes, mas o Jimmy Page continua sendo capa de jornal.

A gente se olha, se toca e se cala, mas continua se desentendendo no instante em que fala (Belchior, 1978). Meus velhos amigos continuam novos. As meninas continuam interessantes, apesar da culpa e da modernice exacerbada, chegando ao extremo nas danças em frente à caixa de som. O visual não é acompanhado de atitude. As atitudes ainda vestem calça boca de sino.

Minha mãe continua fazendo aniversário. Eu continuo o mesmo. Não, não, não. Eu ando mudado. Mudado e mudando. Particípio e gerúndio. Ando pensando em sair de casa para uma outra casa, na qual as dificuldades venham a me facilitar as coisas.

Ando pensando em paz. Ando pensando em rede. O mundo continua rápido. As frases continuam curtas, como os cabelos. E as palavras continuam parcas. Ou será que é o impronunciável que continua extenso?

Continuo. E descontinuo. A vida, a história e a música são feitas de ruptura e continuidade. Sou uma ruptura contínua. Envelheço para o novo.

Continuo amando.

quarta-feira, setembro 21

Boçal do bem

Eu te amo tanto, que não te digo
O quanto te amo tanto.
Porque tanto é tão grande
Quanto o medo de te perder.

Hoje eu não queria ser boçal
Como estou sendo agora,
Mas tampouco queria ser falso.

Não queria querer tanto
Nem queria temer o quanto
Porque nunca se sabe o quanto é seu
E o quanto é meu.

E essa mania idiota de querer saber
Só completa a boçalidade
Que é ainda agravada pela vontade
Necessidade,
Sei lá o que,
De não ser boçal!

Seu boçal!

terça-feira, setembro 20

Água Viva

Sábado de sexta mal dormida. Uma rede úmida. Um ela chamado Clarice. Busco o instante matematicamente com o delta t tendendo a zero. Busco o instante da vida, quando o cantar do passarinho é. Não é uma pausa. Ele é e continua sendo. A vida é feita de instantes. Feita de “É”s. A vida vale a pena quando feita de “É”s bonitos. Essas frases bobas são bobas, mas são partes dos meus “É”s de sábado de sexta mal dormida e me recuso a apagá-las.

“Estava com saudades das novidades do sonho”. No sonho se é e mais nada. E justamente por ser, e apenas ser, me liberto de amarras e me embasbaco muitas vezes ao me deparar com gênios dentro do meu sonho. Gênio por ser, apenas por ser e justamente por ser. É gênio quem é e só se preocupa em ser. Não em ser gênio. Ser apenas. A preocupação de ser gênio não é uma preocupação de ser, e sim de ser gênio.

Ser. Ser (ponto).

“Lembrar-se com saudade é como se despedir de novo”. Prolongamos despedidas quando queremos que nossos “É”s continuem sendo. Queria me despedir das despedidas. Ao invés do sou, vivo no fui. Fui. Quero ir. Quero dizer fui pra ser. Ser. Ser(ponto). Ser um ser. Pra ser um ser, preciso ser. E apenas ser (ponto).

“Violeta diz levezas que não se podem dizer”. É na sutileza que se arrebenta. Prefiro um tapa na cara. A sutileza é uma falsa indiferença. Cruel.

“X – o instante impronunciável”. É impronunciável.

“E eu estava só, sem precisar de ninguém. É difícil porque preciso repartir contigo o que sinto”. Falsa ilusão, humanóides!

A busca para entregar-me aos instantes me faz perder diversos instantes. “Realizo o realizável e o irrealizável eu vivo”. Presença leve. Levíssima. Quero gozá-la.

Vivo. Viva. “Traga-me um copo d´água”. Pode me matar.

(Em aspas, trechos de água viva - Clarice Lispector)

quinta-feira, setembro 15

Caçador de borboletas

Essa coisa de querer captar
O sentimento-mais no instante-tal,
Faz parte de um desespero momentâneo,
De uma ânsia suspirática.

Vem cá, borboleta,
Senta aqui do meu ladinho,
Não é todo dia que vejo um inseto metamorfosiático
Violeta com bolinhas amarelas.

Eu pareço piada de cursinho de inglês!

sábado, setembro 10

Nas lúcidas entrelinhas

Sou um bêbado lúcido
E ofereço o que não tenho
Só pra ter o que não ofereço.
Essa história de dar pra receber
É conto da carochinha.
Eu dou pra dar
E recebo pra receber.
Dou por dar
E recebo por receber.
E por perceber,
Que dou o dável,
Quero receber o recebível

sexta-feira, setembro 9

*-mais

Acordou ensopado. Suor também, mas, sobretudo, uma sopa de sentimentos, palavras, letras, fluidos e pessoas. Sim, uma sopa de pessoas, como se não soubesse distinguir o aipo da cebola. As pessoas estavam misturadas como aipo e cebola e é estranho como não conseguia diferenciar coisas tão distintas. E isso porque ninguém faz idéia da distância entre as pessoas ensopadas - muito maior do que entre o aipo e a cebola. Nessa mistura de sentimentos ficava difícil distinguir o dele. Há algum sentimento em mim que não seja meu? Ficou com essa pergunta na cabeça e, apesar de não tê-la respondido completamente, chegou à conclusão de que alguns sentimentos são mais nossos do que outros e o que ele chamou de sentimento dos outros na verdade não era sentimento, e sim, macaquice. Queria se livrar das macaquices e encontrar os sentimentos-mais pra poder focá-los. Nunca gostou muito da idéia de foco, mas nos últimos tempos acordava ensopado todas as noites e vinha achando que era culpa da falta de foco, apesar de saber que isso era uma grande macaquice. Acordar ensopado todas as noites deixa as pessoas piradas, misturando os conceitos, perdendo a coerência, buscando se livrar das macaquices por meio de macaquices. Valia tudo pra encontrar o sentimento-mais. Há apenas um? Não, não, mas no exato momento em que me relatava a história buscava o sentimento-supra-mais, um pelo qual pudesse canalizar todos os fluidos da manhã ensopada. Meu caro amigo, não há sentimento digno de todos os nossos fluidos, disse-lhe, mas o pobre rapaz febril não conseguia entender que o que rasgava o seu ensopado coração iria furar feito uma flecha o coração de qualquer pessoa para a qual direcionasse tal sentimento com a intensidade que lhe vinha. Se encharcar qualquer pessoa ou sentimento – não sabia ao certo a distinção, assim como do aipo e da cebola – corria o risco de matar tal pessoa ou sentimento afogado. Contrargumentou que afogar o sentimento seria uma boa, mas lembrei dos momentos em que reclamava da falta de sentimento e nesse momento percebi a relevância da indistinção – mesmo sem saber se essa palavra existe – entre o sentimento e a pessoa. Afogar o sentimento é afogar a si mesmo. Ser humano é de querer, dizia um poeta baiano, e de sentir, dizia a ele. Afogar o sentimento é um suicídio lento. Encontrar os sentimentos-mais, meu caro amigo, vai implicar em muitas macaquices, em muitas noites encharcadas, em muitos fluidos desperdiçados. Ele odiava a idéia de desperdício dos fluidos, mas lembrei ao meu impetuoso amigo que se não os desperdiçasse com os sentimentos-menos iria afogar os sentimentos-mais, consequentemente a pessoa-mais e, como já disse, isso é um suicídio lento.

E só isso

Ao exercício de estar realmente só, deve preceder um real querer de estar só. E se tudo que busca é a piedade, esteja certo de que a encontrará. E eu terei pena de você.

terça-feira, setembro 6

Meio inteiro não vale

Se já sei os meios pra não ser meio,
Porque não sou inteiro?

segunda-feira, setembro 5

Minto que nem sinto

O meu tempo é hoje
Eu não vivo no passado
O passado vive em mim

(Paulinho da Viola – trecho do documentário “O meu tempo é hoje”)